sábado, 14 de março de 2026

O Dia em que Ferrel Disse Não ao Nuclear

O dia em que um povo escolheu o mar


Hoje trabalho para um resort de golfe.
Mas houve um tempo em que este lugar estava destinado a ser uma central nuclear.

Dia 15 de março assinala-se em Ferrel uma data importante.

Foi neste dia, em 1976, que a população saiu à rua para protestar contra a construção de uma central nuclear.

Passaram cinquenta anos.

Hoje esse episódio é lembrado como um dos primeiros grandes momentos do movimento ambientalista em Portugal — um tempo em que, poucos anos depois da Revolução dos Cravos, a sociedade começava a descobrir a força da participação cívica.

Eu tinha apenas quatro anos.

Na memória guardo apenas lembranças pouco nítidas do que se vivia na época. Lembro-me de ver os adultos a protestar. Lembro-me da preocupação dos mais velhos e da energia reivindicativa dos mais novos. A liberdade ainda era recente e muitos sentiam que era preciso defendê-la todos os dias.

Os meus pais estavam entre aqueles que lutavam contra tudo o que pudesse fazer lembrar o regresso à ditadura ou ao fascismo.

Naquele tempo ouviam-se as músicas de intervenção. Canções que davam voz às inquietações de uma geração.

Numa delas, Lena D’Água dizia, quase como numa canção de embalar inquieta:

Ó papão mau, vai-te embora…
deixa dormir o menino…

E depois vinha o aviso:

No olhar de uma criança
vê-se a luz do mundo.
Não lhe vamos deixar como herança
um planeta moribundo.

O refrão repetia-se nas manifestações e nas conversas:

“Nuclear não, obrigado.
Antes ser activo hoje
do que radioactivo amanhã.”

Nesse dia, a população não se limitou a protestar. Muitos deslocaram-se até ao próprio terreno onde a central nuclear iria nascer. Agricultores chegaram com os seus tratores, famílias inteiras ocuparam o espaço. À população local juntaram-se artistas, professores, pescadores, ambientalistas e políticos.

Era uma forma simples e poderosa de dizer que aquela terra lhes pertencia — e que o futuro dela também.

A democracia tinha pouco mais de um ano e meio. Depois de décadas de silêncio imposto pelo Estado Novo, sair à rua para defender o território era também uma forma de aprender a viver em liberdade.

Na altura talvez ninguém imaginasse exatamente como seria o futuro.

Mas hoje, olhando para trás, é impossível não pensar no impacto daquela decisão.

Se a central nuclear tivesse sido construída, este território seria certamente muito diferente.

Talvez não tivéssemos as praias que hoje temos.
Peniche talvez não fosse o destino de surf que se tornou.
Ferrel não teria crescido como cresceu — ainda que de forma algo desordenada, talvez à imagem da revolta de um povo pouco conformado.

Entretanto, a agricultura intensificou-se na região. A população sempre viveu muito ligada à terra, mas começaram a surgir novas formas de cultivo. Um exemplo foi o desenvolvimento da cultura da cenoura com sistemas de rega gota-a-gota — algo inovador para a época e que transformou a paisagem agrícola da zona.

E os campos de golfe da região que, provavelmente também não existiriam.

A central nuclear nunca nasceu.

No seu lugar nasceram outras formas de desenvolvimento: agricultura modernizada, turismo, resorts, surf, uma nova relação com o mar e com a paisagem.

O território seguiu outro caminho.

Talvez o capitalismo, tão contestado na época, tenha acabado por se transformar e procurar formas menos agressivas de ocupação do território.

Curiosamente, hoje trabalho num campo de golfe construído perto do lugar onde um dia se pensou erguer uma central nuclear.

E penso que, sem aquelas pessoas que saíram à rua em 1976, talvez tudo isto fosse diferente.

Há momentos em que a história muda de direção.

E consigo imaginar o contraste.

Onde poderia existir o símbolo do nuclear,
há hoje pranchas no mar.

Onde poderia existir uma central,
há pessoas a caminhar junto ao mar.

Onde tudo poderia ser grey,
existe agora um green.

Talvez seja essa a imagem mais bonita que ficou daquele dia:

um território que escolheu o mar.

