quinta-feira, 10 de junho de 2010

Mexilhões da Foz


Um dos meus tios maternos — homem muito comunicativo, dado a línguas e culturas estrangeiras — fazia amizades com uma facilidade impressionante com qualquer estrangeiro que lhe aparecesse no bar da praia, negócio da família na altura.

Eu sempre venerei este tio.

Era como que o seu porta-chaves — acompanhava-o para todo o lado (ou para onde me deixavam ir) e seguia-lhe todas as passadas.

Eu era a menina do tio.
E ele era o tio porreiraço que qualquer sobrinho gostaria de ter.

Era o maior desenrasca que conheci.
Nunca o vi atrapalhado com nada.

Tinha sempre solução para tudo —
mas nada programado.

Fazia tudo em cima do joelho…
e corria sempre bem.

Quase tudo.
Quase sempre!

O bar situava-se junto ao velho cais da praia da Foz do Arelho e, nessa altura, a água da lagoa era tão límpida que se via todo o fundo — bem como tudo o que lá estava.

Não se falava em poluição.
Nem se sabia bem o que isso era.

Os estrangeiros ficavam fascinados com a beleza bruta da Foz.
Tudo era puro.

Até o povo de lá.
(Mas adiante…)

Uma das especialidades do bar era o mexilhão aberto ao natural, acabado de apanhar.

Verdade, verdadinha!

Sempre que era pedida uma dose, ouvia-se a voz lá de dentro:

— Sai uma dose de mexilhão!!!

Lá ia o meu tio até aos pilares do cais, arrancar mais uns cachos do afamado mexilhão — fresquinho, fresquinho — que depois, pelas mãos da minha avó, cozinheira de mão cheia, se transformava num petisco capaz de fazer qualquer um fechar os olhos de prazer.

Os clientes adoravam.

E os estrangeiros, então… deliravam com toda aquela naturalidade com que tudo acontecia.


Sílvia Q. Sanches
2010









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