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domingo, 29 de março de 2026

Domingo de Ramos

Lembrando o Caminho dos Remédios, onde a Quaresma se faz visível nas cruzes e nas faixas roxas, volto hoje ao meu culto.

Caminhar.

Hoje é o domingo anterior à Páscoa — o Domingo de Ramos.

Volto ao mar.

O vento está fresco.
O mar traz força.

Parece inquieto, como se tivesse algo para devolver.

Na tradição, este é o dia em que se erguem ramos — sinais de acolhimento, de esperança, de reconhecimento.
Ramos verdes, vivos, colocados no caminho como promessa.

Mas aqui, à beira-mar, os ramos são outros.

A praia está cheia de restos — plásticos, objetos, fragmentos de descuido humano.
Talvez estes sejam os ramos com que a natureza nos recebe agora.
Não de celebração, mas de devolução.

O mar devolve tudo, como quem se recusa a guardar aquilo que não lhe pertence.

Hoje nem as gaivotas vejo.
Estão ausentes. Ou talvez em recolhimento.

Caminho mais um pouco.

E encontro um corpo.

Na areia húmida, entre as marcas das ondas, está um ser imóvel.
Parece-me um golfinho.
O corpo marcado, exposto, devolvido pelo mar.

Fico parada.

Há qualquer coisa de profundamente simbólico naquela imagem.

Como se tivesse sido ali deixado.
Como se fosse uma espécie de crucificação silenciosa.

E não consigo evitar a pergunta:

Que pecado terá cometido?

Ou terá vindo lembrar-nos de algum?

Nestes dias fala-se de morte e de redenção.
De um corpo que cai para que algo possa renascer.

Mas ali, diante de mim, o que vejo é outra coisa.

A vida interrompida.
O excesso devolvido.
A consequência.

Talvez o mar não traga respostas.
Talvez apenas nos obrigue a olhar.

Fico ali por instantes.

Sem fotografar.
Sem tocar.
Apenas a ver.

Continuo.

O vento mantém-se.
O mar insiste.

E eu sigo caminho.

Hoje o meu culto não foi apenas paz.

Foi também confronto.

Porque talvez os ramos que hoje levantamos
já não sejam de celebração —
mas de alerta.

E talvez seja isso que estes dias pedem:

não apenas fé —
mas consciência.

Caminhar é o meu pequeno culto da paz.

domingo, 8 de março de 2026

Caminho dos Remédios

No meu culto dominical, depois de percorrer a praia, detenho-me no Caminho dos Remédios.

Os cruzeiros surgem marcados com faixas roxas que o vento move devagar. Penso que assinalam a Via-Sacra. Estamos na Quaresma — esse tempo suspenso entre o excesso do Carnaval e a promessa da Páscoa.

As flores também se vestem de roxo.
É a cor da época.

O roxo impõe silêncio.
Assinala a vigília da Páscoa.

Penso na Via-Sacra como a caminhada de Cristo com a cruz às costas, as várias paragens antes da morte. Um percurso feito de cansaço, quedas e continuidade — continuar apesar de tudo. Conheço pouco da religião católica, mas reconheço este símbolo: caminhar carregando aquilo que pesa.

E, enquanto caminho, ocorre-me a ideia de que Cristo fez a sua Via-Sacra num lugar seco, de pedra e poeira. Num quase deserto.

Pergunto-me como teria sido se esse caminho tivesse acontecido junto ao mar — com o som constante das ondas, o sal no ar, as gaivotas atravessando o céu. Talvez a morte parecesse menos dura. Talvez o sofrimento encontrasse algum consolo na imensidão da água.

Nenhuma morte é bonita.
Mas o mar tem essa capacidade de suavizar tudo o que toca.

Penso também que alguém tão ligado a pescadores acabou por morrer longe do mar. Há nisso uma espécie de desencontro final, como se o último caminho tivesse sido feito afastando-se daquilo que respira vida.

E as gaivotas.

Ao longo do caminho estão ali, pousadas, imóveis, atentas. Não fogem, não se perturbam com a passagem das pessoas. Parecem ocupar o trilho como sentinelas silenciosas, marcando o lugar.

Talvez estejam à espera de ver Jesus Cristo passar outra vez. Como se reconhecessem o caminho. Como se aguardassem uma repetição antiga, um regresso improvável.

Saio do Caminho dos Remédios. Já não sigo as cruzes. No Santuário dos Remédios acendo uma vela. Peço paz no mundo, luz para todos.

Não sou religiosa, mas tenho a minha fé — uma fé tranquila, sem grandes rituais, mais feita de intenção do que de regras.

De regresso a casa.

Sinto-me preparada para o resto da semana.

Quando o faço, é como um reforço silencioso — um renovar de energia, um alinhamento interior antes dos dias que vêm.

Um pequeno ritual meu.



domingo, 1 de março de 2026

Caçadora de Conchas

 Escrever é a minha forma de voltar a casa. E a minha casa é aqui, de pés na areia.


Caminho na praia como quem procura qualquer coisa sem nome. Sempre fui uma caçadora de conchas. Há neste gesto algo de instintivo, antigo: baixar-me, escolher, virar na mão aquilo que o mar decidiu devolver.

Gosto particularmente dos búzios. Guardam ecos, como se ainda transportassem dentro de si a respiração do oceano. Apanho-os sem pensar, como quem recolhe fragmentos de histórias.

Sempre recolhi.

Conchas são restos de vida. Casas que já foram habitadas. Estruturas que cumpriram o seu tempo e que o mar devolve, polidas, transformadas. Não são o que foram — mas não deixaram de ter valor.

Talvez por isso me identifique tanto com elas.

Durante muito tempo pensei que recolhia apenas cascas vazias. Que insistia em guardar o que já tinha terminado. Que habitava búzios onde a vida já tinha partido.

Tal como a anémona que troca de abrigo para continuar a crescer, também nós habitamos lugares provisórios. Habitar e partir não é fracasso — é movimento.

Hoje, porém, entre a areia e as algas, encontro menos conchas e mais plástico. Pequenos sinais da presença humana espalhados como uma nova espécie invasora. Penso que talvez fosse mais útil apanhar tampinhas em vez de conchas. Talvez o verdadeiro cuidado seja agora recolher aquilo que nunca deveria ter chegado ao mar.

E ainda assim continuo a apanhar conchas.

Pergunto-me se não será essa a verdadeira diferença: a concha é transformação natural; o plástico é permanência sem evolução.

Talvez a vida seja isso mesmo — aprender a distinguir o que é memória viva do que é peso inútil.

Penso na paz da praia, na sorte de poder caminhar sem medo, enquanto há mundos em guerra, planos suspensos, vidas interrompidas. A tranquilidade não é culpa. É responsabilidade.

Entre conchas e plástico, entre silêncio e ruído, compreendo que a praia é espelho. Mostra o que já foi e o que ainda pode ser.

Continuo a apanhar conchas.

Mas já não as recolho por carência.
Recolho-as por reconhecimento.

Porque cada casca polida pelo mar lembra-me que também eu fui sendo transformada pelas marés da vida.

Hoje trouxe poucas conchas comigo.

Mas trouxe algo mais importante:
a certeza de que já não preciso de habitar búzios vazios para me sentir inteira.