domingo, 29 de março de 2026

Domingo de Ramos

Lembrando o Caminho dos Remédios, onde a Quaresma se faz visível nas cruzes e nas faixas roxas, volto hoje ao meu culto.

Caminhar.

Hoje é o domingo anterior à Páscoa — o Domingo de Ramos.

Volto ao mar.

O vento está fresco.
O mar traz força.

Parece inquieto, como se tivesse algo para devolver.

Na tradição, este é o dia em que se erguem ramos — sinais de acolhimento, de esperança, de reconhecimento.
Ramos verdes, vivos, colocados no caminho como promessa.

Mas aqui, à beira-mar, os ramos são outros.

A praia está cheia de restos — plásticos, objetos, fragmentos de descuido humano.
Talvez estes sejam os ramos com que a natureza nos recebe agora.
Não de celebração, mas de devolução.

O mar devolve tudo, como quem se recusa a guardar aquilo que não lhe pertence.

Hoje nem as gaivotas vejo.
Estão ausentes. Ou talvez em recolhimento.

Caminho mais um pouco.

E encontro um corpo.

Na areia húmida, entre as marcas das ondas, está um ser imóvel.
Parece-me um golfinho.
O corpo marcado, exposto, devolvido pelo mar.

Fico parada.

Há qualquer coisa de profundamente simbólico naquela imagem.

Como se tivesse sido ali deixado.
Como se fosse uma espécie de crucificação silenciosa.

E não consigo evitar a pergunta:

Que pecado terá cometido?

Ou terá vindo lembrar-nos de algum?

Nestes dias fala-se de morte e de redenção.
De um corpo que cai para que algo possa renascer.

Mas ali, diante de mim, o que vejo é outra coisa.

A vida interrompida.
O excesso devolvido.
A consequência.

Talvez o mar não traga respostas.
Talvez apenas nos obrigue a olhar.

Fico ali por instantes.

Sem fotografar.
Sem tocar.
Apenas a ver.

Continuo.

O vento mantém-se.
O mar insiste.

E eu sigo caminho.

Hoje o meu culto não foi apenas paz.

Foi também confronto.

Porque talvez os ramos que hoje levantamos
já não sejam de celebração —
mas de alerta.

E talvez seja isso que estes dias pedem:

não apenas fé —
mas consciência.

Caminhar é o meu pequeno culto da paz.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Eutanásia — entre o direito e a dor


Em 2013 escrevi sobre eutanásia.

Escrevi a partir da experiência que tive como auxiliar de saúde, onde testemunhei o sofrimento de muitos — vidas presas a corpos que já não respondiam, pedidos silenciosos de alívio, olhares que diziam mais do que palavras.

Na altura, a minha posição era clara:
defendia o direito a uma morte digna quando já não existia qualquer possibilidade de vida com dignidade.

Hoje, mais de uma década depois, continuo a pensar o mesmo.

Mas penso… com mais peso.

Porque, entretanto, os rostos deixaram de ser apenas memórias — tornaram-se histórias concretas, públicas, difíceis de ignorar.

Recentemente, o caso de uma jovem espanhola trouxe novamente este tema para o centro do debate.

Uma vida interrompida de forma brutal.
Um corpo que deixou de responder.
Uma existência marcada não só pela limitação física, mas por um passado de violência e dor.

Durante anos, lutou na justiça pelo direito de decidir o seu próprio fim.

Contra opiniões.
Contra movimentos.
Contra quem acreditava saber melhor o que seria “vida” para ela.

E, no fim, conseguiu.

Mas ficou uma pergunta — simples e devastadora:

“E quanto a toda a dor que sofri ao longo destes anos?”

Essa pergunta ecoa.

Porque este tema nunca foi apenas sobre vida ou morte.
É sobre sofrimento.

Sobre dignidade.
Sobre liberdade.

E, acima de tudo, sobre o direito de cada um definir o que é suportável para si.

A ciência evoluiu.
A medicina avançou.
A sociedade discute mais.

Mas continuamos a tropeçar no mesmo ponto:

quem decide?

A lei tenta proteger.
A ética tenta orientar.
A religião tenta dar sentido.

