quinta-feira, 10 de junho de 2010

A marmelada - sabores de infância

A chegada da primavera transporta-me à minha infância.
À felicidade simples do dia a dia de uma criança.
Aos dias enormes… em que até os rebuçados tinham outro sabor.

A marmelada… então nem se fala.

Vejo a minha avó a dar-me uma moeda de vinte e cinco tostões para eu ir buscar marmelada ao Sr. Madeira — mercearia e retrosaria gerida por pai e filhos solteirões, sempre muito aprumadinhos e atenciosos.

Todo aquele ambiente…

O grande balcão.
Os armários de madeira até ao teto.
Os frascos cheios de chupa-chupas.
Os chocolates Regina na vitrina por detrás do balcão.
A máquina registadora, com tantos botões como rebuçados dentro dos frascos.
O cheiro do colorau, vendido a peso, em pequenos pacotes de papel, dobrados como rissóis.

E aqueles homens…

Autênticos autómatos silenciosos no seu trabalho.
Formigas zelosas do seu dever.
De bata castanha e postura irrepreensível.

Encostava-me ao topo do grande balcão de mármore, aguardando a minha vez, observando a azáfama daqueles três.

Lá passava o Sr. Chico — o mais novo — que, com um ar cúmplice, me piscava o olho, como quem dizia que já me tinha visto… e já sabia ao que eu vinha.

Chegada a minha vez, nem precisava de falar.

Ao ver-me fixar o olhar no tabuleiro castanho coberto de celofane, o Sr. Chico — com a mesma delicadeza com que atendia as senhoras mais velhas — pegava na espátula de madeira e cortava, com precisão quase cerimonial, um cubo daquela preciosidade.

Embrulhava-o em papel vegetal.
Pesava-o na enorme balança.
E voltava a embrulhá-lo em papel manteiga.

Os seus dedos, mestres na arte do embrulho, moviam-se com a rapidez de um mágico — como quem faz surgir uma flor de trás da orelha de alguém.

Eu levava aquele cubinho celestial…

E, mal chegava a casa da minha avó, nem esperava pela fatia de pão.

Trincava-o como se fosse um bolo.

Hummm…

Ainda hoje sinto aquele sabor.

O verdadeiro gosto dos sabores da infância —
os que nunca mais se esquecem.

"Eu sou pequenina,
Não sei fazer nada,
Sei ir à cozinha
Comer marmelada."

Sílvia Q. Sanches
2010

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