Hoje é 8 de março, Dia Internacional da Mulher.
Um dia que recorda a luta — e também o luto — pelas mulheres que morreram na defesa de melhores condições de trabalho, de direitos e de igualdade.
Desde então muita coisa mudou. Nem tudo está resolvido, é verdade. A igualdade ainda não é perfeita em muitos lugares do mundo. Mas, olhando à minha volta, percebo que muito foi conquistado.
Hoje, enquanto caminho junto ao mar, penso nisso.
Talvez noutra época eu não pudesse fazer isto com tanta naturalidade: caminhar sozinha, escolher o meu caminho, estudar, escrever aquilo que penso, expressar opiniões, organizar a minha própria vida.
São coisas que hoje parecem simples.
Mas talvez não sejam assim tão simples. Talvez sejam também resultado de muitas lutas silenciosas que vieram antes de nós.
Não há assim tantos anos quanto isso que as mulheres nem sequer tinham direito a algo tão simples como uma manhã de domingo.
Lembro-me muitas vezes disso quando penso na geração da minha sogra. O domingo era dia de família em casa, com um almoço melhorado. Enquanto os homens iam dar o seu passeio matinal, as mulheres ficavam em casa a preparar o almoço, a tratar da casa, a garantir que tudo estava pronto para a família.
Era assim que as coisas funcionavam.
Hoje, enquanto caminho aqui junto ao mar, percebo que este simples gesto — caminhar sozinha numa manhã de domingo — também é resultado dessas mudanças.
Sempre senti uma certa admiração por mulheres irreverentes, aquelas que não se acomodam ao que é considerado socialmente correto. Talvez porque também nunca me tenha sentido muito confortável dentro dessas molduras.
Por isso identifico-me com mulheres como a surfista pioneira nesta zona. Imagino-a há décadas, quando uma mulher numa prancha ainda era algo estranho aos olhos de muitos.
Uma mulher numa prancha é, de certa forma, como uma bruxa na sua vassoura — uma figura livre, um pouco incompreendida, que desafia aquilo que os outros esperam dela.
Talvez seja por isso que estas mulheres ficam na memória.
Porque, ao abrirem caminho para si próprias, acabam também por abrir caminho para muitas outras.
Entretanto continuo a caminhar.
E, neste momento simples acompanhada das gaivotas, sinto que também esta liberdade tranquila faz parte daquilo que tantas mulheres antes de nós ajudaram a construir.
Talvez caminhar assim, em paz, também seja uma pequena forma de lhes agradecer.
Caminhar é o meu pequeno culto da paz.