Mas nenhuma dessas estruturas sente a dor.

Nenhuma vive dentro do corpo de quem sofre.

Continuo a acreditar que a vida deve ser preservada.

Mas também acredito que prolongar sofrimento sem esperança não é cuidar — é adiar o inevitável.

Não se trata de desistir da vida.
Trata-se de respeitar quem já não a consegue viver.

Cada caso é único.
Cada história carrega um peso impossível de medir de fora.

E talvez seja aí que tudo se resume:

não decidir pelos outros aquilo que só eles podem sentir.

A eutanásia continuará a ser um tema polémico.

Mas, para lá das leis, das opiniões e dos julgamentos, há uma realidade que não pode ser ignorada:

há dores que não se veem…
mas que tornam a vida insuportável.

E é nesse lugar silencioso que esta decisão acontece.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Politiquices — antes e depois

Revendo um texto antigo de 2009

Há quase vinte anos atrás, tive uma acesa discussão com um amigo, via SMS, por causa da política.

Ele acusava o Sócrates e toda a classe política por todas as nossas desgraças, mas eu discordei.

Entrámos então num autêntico debate político.

Ele dizia que, por causa do Sócrates, o país estava como estava.
Eu, sem querer defendê-lo, respondia que o problema não era de agora — que vinha de trás.

Depois vieram outros nomes, outras acusações, outros “culpados”.
E eu mantinha a mesma ideia:

O problema maior não está apenas nos políticos.
Está em nós.

No povinho tuga.

Sabemos criticar, sabemos apontar o dedo, sabemos lamentar…
mas arregaçar as mangas e fazer diferente — isso já custa mais.

Estamos sempre à espera de subsídios, de ajudas, de soluções vindas de fora…
mas mudar por dentro — pouco.

E, no entanto, fomos nós que elegemos quem lá está.

Queríamos gente melhor?

Então talvez devêssemos começar por ser melhores também.

Os nossos pais lutaram por uma liberdade que nos foi entregue como herança.
E nós… muitas vezes, não soubemos o que fazer com ela.

Eu incluída.

Durante muito tempo entrei no mesmo jogo:
falar, criticar… e pouco agir.

Mas uma coisa fiz — e continuo a fazer:

Votei.

Não sei se sempre bem.
Mas votei.


Quase vinte anos passaram.

Hoje olho para essa conversa com outros olhos.

O tempo confirmou algumas coisas — e desmontou outras. O caso do ex-ministro Sócrates arrasta-se há anos na justiça, num processo que parece não ter fim à vista. Entre acusações, defesas e adiamentos, fica a sensação de um país suspenso, à espera de respostas.

Mas, mais do que isso, ficou clara uma coisa:

O problema nunca foi só um nome.

Continuei a votar.
Nem sempre com certezas — mas com consciência.

Fui tentando ser mais participativa, mais atenta, menos reativa.
A idade também ajuda.
Traz distância… mas também responsabilidade.

Percebi que criticar é fácil.
Fazer melhor… nem sempre.

Os amigos mudaram.

Uns afastaram-se, outros aproximaram-se.
A vida tratou de filtrar.

Ficaram menos — mas ficaram melhor.

O mundo, esse, tornou-se ainda mais virtual.

Hoje até se estuda à distância.
Vivem-se relações à distância.
Discutem-se ideias à distância.

E, muitas vezes, também se julga à distância.

Avançámos muito.

Para o bem — e para o mal.

Mas há coisas que continuam iguais:

Fala-se muito.
Faz-se pouco.

A facilidade de criticar mantém-se.
A dificuldade de fazer diferente — também.

E, no meio disto tudo, continuo a acreditar no mesmo:

A mudança começa em cada um.

Devagar.
Imperfeita.
Mas real.

domingo, 22 de março de 2026

Filhos do Mar e do Vento


Entre a maré vazia e o regresso do sol, há filhos que não se prendem — pertencem ao mar.

A Páscoa aproxima-se.
O bom tempo chegou — e, com ele, a praia enche-se de gente. 

