domingo, 8 de março de 2026

Caminhar em Liberdade

Hoje é 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

Um dia que recorda a luta — e também o luto — pelas mulheres que morreram na defesa de melhores condições de trabalho, de direitos e de igualdade.

Desde então muita coisa mudou. Nem tudo está resolvido, é verdade. A igualdade ainda não é perfeita em muitos lugares do mundo. Mas, olhando à minha volta, percebo que muito foi conquistado.

Hoje, enquanto caminho junto ao mar, penso nisso.

Talvez noutra época eu não pudesse fazer isto com tanta naturalidade: caminhar sozinha, escolher o meu caminho, estudar, escrever aquilo que penso, expressar opiniões, organizar a minha própria vida.

São coisas que hoje parecem simples.

Mas talvez não sejam assim tão simples. Talvez sejam também resultado de muitas lutas silenciosas que vieram antes de nós.

Não há assim tantos anos quanto isso que as mulheres nem sequer tinham direito a algo tão simples como uma manhã de domingo.

Lembro-me muitas vezes disso quando penso na geração da minha sogra. O domingo era dia de família em casa, com um almoço melhorado. Enquanto os homens iam dar o seu passeio matinal, as mulheres ficavam em casa a preparar o almoço, a tratar da casa, a garantir que tudo estava pronto para a família.

Era assim que as coisas funcionavam.

Hoje, enquanto caminho aqui junto ao mar, percebo que este simples gesto — caminhar sozinha numa manhã de domingo — também é resultado dessas mudanças.

Sempre senti uma certa admiração por mulheres irreverentes, aquelas que não se acomodam ao que é considerado socialmente correto. Talvez porque também nunca me tenha sentido muito confortável dentro dessas molduras.

Por isso identifico-me com mulheres como a surfista pioneira nesta zona. Imagino-a há décadas, quando uma mulher numa prancha ainda era algo estranho aos olhos de muitos.

Uma mulher numa prancha é, de certa forma, como uma bruxa na sua vassoura — uma figura livre, um pouco incompreendida, que desafia aquilo que os outros esperam dela.

Talvez seja por isso que estas mulheres ficam na memória.

Porque, ao abrirem caminho para si próprias, acabam também por abrir caminho para muitas outras.

Entretanto continuo a caminhar.

E, neste momento simples acompanhada das gaivotas, sinto que também esta liberdade tranquila faz parte daquilo que tantas mulheres antes de nós ajudaram a construir.

Talvez caminhar assim, em paz, também seja uma pequena forma de lhes agradecer.

Caminhar é o meu pequeno culto da paz.

domingo, 1 de março de 2026

Caçadora de Conchas

 Escrever é a minha forma de voltar a casa. E a minha casa é aqui, de pés na areia.

Caminho na praia como quem procura qualquer coisa sem nome. Sempre fui uma caçadora de conchas. Há neste gesto algo de instintivo, antigo: baixar-me, escolher, virar na mão aquilo que o mar decidiu devolver.

Gosto particularmente dos búzios. Guardam ecos, como se ainda transportassem dentro de si a respiração do oceano. Apanho-os sem pensar, como quem recolhe fragmentos de histórias.

Sempre recolhi.

Conchas são restos de vida. Casas que já foram habitadas. Estruturas que cumpriram o seu tempo e que o mar devolve, polidas, transformadas. Não são o que foram — mas não deixaram de ter valor.

Talvez por isso me identifique tanto com elas.

Durante muito tempo pensei que recolhia apenas cascas vazias. Que insistia em guardar o que já tinha terminado. Que habitava búzios onde a vida já tinha partido.

Tal como a anémona que troca de abrigo para continuar a crescer, também nós habitamos lugares provisórios. Habitar e partir não é fracasso — é movimento.

Hoje, porém, entre a areia e as algas, encontro menos conchas e mais plástico. Pequenos sinais da presença humana espalhados como uma nova espécie invasora. Penso que talvez fosse mais útil apanhar tampinhas em vez de conchas. Talvez o verdadeiro cuidado seja agora recolher aquilo que nunca deveria ter chegado ao mar.

E ainda assim continuo a apanhar conchas.

Pergunto-me se não será essa a verdadeira diferença: a concha é transformação natural; o plástico é permanência sem evolução.

Talvez a vida seja isso mesmo — aprender a distinguir o que é memória viva do que é peso inútil.

Penso na paz da praia, na sorte de poder caminhar sem medo, enquanto há mundos em guerra, planos suspensos, vidas interrompidas. A tranquilidade não é culpa. É responsabilidade.

Entre conchas e plástico, entre silêncio e ruído, compreendo que a praia é espelho. Mostra o que já foi e o que ainda pode ser.

Continuo a apanhar conchas.

Mas já não as recolho por carência.
Recolho-as por reconhecimento.

Porque cada casca polida pelo mar lembra-me que também eu fui sendo transformada pelas marés da vida.

Hoje trouxe poucas conchas comigo.

