sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Casulo


Quando se chega a uma idade em que já pouco mais há para descobrir do mundo que se conhece…
Quando já nem há paciência para apreciar os pequenos pormenores, caindo-se no isolamento — talvez do próprio conhecimento…
No egocentrismo, por assim dizer.

E o egocentrismo não tem de ser, necessariamente, algo negativo.
O autoconhecimento é necessário, e uma pitada de egoísmo faz parte da lista de condimentos para um bom “cozinhado” pessoal.

Viver a vida a agradar os outros, mostrando que se é valente, capaz de ultrapassar obstáculos, resolvendo os problemas alheios e, ainda assim, sem conseguir alcançar o sentimento mais profundo de si mesmo… é triste.

É morrer aos poucos.

É como viver numa casca, num casulo, sem nunca desabrochar.

Há momentos para tudo.
E, por mais perfeccionismo que exista, há sempre algo que pode correr mal.

O inesperado.

E o castelo de cartas desmorona-se…

Seria maravilhoso um mundo perfeito.

Mas a perfeição não existe.
E o entendimento… é utópico.

Sílvia Q. Sanches
Novembro de 2015


imagem retirada da Net

sábado, 8 de agosto de 2015

com tudo e sem nada...

Gostava de ser diferente.

Saber viver só.

Não precisar de ninguém para ser alguém.

Procuro-me a cada instante, em qualquer canto…
e nunca me encontro.

Nada vejo.
E, a cada momento, desiludo-me.

Com ninguém em especial.

É mesmo comigo.

A eterna insatisfação de quem nada falta…
mas nada satisfaz.

Não vejo nada.

Qual criança pobre, sedenta de um conforto que nunca terá.

Qual velha, saudosa daquilo que nunca teve.





quarta-feira, 5 de agosto de 2015

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Amizades

Encontrei esta imagem na internet.
Para mim a que melhor define o meu conceito de amizade:
Todos diferentes, mas todos unidos!



quinta-feira, 11 de junho de 2015

Capuchinho Vermelho - a historia que não se conta...



O Capuchinho Vermelho…
a própria avozinha.

O lobo não era mau.

Foi seduzido pela leveza daquela mulher que se sentia menina.

A capa vermelha dos tempos de adolescência alegrava-lhe o rosto.

Caminhava pelo bosque, saboreando o cheiro da terra, o chilrear dos pássaros, as flores…

Amava a vida — e tudo o que a rodeava.

Não tolerava injustiças e lutava sempre pelos menos favorecidos.

Ao ver o lobo, ali sozinho, indefeso, afagou-lhe o pelo, ofereceu-lhe um biscoito… e sentaram-se a venerar a floresta.

Conversaram horas sem fim.

Assunto nunca lhes faltou.

O lobo aquecia a avozinha…
e ela sentia-se menina.

Acarinhava-o, ouvindo as suas histórias.

Sentiam-se bem juntos.
Completavam-se.

A amizade cresceu tanto que, na aldeia, todos se intrigavam.

Que tanto tinham aqueles dois para conversar?

Não entendiam que uma mulher envelhecida se pudesse sentir jovem.
Nem que um lobo pudesse ser bom.

Não aceitavam a pureza daquela amizade.

Diagnosticaram demência à mulher e internaram-na num lar.

Ao lobo, caçaram-no e fecharam-no num centro de recuperação do lobo-ibérico.

Ele integrou-se com os seus companheiros de cativeiro.
Sente-se acolhido pela nova alcateia.

A avozinha, cada vez mais alheada da vida, guarda ainda a capa vermelha na sua caixa de memórias.

Sente-se a ovelha negra do seu próprio rebanho.

Na aldeia, continua-se a contar a velha história do Capuchinho Vermelho — omitindo a parte das crianças visitarem os avós e reforçando apenas o medo dos lobos.

Sílvia Sanches
2015



domingo, 5 de abril de 2015

Autómato

Semana acaba.
Desliga-se e arruma-se no armário poupando energia para a semana que se segue.
Há aqueles que carregam baterias em modo férias, numa felicidade aparentemente induzida.
Este carrega no escuro.
Ao 3º dia ressuscita...
Pronto a laborar...

Sílvia Q. Sanches . Abril 2015


sábado, 14 de março de 2015

Sair de cena

A longa-metragem, tipicamente portuguesa, corre o risco de se tornar uma infinita metragem, com cenas demasiadamente longas e falas à medida do curto orçamento.

A monótona e sensaborona história pode até ser considerada uma obra de arte.

Alguns aplaudem, outros copiam… há até quem inveje o que julga ver.

Na verdade, ninguém assiste à totalidade do filme.

Tornou-se socialmente correto apreciar histórias longas, cada vez mais raras. O que escasseia torna-se valioso aos olhos da sociedade, mesmo que a história seja incompreensível.

As expectativas elevam-se, o realizador perde a imaginação, ao guionista faltam as palavras e o elenco perde a cumplicidade.

A película não comporta muito mais e há que acabar com a história.

O dilema é como acabar.

Queima-se viva a protagonista, desvendando-lhe os atos de bruxaria?

Enviá-la para o desterro, deserdada de tudo e de todos?

Morrerá heroicamente numa batalha campal ou partirá numa fuga inglória, desaparecendo na neblina para todo o sempre?

O público já dorme, aguardando um final feliz…

Mas há que chocar, marcar pela diferença e sair de cena sem perder o protagonismo.

Sílvia Q. Sanches
Março de 2015