Maré vazia., a areia estende-se como um espelho húmido, infinito, onde o céu se demora e as nuvens se duplicam em silêncio. Caminha-se mais devagar — sente-se o tempo recuar.

Desperta a vontade de caminhar e a vontade preparar o físico para o bikini no verão.

Caminhar sem destino, apenas com o som ritmado das ondas a acompanhar os passos.

Já não caminho sozinha.

O crowd intensifica-se — famílias, aprendizes de surf, pranchas debaixo do braço, risos que se perdem no vento. As escolas multiplicam-se, como se o mar, de repente, tivesse mais alunos do que nunca.
E, no meio desse movimento, quase por acaso, encontro-o.

O meu filho.

No meio de tantos iguais a ele, poderia não o distinguir.
Mas, assim que vi aquele esbracejar — aquela postura de peixinho dourado com barbatanas de tubarão — reconheci-o de imediato.

Está dentro de água.

Entre ondas e instruções, ensina alguém a levantar-se sobre a prancha. Há qualquer coisa de natural naquele gesto — como se sempre tivesse sido assim.

Cresceu com a brisa do mar.
Com o sal na pele.
Com este horizonte aberto a moldar-lhe o olhar.

Vejo-o ali — e percebo.

Já não caminho sozinha. 
Desde cedo que o entreguei ao mar.
As conchas acompanham-me.

Sento-me na areia. O sol aquece-me a pele.
Este contacto direto do sol na pele é a energia de que preciso para o resto da semana.

Pego numa concha.
Guardo-a, como quem guarda um instante.
Porque as conchas são isso:
pequenos arquivos do mar, fragmentos de tempo que chegam à areia depois de longas viagens invisíveis.

Talvez os filhos sejam assim também.

Partem de nós, percorrem o seu próprio oceano e deixam-nos apenas sinais — suficientes para sabermos que continuam a pertencer ao mesmo mar. 

É assim que deve ser.
O mar é a casa dele.
Ou não fosse ele um verdadeiro peixe.

sábado, 21 de março de 2026

Quando a música era um lugar — Trovante, 50 anos depois


Ontem não fui apenas a um concerto.
Fiz uma vigem no tempo.

Entrar no Pavillhão atlantico foi como atravessar uma fronteira invisível — não geográfica, mas emocional. De repente , vendo as fotos de uma carreira projetadas nos ecras que ladeavam o placo, tudo o resto parecia parado no tempo.

O ambinte, a simplicidade da produção, quase improvisada — como feita “em cima do joelho” — remetiam para uma época em que a música se fazia assim: sem artifícios, sem excesso, apenas com presença. Havia ali qualquer coisa de essencial. Uma verdade desarmante, típica de uma geração pioneira dos grandes espetáculos acústicos.

Não fui ouvir música. Fui senti-la — como quando era miúda, sem perceber todas as palavras, mas percebendo tudo o resto. Há qualquer coisa difícil de explicar quando a música não entra pelos ouvidos, mas diretamente pelo peito. Foi assim desde o primeiro momento.

Os Trovante vieram recordar uma geração.

Formados em 1976, quando ainda se aprendia a viver em liberdade, cresceram num contexto muito particular da sociedade portuguesa. Havia uma urgência de expressão, uma fome de cultura, uma vontade quase ingénua de reconstruir o país também através da música. Mais do que um grupo, eram um encontro — um conjunto de amigos com uma relação natural com a cultura, algo que, na época, não estava ao alcance de todos.

E isso ainda se sente.

A música deles nunca soou forçada. Nunca foi um produto. Foi sempre uma extensão de quem eram. Entre o popular e o erudito, entre a tradição e a cidade, entre o íntimo e o social, criaram uma linguagem própria — com letras poéticas, carregadas de significado, mas ditas com leveza.

Cinco décadas passaram.
Mas só os corpos o denunciam.

No palco, não havia artifício. Não havia espetáculo no sentido moderno da palavra. Havia verdade. Parecia uma reunião de amigos — e nós, ali, convidados a fazer parte. O espírito permanece intacto: leve, cúmplice, quase juvenil.

