quarta-feira, 10 de junho de 2009

Peixinhos da sorte!

O meu avô materno vinha de uma família numerosa.
Eram muitos irmãos — nem sei bem quantos.

Devido às dificuldades da vida, cedo se separaram e cada um tentou a sua sorte em sítios diferentes. Uns em Alhandra, outros no Montijo, outros em Vila Franca de Xira, outros aqui nas Caldas… enfim, de Alenquer espalharam-se por vários lugares — até para Inglaterra!

Um desses irmãos — o mais carismático que conheci — correu meio país com a sua também grande família, desde a Marinha Grande até Lisboa, onde acabou por se instalar numa encosta na zona do Areeiro.

Foi lá que construiu a sua alegre casinha.

Com tijolos encontrados aqui e ali, tábuas, folhas de zinco e o que mais aparecesse.

Um verdadeiro “palácio”.
Bem ao jeito de um filme do Fellini.

Esse meu tio vivia do seu negócio — aliás, de vários negócios.

A verdade é que toda a família tinha espírito empreendedor e alma de inventor. Muito imaginativos. Uns para a fotografia, outros para outras artes de viver.

O meu avô, por exemplo, construiu a sua primeira máquina fotográfica à la minute, bem como cenários e engenhocas para a fotografia. Mais tarde, reinventou-se ainda noutros negócios.

A maioria dedicou-se à fotografia.

Mas esse irmão — o tio António, o mais velho — não era muito dado a essas artes. Tinha mais jeito para os animais.

Instalou então a sua banca no Martim Moniz, mesmo ao lado do Hotel Mundial, a poucos metros de uma grande loja de animais.

Vendia passarinhos.

Alguns criados no seu “palácio” do Areeiro, outros apanhados nas zonas verdes que ainda existiam em Lisboa.

Um dia — e porque o negócio florescia — resolveu alargá-lo.

E dedicou-se também… aos peixinhos.

Começou por vender uns pequenos “peixes” que os filhos apanhavam em charcos de terrenos baldios ali perto.

E, com o seu toque genial, baptizou-os de:

Peixinhos da sorte!

Sorte para ele…
azar para quem comprava!

Olha os peixinhos da sorte! — apregoava.

Esses pequenos peixinhos eram, pura e simplesmente… girinos!

E quando alguém voltava a reclamar que o “peixinho” se tinha transformado numa rã, ele respondia com o ar mais ingénuo que conseguia:

Vejam bem… como é que a rã foi comer o seu peixinho da sorte! Isto há coisas que nem lembram ao diabo, heim?!

Pois o diabo, ao pé deste meu tio, teria muito que aprender…

Eh, eh, eh!

Que família.

Sílvia Q. Sanches
2009

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