Vivia perto da escola e, nas férias, ia brincar para o pátio do recreio.
Não havia vedações altas nem portões fechados à chave.
Os meninos iam para a escola a pé — e tinham a chave de casa.
Eu já sabia estrelar um ovo e fritar umas salsichas, caso a minha mãe não chegasse a tempo de me fazer o almoço.
Durante a tarde, frequentava o ATL do Colégio Ramalho Ortigão.
Fazia os deveres, sim… mas o pensamento estava sempre na brincadeira.
No mundo da fantasia.
Princesas e rainhas.
Filhas e mães.
Guerreiros do espaço…
Imitávamos séries da época, como Star Trek.
Eu gostava de ser a Maya, uma das tripulantes da nave Enterprise, vulcaniana como o Mr. Spock — capaz de se transformar nas mais variadas criaturas.
Isso fascinava qualquer criança.
Os nossos walkie-talkies, telefones portáteis, armas laser… eram pedaços de cadeiras velhas amontoadas num canto do recreio.
Neles desenhávamos, com canetas de feltro, teclas, ecrãs e botões imaginários.
Não tínhamos “Magalhães”, “PlayStations”, “Nintendo DS”, tablets…
Nem sequer sonhávamos que um dia andaríamos com um pequeno aparelho no bolso — um telemóvel — quanto mais iPhones.
E, no entanto, já inventávamos mundos inteiros.
Hoje, com tanta escolha e tanta oferta, as crianças quase não precisam de imaginar.
Antes de sonharem… já têm tudo à disposição.
Sou de uma geração feliz.
Uma geração que brincava na rua, subia aos muros, percorria o bairro de bicicleta e jogava à macaca ou ao pião no meio da estrada.
Hoje, temo por uma geração diferente.
Crianças que não têm a mesma liberdade.
Que não podem sair de casa ou da escola sem a companhia de um adulto.
Que têm menos espaço para criar, imaginar, explorar.
Até a comida é diferente — manipulada, transformada — sem sabermos bem que impacto terá no futuro.
E a vida social…
tão distante da que conhecemos.
Hoje, muitas vezes, mais solitária.
Mais virtual.
Será que os meus netos serão gerados via internet?
Sílvia Q. Sanches
8 de janeiro de 2014
Sem comentários:
Enviar um comentário