Mas trouxe algo mais importante:
a certeza de que já não preciso de habitar búzios vazios para me sentir inteira.

quinta-feira, 6 de junho de 2024

18

Numero dezoito, tão desejado antes da maioridade e tão saudado quando duplicado.
O meu numero, sem dúvida.
Muitos acontecimentos, tropeçaram neste numero.
A avó materna nasceu a 18 de Abril, e foi num dos seus aniversários que seu filho resgatou o bem  mais precioso da menina a quem chamo mãe. Como presente de aniversario, anos mais tarde, a neta deixou de ser menina e passou a cumprir com o pagamento da divida mensal da "mãe EVA" e com dezoito perde a pureza.
Dezoito para encontros e desencontros, idades, dias, aniversários, datas, anos...
2018, ano do Caminho, passando por um dia 18, redireccionando ideias, posições, a vida...
O "Dezoito" que continuará sempre presente marcando cada passagem, cada projecto de vida sem ser esperado mas inevitavelmente presente.

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Pesos...

Sinto-me pesada.
Pesada no físico e na alma. A idade também já pesa. 
Olho ao espelho, não gosto do reflexo. Uma imagem de más decisões ou falta delas. 
Sinto-me feia. Por fora e por dentro.
Uma vela sem chama, amassada e partida, esquecida no fundo da gaveta.
Perdida do mundo...do propósito da vida.
Assumindo consequências das escolhas. 
Gostava de saber chorar, pedir colo, ser embalada. Não tenho jeito, nem sei como se faz. 
Ensinaram-me a ser forte, a lutar, arregaçar as mangas e enfrentar de frente, até o medo!
Aprendi, como pude, a ser muita coisa. Falhei à lição da humildade e do pedir desculpa. 
Não sei, não consigo, não sou capaz..
Estou feia, velha, sozinha e não sei lidar com isto. 
Peso na consciência, assumo.
Não sei pedir desculpa, mas sei assumir. 
Assumo tudo o que faço. As asneiras, as más escolhas, as falhas..
Assumo, e estendo a mão à palmatória. 
Queria perder peso. Arrasto comigo toneladas. 



terça-feira, 26 de março de 2024

Cenas minhas

Sigo e acredito que a vida deve ser vivida com leveza.
Acredito no destino.
No poder do retorno. Não tenho como duvidar disso, sinto-o todos os dias. 
O que tenho hoje, para o bem e para o mal, é o retorno do que dei. O que dou hoje, tão pouco, mal chegará de volta. 
Não vou lamentar. Não sei e não quero. Não peço desculpa sem saber perdoar. 

domingo, 16 de julho de 2023

Saudade


As vezes questiono-me o que será a saudade.
Será a saudade o amor que fica quando deixamos ir embora as pessoas que amamos?
Ou a saudade é de coisas, momentos, sentimentos?...
Talvez seja um misto de tudo!... Das vivências que nos fizeram bem, que nos fizeram crescer de alguma forma, que nos marcaram pela positiva.
A vida segue o seu curso, e cada um com seus objetivos e escolhas, perdemo-nos de vista e outros ficam pelo caminho. Uns não voltam, saíram deste plano, outros andam por aí... Talvez um dia as vidas se cruzem de novo.  Se abrirmos os olhos, matamos as saudades. Se os fecharmos, morremos de saudades.


quarta-feira, 8 de março de 2023

Paz

 Hoje, dia de comemoração especifica das mulheres, 8 de março, em que afinal deveria ser de pesar pelas que morreram a defender os direitos que ainda não tinham, as redes sociais enchem-se de frases e textos mais ou menos profundos a favor da classe feminina. 

Gosto de ser mulher, sim, mas neste dia especifico, tenho por norma, colocar-me à margem. 

Não me identifico com as histerias e carneirismos habituais. Não me satisfaço com flores ou bombons... muito menos com palavras vãs e frases feitas. 

Não preciso que me lembrem que sou mulher e que a vida é mais desafiadora para qualquer uma de nós.

Prefiro lembrar, comemorar, neste dia, quando saí da maternidade com um filho nos braços, com uma responsabilidade maior que o mundo e um amor capaz de ultrapassar o universo.

Neste dia, dormi pela primeira vez em casa com a certeza de que nunca mais seria a mesma coisa e que nunca mais seria só eu.

Agora, passados alguns anos e umas quantas mudanças, o peso da responsabilidade aliviou, mas o amor sem espaço num só universo, vejo a vida a mudar de outra forma com outros desafios a aguardar o momento.

O corpo a mudar, a mente em constante busca, o tempo que escasseia, a vontade de ser "feliz" já o sendo, e a ideia de que ainda não se está no ponto…

Ainda jovem para sonhar e tentar novos projetos, com a ideia de que já estou demasiado velha para mudar e sair da zona de conforto. 

A corda bamba da vida com ideais preconcebidos de realização pessoal, sendo na verdade uma coisa simples, o viver, em paz, conviver, ter paz, crescer, manter a paz, amadurecer, com paz … 

Um dia lá chegarei!...