E assim, mesmo sendo uma pequena aldeia junto ao Atlântico, Ferrel acabou ligada a um movimento global — o de pessoas que decidiram defender o lugar onde vivem


domingo, 8 de março de 2026

Caminhar em Liberdade

Hoje é 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

Um dia que recorda a luta — e também o luto — pelas mulheres que morreram na defesa de melhores condições de trabalho, de direitos e de igualdade.

Desde então muita coisa mudou. Nem tudo está resolvido, é verdade. A igualdade ainda não é perfeita em muitos lugares do mundo. Mas, olhando à minha volta, percebo que muito foi conquistado.

Hoje, enquanto caminho junto ao mar, penso nisso.

Talvez noutra época eu não pudesse fazer isto com tanta naturalidade: caminhar sozinha, escolher o meu caminho, estudar, escrever aquilo que penso, expressar opiniões, organizar a minha própria vida.

São coisas que hoje parecem simples.

Mas talvez não sejam assim tão simples. Talvez sejam também resultado de muitas lutas silenciosas que vieram antes de nós.

Não há assim tantos anos quanto isso que as mulheres nem sequer tinham direito a algo tão simples como uma manhã de domingo.

Lembro-me muitas vezes disso quando penso na geração da minha sogra. O domingo era dia de família em casa, com um almoço melhorado. Enquanto os homens iam dar o seu passeio matinal, as mulheres ficavam em casa a preparar o almoço, a tratar da casa, a garantir que tudo estava pronto para a família.

Era assim que as coisas funcionavam.

Hoje, enquanto caminho aqui junto ao mar, percebo que este simples gesto — caminhar sozinha numa manhã de domingo — também é resultado dessas mudanças.

Sempre senti uma certa admiração por mulheres irreverentes, aquelas que não se acomodam ao que é considerado socialmente correto. Talvez porque também nunca me tenha sentido muito confortável dentro dessas molduras.

Por isso identifico-me com mulheres como a surfista pioneira nesta zona. Imagino-a há décadas, quando uma mulher numa prancha ainda era algo estranho aos olhos de muitos.

Uma mulher numa prancha é, de certa forma, como uma bruxa na sua vassoura — uma figura livre, um pouco incompreendida, que desafia aquilo que os outros esperam dela.

Talvez seja por isso que estas mulheres ficam na memória.

Porque, ao abrirem caminho para si próprias, acabam também por abrir caminho para muitas outras.

Entretanto continuo a caminhar.

E, neste momento simples acompanhada das gaivotas, sinto que também esta liberdade tranquila faz parte daquilo que tantas mulheres antes de nós ajudaram a construir.

Talvez caminhar assim, em paz, também seja uma pequena forma de lhes agradecer.

Caminhar é o meu pequeno culto da paz.

domingo, 1 de março de 2026

Caçadora de Conchas

 Escrever é a minha forma de voltar a casa. E a minha casa é aqui, de pés na areia.

Caminho na praia como quem procura qualquer coisa sem nome. Sempre fui uma caçadora de conchas. Há neste gesto algo de instintivo, antigo: baixar-me, escolher, virar na mão aquilo que o mar decidiu devolver.

Gosto particularmente dos búzios. Guardam ecos, como se ainda transportassem dentro de si a respiração do oceano. Apanho-os sem pensar, como quem recolhe fragmentos de histórias.

Sempre recolhi.

Conchas são restos de vida. Casas que já foram habitadas. Estruturas que cumpriram o seu tempo e que o mar devolve, polidas, transformadas. Não são o que foram — mas não deixaram de ter valor.

Talvez por isso me identifique tanto com elas.

Durante muito tempo pensei que recolhia apenas cascas vazias. Que insistia em guardar o que já tinha terminado. Que habitava búzios onde a vida já tinha partido.

Tal como a anémona que troca de abrigo para continuar a crescer, também nós habitamos lugares provisórios. Habitar e partir não é fracasso — é movimento.

Hoje, porém, entre a areia e as algas, encontro menos conchas e mais plástico. Pequenos sinais da presença humana espalhados como uma nova espécie invasora. Penso que talvez fosse mais útil apanhar tampinhas em vez de conchas. Talvez o verdadeiro cuidado seja agora recolher aquilo que nunca deveria ter chegado ao mar.

E ainda assim continuo a apanhar conchas.

Pergunto-me se não será essa a verdadeira diferença: a concha é transformação natural; o plástico é permanência sem evolução.

Talvez a vida seja isso mesmo — aprender a distinguir o que é memória viva do que é peso inútil.