O público não estava ali apenas para ouvir. Estava para lembrar. Havia uma emoção difícil de nomear — não era apenas nostalgia, era algo mais denso, mais físico. Em momentos como Balada das Sete Saias, Saudade, Perdidamente ou 125 Azul, a sala inteira parecia respirar ao mesmo tempo.

Como se cada pessoa tivesse acesso a uma memória sua — diferente, mas partilhada.

Um fio invisível ligava-nos a todos.

E, de repente, deixámos de ser indivíduos isolados para voltar a ser um coletivo. Algo raro nos dias de hoje.

Enquanto os ouvia, pensei no tempo. Não no tempo que passou, mas no tempo que ficou. Porque há coisas que não envelhecem — ficam guardadas num lugar interior onde continuamos a ser quem fomos, sem esforço.

Durante duas horas, fui novamente aquela menina sentada no chão, a ouvir música “dos grandes”. Mas agora com outra camada: não só a emoção, mas também o entendimento. Cada palavra, cada silêncio, cada canção fazia sentido de uma forma diferente. Mais completa.

Num tempo de excesso, este concerto foi um regresso à simplicidade. Não à simplicidade pobre, mas à simplicidade cheia — aquela que nasce quando já não é preciso provar nada.

A música não se impôs. Aproximou-se.
Não brilhou — iluminou.

Saí de lá com uma sensação serena. Não de euforia, mas de verdade. Como se tivesse estado num lugar onde não é preciso fingir nada.

E percebi, quase em silêncio:

há músicas que não ouvimos…
estão entranhadas em nós.
À flor da pele.

 https://photos.app.goo.gl/jybJyrfmmm1xjVP47



domingo, 15 de março de 2026

Crescer em liberdade II

 A liberdade também se aprende


A minha infância foi vivida numa época de grandes mudanças, provocadas pela revolução do 25 de Abril de 1974. Os meus pais, como tantos outros da sua geração, viviam aquele espírito com enorme intensidade e conseguiram transmitir-me o entusiasmo daquele momento histórico.

Cresci num tempo em que a liberdade ainda tinha sabor a descoberta.

Recordo-me de participar, com dezenas de outras crianças, em atividades ao ar livre organizadas pela então Casa da Cultura, no Parque D. Carlos I, nas Caldas da Rainha. Para nós, aquele parque era muito mais do que um espaço verde: era um verdadeiro laboratório de criatividade e convivência.

No chão desenrolava-se um enorme papel de cenário onde pintávamos e desenhávamos sem regras nem limites. Noutras mesas moldávamos barro ou plasticina — uma alegria quase infinita para mãos de criança.

Havia música, muita música. Sentávamo-nos na relva para ouvir concertos acústicos de Zé Barata Moura ou Zeca Afonso. Cantávamos de cor músicas que hoje fazem parte da memória coletiva do país: Joana Come a Papa, Olha a Bola, Manel ou Grândola, Vila Morena.

Na altura não tínhamos consciência do significado político e social daquelas canções. Para nós eram apenas músicas alegres que todos cantavam. Só muito mais tarde compreendi que aqueles momentos faziam parte de algo maior: a construção de uma nova cultura de participação e liberdade.

Hoje, olhando para trás com alguma distância e à luz de uma leitura mais social da realidade, percebo melhor o significado daqueles encontros. Não eram apenas atividades para crianças. Eram também uma forma de educação cívica e cultural, uma tentativa de criar cidadãos mais livres, mais participativos e mais conscientes do seu lugar na sociedade.

A cultura saía das salas fechadas e vinha para o espaço público. A música, a arte e a palavra tornavam-se parte da vida quotidiana.

Para nós, crianças, aquilo era simplesmente brincar. Mas, de certa forma, estávamos também a aprender a viver em liberdade.

Talvez por isso aquelas memórias tenham ficado tão vivas em mim. Não eram apenas momentos de infância; eram momentos de construção de identidade, de pertença e de descoberta do mundo.

E hoje percebo que muitas das ideias que ali se respiravam — participação, partilha, liberdade — continuam a ser pilares fundamentais de qualquer sociedade que se queira verdadeiramente democrática.

