terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Eutanásia

Entre o direito à vida e o direito à dignidade


Foi como auxiliar de saúde que testemunhei histórias de sofrimento.

Assisti a momentos de profunda angústia — vidas desgastadas, onde a morte tardava em chegar.

Situações em que, mesmo com todo o conforto e cuidados de saúde, os idosos pediam ajuda para terminar aquele sofrimento.

O medo de se tornarem um fardo para os que os rodeavam estava sempre presente.
E o direito à autodeterminação, à liberdade de escolha, era-lhes negado.

Quando se chega ao fim da vida sem mobilidade, incapaz de comer pela própria mão ou de realizar as atividades mais básicas do dia a dia — levantar-se, vestir-se, cuidar da própria higiene — que sentido faz permanecer assim, preso a um leito, a definhar lentamente?

Todos temos direito a uma vida digna.
E também a uma morte digna.

Se a situação é irreversível, para quê viver com o auxílio de máquinas?

Grande parte da classe médica rege-se pelo respeito absoluto pela vida humana desde o seu início, evitando qualquer ação que a possa contrariar. No entanto, por vezes, esquece-se que também deve zelar pela dignidade do doente e pela qualidade da sua vida — ou da sua ausência.

Desligar máquinas que mantêm um corpo em morte cerebral levanta questões éticas, médicas e religiosas. Para alguns, trata-se de uma usurpação do direito à vida. Para outros, uma forma de evitar o prolongamento do sofrimento.

Idealmente, deveria existir sempre o consentimento do próprio.
Mas nem sempre isso acontece.

Ainda assim, quando não há qualquer esperança de recuperação, talvez se deva ouvir o apelo do bom senso — e não permitir que o prolongamento artificial da vida se sobreponha ao seu verdadeiro sentido.

A ciência deve servir para cuidar, mas também para aliviar o sofrimento.
E, quando já não há vida digna possível, talvez deva permitir uma morte digna.

A legislação, por sua vez, não acompanha esta complexidade.
Quem ajuda um doente a terminar o seu sofrimento pode ser condenado por homicídio.

A eutanásia é um tema profundamente polémico.
Passa por questões éticas, morais, religiosas e legais.

Mas, acima de tudo, passa pela capacidade de compreender o sofrimento do outro — reconhecendo que ninguém é igual e que cada um encara a vida e a morte de forma diferente.

Sou a favor da eutanásia —
desde que a condição do doente, seja ele idoso, adulto ou criança, seja cuidadosamente avaliada e não exista qualquer possibilidade de uma vida digna.

Sílvia Q. Sanches
Dezembro de 2013