 


  


quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Ventos

Trabalho todos os dias, não dependo de ninguém. 
Posso parecer desligada, fria, distante, mas estou atenta, de longe. 
Sou como o vento, abraço tudo e todos mas não me prendam que não sirvo nada se estiver fechada. 
Deixem-me voar…  

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Como água

A vida como a água corre em direção ao mar e é nas correntes, mais lentas ou mais rápidas que segue. Pode até ficar parada algum tempo, como a água numa barragem, mas não para sempre. Correndo ou evaporando, a vida segue, fria, ou mais quente, ácida ou alcalina, conforme o percurso. Assim vejo a vida. 
Sempre em movimento, Contribuído para a vida, apagando fogos, saciando, banhando... Lavando... Numa azáfama individual e desenfreada, desde o nascimento ao derradeiro momento, mais cristalina ou um pouco mais turva. 
Cá estou eu  a entrar no percurso final  a sair dos rápidos e das quedas vertiginosas, agora num percurso mais largo, lento e denso. Agora só quero águas calmas até ao mar, sem grandes dependências e tropeções.
Não tenho pressa, mas quando chegar ao mar encontrar-me-ei com as baleias e serei sereia. 

sábado, 19 de março de 2022

Os dias de...

Quem me conhece sabe que não ligo muito a datas comemorativas. Ate mesmo aniversários que, respeito e até comemoro de acordo com o que a sociedade dita... Enfim... 
Para mim é tudo palhaçada, show off, hipocrisias. 
Dar os parabéns publicamente nas redes sociais que, ajudam a lembrar o aniversário do amigo de escola por quem se passa na rua e nem se cumprimenta,  aquela amiga que se afastou mas que fica bem manter as aparencias de pessoa socialmente correcta e "muito popular ", o familiar que nem se conhece mas que fica bem mostrar que tem uma familia grande, os conhecidos que ja nem nos lembramos quem são mas fica bem felicitar... enfim...
Ja estes dias comemorativos, do pai, mãe, irmãos, do cão, do gato, da treta... todos a publicarem mensagens demonstrando afetos que so sentem no momento em que publicam para a sociedade ver.
Pois lamento ser tão fria, desligada nestes dias, nalguns casos até sou sempre, porque a vida me obrigou a isso. Aqui na minha frieza e despiste, amo todos os dias quem devo amar sem precisar de mostrar, preocupo-me todos os dias com todos, mesmo que não haja comunicação. 
Portanto, para mim, todos os dias são dias, menos os que nos são impostos e publicitados nas redes sociais. 
Prefiro uma palavra, uma piscadela de olho, ou uma boa acção em qualquer momento,  que mensagens fantásticas direciondas aos holofotes. 

domingo, 13 de março de 2022

Engolir sapos engorda

Esta na hora de começar a fazer dieta. 
Tenho exagerado nos sapos.
Estou enjoada dessa "iguaria" que insistem em me servir. 
Pode ate ser gourmet mas eu dispenso.  Prefiro ficar a pão e água do que ter de engolir mais sapos.  
Enjoei.   

sábado, 29 de janeiro de 2022

Capricórnio


"Capricornianos podem ser vistos como a personificação da rudeza e da falta de empatia por muita gente, que está certa. Eles parecem não ter paciência para ensinar e eliminam pessoas de suas vidas como se não tivessem importância alguma. Para muitos, esse comportamento é apenas um sinal de que o seu interior é obscuro, mas na realidade, a razão pode ser mais complexa.

Esses representantes almejam muito por uma vida de sucesso e querem ser os melhores em tudo que fazem. Por já terem sido enganados por seus atos de bondade e gentileza, eles aprenderam a enxergar que precisam agir mais com a razão, por isso são grosseiros, uma forma de evitar ser enganados novamente. Não são pessoas fáceis de se conviver."

(Texto retirado de um site de horóscopo)

Depois  de ler este texto que pode ter o seu quê de verdade, penso que seja por tendência do zodíaco ou mesmo mau feitio, tenho me afastado de varias pessoas ao longo da minha vida. 

E porquê?

Acabo de sair de uma aula de inteligência emocional  e já estou a expor esta questão de certo,  pouco inteligente. 

Mas se para chegar a um bom nivel na gestão das emoções, devemos refletir no porquê dos acontecimentos, nada como meditar aqui sobre essa questão.
Nao sou de impor a minha presença, sempre que sinto não ser desejada. 
Também me defendo, afastando-me de quem não me faz bem emocionalmente. 
Sou um pouco permeável e as energias positivas ou negativas influenciam-me. 
Prefiro a luz, o sol, pessoas radiosas, positivas e que não critiquem sem antes olhar para os seus defeitos. 
Não me preocupam os defeitos dos outros, tambem tenho os meus, muitos.
Sou cruel, dura, às vezes, muitas, comigo própria. 
Se me sinto pisada, incompreendida, esquecida, ignorada, desligo. Desligo de vez. Não sem antes hesitar muito, as vezes até demais.  Mas quando desligo é de vez.  
E hoje ao ler o texto sobre o comportamento do capricórnio fiquei pensativa.  Afinal é do signo?
Ou é mesmo mau feitio?
Para mim, é o meu amor próprio a funcionar e digam o que disserem, fria, cruel, rude ou antipática, é a minha reação. 
Não serei mais ou menos inteligente, mas pelo menos serei eu, livre e senhora do meu nariz.