No fundo, sem o saber, comecei ali a aprender o que significa viver em liberdade.


sábado, 14 de março de 2026

O Dia em que Ferrel Disse Não ao Nuclear

O dia em que um povo escolheu o mar


Hoje trabalho para um resort de golfe.
Mas houve um tempo em que este lugar estava destinado a ser uma central nuclear.

Dia 15 de março assinala-se em Ferrel uma data importante.

Foi neste dia, em 1976, que a população saiu à rua para protestar contra a construção de uma central nuclear.

Passaram cinquenta anos.

Hoje esse episódio é lembrado como um dos primeiros grandes momentos do movimento ambientalista em Portugal — um tempo em que, poucos anos depois da Revolução dos Cravos, a sociedade começava a descobrir a força da participação cívica.

Eu tinha apenas quatro anos.

Na memória guardo apenas lembranças pouco nítidas do que se vivia na época. Lembro-me de ver os adultos a protestar. Lembro-me da preocupação dos mais velhos e da energia reivindicativa dos mais novos. A liberdade ainda era recente e muitos sentiam que era preciso defendê-la todos os dias.

Os meus pais estavam entre aqueles que lutavam contra tudo o que pudesse fazer lembrar o regresso à ditadura ou ao fascismo.

Naquele tempo ouviam-se as músicas de intervenção. Canções que davam voz às inquietações de uma geração.

Numa delas, Lena D’Água dizia, quase como numa canção de embalar inquieta:

Ó papão mau, vai-te embora…
deixa dormir o menino…

E depois vinha o aviso:

No olhar de uma criança
vê-se a luz do mundo.
Não lhe vamos deixar como herança
um planeta moribundo.

O refrão repetia-se nas manifestações e nas conversas:

“Nuclear não, obrigado.
Antes ser activo hoje
do que radioactivo amanhã.”

Nesse dia, a população não se limitou a protestar. Muitos deslocaram-se até ao próprio terreno onde a central nuclear iria nascer. Agricultores chegaram com os seus tratores, famílias inteiras ocuparam o espaço. À população local juntaram-se artistas, professores, pescadores, ambientalistas e políticos.

Era uma forma simples e poderosa de dizer que aquela terra lhes pertencia — e que o futuro dela também.

A democracia tinha pouco mais de um ano e meio. Depois de décadas de silêncio imposto pelo Estado Novo, sair à rua para defender o território era também uma forma de aprender a viver em liberdade.

Na altura talvez ninguém imaginasse exatamente como seria o futuro.

Mas hoje, olhando para trás, é impossível não pensar no impacto daquela decisão.

Se a central nuclear tivesse sido construída, este território seria certamente muito diferente.

Talvez não tivéssemos as praias que hoje temos.
Peniche talvez não fosse o destino de surf que se tornou.
Ferrel não teria crescido como cresceu — ainda que de forma algo desordenada, talvez à imagem da revolta de um povo pouco conformado.

Entretanto, a agricultura intensificou-se na região. A população sempre viveu muito ligada à terra, mas começaram a surgir novas formas de cultivo. Um exemplo foi o desenvolvimento da cultura da cenoura com sistemas de rega gota-a-gota — algo inovador para a época e que transformou a paisagem agrícola da zona.

E os campos de golfe da região que, provavelmente também não existiriam.

A central nuclear nunca nasceu.

No seu lugar nasceram outras formas de desenvolvimento: agricultura modernizada, turismo, resorts, surf, uma nova relação com o mar e com a paisagem.

O território seguiu outro caminho.

Talvez o capitalismo, tão contestado na época, tenha acabado por se transformar e procurar formas menos agressivas de ocupação do território.

Curiosamente, hoje trabalho num campo de golfe construído perto do lugar onde um dia se pensou erguer uma central nuclear.

E penso que, sem aquelas pessoas que saíram à rua em 1976, talvez tudo isto fosse diferente.

Há momentos em que a história muda de direção.

E consigo imaginar o contraste.

Onde poderia existir o símbolo do nuclear,
há hoje pranchas no mar.

Onde poderia existir uma central,
há pessoas a caminhar junto ao mar.

Onde tudo poderia ser grey,
existe agora um green.

Talvez seja essa a imagem mais bonita que ficou daquele dia:

um território que escolheu o mar.

E assim, mesmo sendo uma pequena aldeia junto ao Atlântico, Ferrel acabou ligada a um movimento global — o de pessoas que decidiram defender o lugar onde vivem


domingo, 8 de março de 2026

Caminho dos Remédios

No meu culto dominical, depois de percorrer a praia, detenho-me no Caminho dos Remédios.

Os cruzeiros surgem marcados com faixas roxas que o vento move devagar. Penso que assinalam a Via-Sacra. Estamos na Quaresma — esse tempo suspenso entre o excesso do Carnaval e a promessa da Páscoa.

As flores também se vestem de roxo.
É a cor da época.

O roxo impõe silêncio.
Assinala a vigília da Páscoa.

Penso na Via-Sacra como a caminhada de Cristo com a cruz às costas, as várias paragens antes da morte. Um percurso feito de cansaço, quedas e continuidade — continuar apesar de tudo. Conheço pouco da religião católica, mas reconheço este símbolo: caminhar carregando aquilo que pesa.

E, enquanto caminho, ocorre-me a ideia de que Cristo fez a sua Via-Sacra num lugar seco, de pedra e poeira. Num quase deserto.

Pergunto-me como teria sido se esse caminho tivesse acontecido junto ao mar — com o som constante das ondas, o sal no ar, as gaivotas atravessando o céu. Talvez a morte parecesse menos dura. Talvez o sofrimento encontrasse algum consolo na imensidão da água.

Nenhuma morte é bonita.
Mas o mar tem essa capacidade de suavizar tudo o que toca.

Penso também que alguém tão ligado a pescadores acabou por morrer longe do mar. Há nisso uma espécie de desencontro final, como se o último caminho tivesse sido feito afastando-se daquilo que respira vida.

E as gaivotas.

Ao longo do caminho estão ali, pousadas, imóveis, atentas. Não fogem, não se perturbam com a passagem das pessoas. Parecem ocupar o trilho como sentinelas silenciosas, marcando o lugar.

Talvez estejam à espera de ver Jesus Cristo passar outra vez. Como se reconhecessem o caminho. Como se aguardassem uma repetição antiga, um regresso improvável.

Saio do Caminho dos Remédios. Já não sigo as cruzes. No Santuário dos Remédios acendo uma vela. Peço paz no mundo, luz para todos.

Não sou religiosa, mas tenho a minha fé — uma fé tranquila, sem grandes rituais, mais feita de intenção do que de regras.

De regresso a casa.

Sinto-me preparada para o resto da semana.

Quando o faço, é como um reforço silencioso — um renovar de energia, um alinhamento interior antes dos dias que vêm.

Um pequeno ritual meu.



Caminhar em Liberdade

Hoje é 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

Um dia que recorda a luta — e também o luto — pelas mulheres que morreram na defesa de melhores condições de trabalho, de direitos e de igualdade.

Desde então muita coisa mudou. Nem tudo está resolvido, é verdade. A igualdade ainda não é perfeita em muitos lugares do mundo. Mas, olhando à minha volta, percebo que muito foi conquistado.

Hoje, enquanto caminho junto ao mar, penso nisso.

Talvez noutra época eu não pudesse fazer isto com tanta naturalidade: caminhar sozinha, escolher o meu caminho, estudar, escrever aquilo que penso, expressar opiniões, organizar a minha própria vida.

São coisas que hoje parecem simples.

Mas talvez não sejam assim tão simples. Talvez sejam também resultado de muitas lutas silenciosas que vieram antes de nós.

Não há assim tantos anos quanto isso que as mulheres nem sequer tinham direito a algo tão simples como uma manhã de domingo.

Lembro-me muitas vezes disso quando penso na geração da minha sogra. O domingo era dia de família em casa, com um almoço melhorado. Enquanto os homens iam dar o seu passeio matinal, as mulheres ficavam em casa a preparar o almoço, a tratar da casa, a garantir que tudo estava pronto para a família.

Era assim que as coisas funcionavam.

Hoje, enquanto caminho aqui junto ao mar, percebo que este simples gesto — caminhar sozinha numa manhã de domingo — também é resultado dessas mudanças.

Sempre senti uma certa admiração por mulheres irreverentes, aquelas que não se acomodam ao que é considerado socialmente correto. Talvez porque também nunca me tenha sentido muito confortável dentro dessas molduras.

Por isso identifico-me com mulheres como a surfista pioneira nesta zona. Imagino-a há décadas, quando uma mulher numa prancha ainda era algo estranho aos olhos de muitos.

Uma mulher numa prancha é, de certa forma, como uma bruxa na sua vassoura — uma figura livre, um pouco incompreendida, que desafia aquilo que os outros esperam dela.

Talvez seja por isso que estas mulheres ficam na memória.

Porque, ao abrirem caminho para si próprias, acabam também por abrir caminho para muitas outras.

Entretanto continuo a caminhar.

E, neste momento simples acompanhada das gaivotas, sinto que também esta liberdade tranquila faz parte daquilo que tantas mulheres antes de nós ajudaram a construir.

Talvez caminhar assim, em paz, também seja uma pequena forma de lhes agradecer.

Caminhar é o meu pequeno culto da paz.

segunda-feira, 2 de março de 2026

As voltas que a vida dá

 A paisagem também muda quando mudamos o olhar


Há textos que escrevemos quase em tom de brincadeira e que, anos mais tarde, acabam por nos devolver um sorriso irónico.

Há muitos anos escrevi neste blogue um pequeno texto sobre campos de golfe. Na altura parecia-me um luxo desnecessário: extensões de relva impecavelmente cortada a perder de vista, num país que tantas vezes se queixa da falta de terra cultivada e de crise na agricultura.

Cheguei mesmo a brincar que, ao ritmo a que as coisas iam, qualquer dia ainda teríamos de comer a relva dos campos de golfe… bem picadinha num caldo verde.

O tempo passou.

E, curiosamente, hoje trabalho num campo de golfe.

A vida tem destas ironias.

Quando escrevi aquele texto via o golfe sobretudo como símbolo de um turismo elitista, algo distante da realidade da maioria das pessoas. Via-o como um capricho para poucos.

Hoje percebo que a realidade é mais complexa.

O turismo de golfe tornou-se, ao longo das últimas décadas, um dos motores económicos do país. Durante muito tempo falava-se sobretudo do Algarve como destino de eleição, mas hoje o fenómeno espalhou-se por outras regiões.

A região Oeste, onde vivo, é um bom exemplo dessa mudança.

Muitos estrangeiros já não vêm apenas passar férias. Vêm passar temporadas longas e, muitas vezes, acabam por ficar. Compram casas, estabelecem-se, trazem novas línguas, novos hábitos e outras formas de olhar para o território.

O turismo transforma os lugares.

Traz investimento, trabalho e dinamismo económico. Mas traz também novos desafios: o aumento do valor das propriedades, a pressão sobre a habitação e a transformação das comunidades locais.

Nada é totalmente simples.

Talvez seja isso que o tempo nos ensina: as ideias também evoluem. Aquilo que um dia criticamos pode, mais tarde, revelar outros lados que antes não víamos.

Não deixei de gostar de campos cultivados nem de pensar na importância da agricultura. Mas hoje consigo ver que um campo de golfe também faz parte de uma realidade maior — uma rede de atividades que liga turismo, economia, território e pessoas.

Curiosamente, esta reflexão leva-me também a recordar Ferrel, onde há quase cinquenta anos a população saiu à rua para impedir a construção de uma central nuclear. Foi um momento marcante de mobilização social e um dos primeiros grandes episódios do movimento ambientalista em Portugal.

As sociedades mudam, os territórios transformam-se, as prioridades evoluem.

Entre protestos, projetos, turismo e novas formas de viver os lugares, vamos todos fazendo parte dessa transformação, quer queiramos quer não.

Continuo a preferir caminhos de terra aos relvados demasiado perfeitos.

Mas aprendi a reconhecer que, tal como na vida, também na sociedade raramente existem respostas simples.

Hoje, da janela onde me sento a olhar o mundo, vejo um campo de golfe.
A vida tem destas ironias.


Nota final

Em setembro de 2009 escrevi neste blogue um pequeno texto irónico sobre os campos de golfe, imaginando até que um dia acabaríamos a comer a relva bem picadinha num caldo verde.

Curiosamente, anos depois vim a trabalhar precisamente num campo de golfe.

A vida tem destas voltas.

O texto original pode ser lido aqui: “Golfe & caldo verde” (2009).





domingo, 1 de março de 2026

Caçadora de Conchas

 Escrever é a minha forma de voltar a casa. E a minha casa é aqui, de pés na areia.


Caminho na praia como quem procura qualquer coisa sem nome. Sempre fui uma caçadora de conchas. Há neste gesto algo de instintivo, antigo: baixar-me, escolher, virar na mão aquilo que o mar decidiu devolver.

Gosto particularmente dos búzios. Guardam ecos, como se ainda transportassem dentro de si a respiração do oceano. Apanho-os sem pensar, como quem recolhe fragmentos de histórias.

Sempre recolhi.

Conchas são restos de vida. Casas que já foram habitadas. Estruturas que cumpriram o seu tempo e que o mar devolve, polidas, transformadas. Não são o que foram — mas não deixaram de ter valor.

Talvez por isso me identifique tanto com elas.

Durante muito tempo pensei que recolhia apenas cascas vazias. Que insistia em guardar o que já tinha terminado. Que habitava búzios onde a vida já tinha partido.

Tal como a anémona que troca de abrigo para continuar a crescer, também nós habitamos lugares provisórios. Habitar e partir não é fracasso — é movimento.

Hoje, porém, entre a areia e as algas, encontro menos conchas e mais plástico. Pequenos sinais da presença humana espalhados como uma nova espécie invasora. Penso que talvez fosse mais útil apanhar tampinhas em vez de conchas. Talvez o verdadeiro cuidado seja agora recolher aquilo que nunca deveria ter chegado ao mar.

E ainda assim continuo a apanhar conchas.

Pergunto-me se não será essa a verdadeira diferença: a concha é transformação natural; o plástico é permanência sem evolução.

Talvez a vida seja isso mesmo — aprender a distinguir o que é memória viva do que é peso inútil.

Penso na paz da praia, na sorte de poder caminhar sem medo, enquanto há mundos em guerra, planos suspensos, vidas interrompidas. A tranquilidade não é culpa. É responsabilidade.

Entre conchas e plástico, entre silêncio e ruído, compreendo que a praia é espelho. Mostra o que já foi e o que ainda pode ser.

Continuo a apanhar conchas.

Mas já não as recolho por carência.
Recolho-as por reconhecimento.

Porque cada casca polida pelo mar lembra-me que também eu fui sendo transformada pelas marés da vida.

Hoje trouxe poucas conchas comigo.

Mas trouxe algo mais importante:
a certeza de que já não preciso de habitar búzios vazios para me sentir inteira.

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Pesos

Sinto-me pesada.

Pesada no físico e na alma. A idade também já pesa.

Olho ao espelho e não gosto do reflexo. Uma imagem de más decisões — ou da falta delas.

Sinto-me feia. Por fora e por dentro.

Uma vela sem chama, amassada e partida, esquecida no fundo de uma gaveta.

Perdida do mundo… do propósito da vida.

Gostava de saber chorar, pedir colo, ser embalada. Não tenho jeito, nem sei como se faz.

Ensinaram-me a ser forte, a lutar, a arregaçar as mangas e enfrentar de frente — até o medo.

Aprendi, como pude, a ser muita coisa. Falhei à lição da humildade e do pedir desculpa.

Não sei, não consigo, não sou capaz…

Estou feia, velha, sozinha — e não sei lidar com isto.

Peso na consciência, assumo.

Assumindo as consequências das escolhas.

Não sei pedir desculpa, mas sei assumir.

Assumo tudo o que faço: as asneiras, as más escolhas, as falhas…

Assumo e estendo a mão à palmatória.

Queria perder peso.

Arrasto comigo toneladas.