Penso na paz da praia, na sorte de poder caminhar sem medo, enquanto há mundos em guerra, planos suspensos, vidas interrompidas. A tranquilidade não é culpa. É responsabilidade.

Entre conchas e plástico, entre silêncio e ruído, compreendo que a praia é espelho. Mostra o que já foi e o que ainda pode ser.

Continuo a apanhar conchas.

Mas já não as recolho por carência.
Recolho-as por reconhecimento.

Porque cada casca polida pelo mar lembra-me que também eu fui sendo transformada pelas marés da vida.

Hoje trouxe poucas conchas comigo.

Mas trouxe algo mais importante:
a certeza de que já não preciso de habitar búzios vazios para me sentir inteira.

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Pesos

Sinto-me pesada.

Pesada no físico e na alma. A idade também já pesa.

Olho ao espelho e não gosto do reflexo. Uma imagem de más decisões — ou da falta delas.

Sinto-me feia. Por fora e por dentro.

Uma vela sem chama, amassada e partida, esquecida no fundo de uma gaveta.

Perdida do mundo… do propósito da vida.

Gostava de saber chorar, pedir colo, ser embalada. Não tenho jeito, nem sei como se faz.

Ensinaram-me a ser forte, a lutar, a arregaçar as mangas e enfrentar de frente — até o medo.

Aprendi, como pude, a ser muita coisa. Falhei à lição da humildade e do pedir desculpa.

Não sei, não consigo, não sou capaz…

Estou feia, velha, sozinha — e não sei lidar com isto.

Peso na consciência, assumo.

Assumindo as consequências das escolhas.

Não sei pedir desculpa, mas sei assumir.

Assumo tudo o que faço: as asneiras, as más escolhas, as falhas…

Assumo e estendo a mão à palmatória.

Queria perder peso.

Arrasto comigo toneladas.




terça-feira, 26 de março de 2024

Cenas minhas

Sigo e acredito que a vida deve ser vivida com leveza.

Acredito no destino.

Acredito no poder do retorno.
Não tenho como duvidar disso — sinto-o todos os dias.

O que tenho hoje, para o bem e para o mal, é o retorno do que dei.

O que dou hoje, tão pouco, mal chegará de volta.

Não vou lamentar.
Não sei.
E não quero.

Não peço desculpa
sem saber perdoar.

domingo, 16 de julho de 2023

Saudade


Às vezes questiono-me o que será a saudade.

Será a saudade o amor que fica quando deixamos ir embora as pessoas que amamos?

Ou a saudade é de coisas, momentos, sentimentos?…

Talvez seja um misto de tudo. Das vivências que nos fizeram bem, que nos fizeram crescer de alguma forma, que nos marcaram pela positiva.

A vida segue o seu curso e cada um, com os seus objetivos e escolhas, perde-se de vista. Uns ficam pelo caminho.

Uns não voltam — saíram deste plano.
Outros andam por aí…

Talvez um dia as vidas se cruzem de novo.

Se abrirmos os olhos,
matamos as saudades.

Se os fecharmos,
morremos de saudades.


quarta-feira, 8 de março de 2023

Paz

Hoje, dia de comemoração específica das mulheres, 8 de março — que, afinal, deveria ser também de pesar pelas que morreram a defender direitos que ainda não tinham — as redes sociais enchem-se de frases e textos mais ou menos profundos a favor da classe feminina.

Gosto de ser mulher, sim, mas neste dia específico tenho por norma colocar-me à margem.

Não me identifico com as histerias e os carneirismos habituais. Não me satisfaço com flores ou bombons… muito menos com palavras vãs e frases feitas.

Não preciso que me lembrem que sou mulher e que a vida é mais desafiadora para qualquer uma de nós.

Prefiro lembrar, comemorar neste dia aquele em que saí da maternidade com um filho nos braços — com uma responsabilidade maior que o mundo e um amor capaz de ultrapassar o universo.

Nesse dia dormi pela primeira vez em casa com a certeza de que nunca mais seria a mesma coisa e de que nunca mais seria só eu.

Agora, passados alguns anos e umas quantas mudanças, o peso da responsabilidade aliviou, mas o amor, sem espaço num só universo, continua. E vejo a vida a mudar de outra forma, com outros desafios à espera do momento certo.

O corpo a mudar, a mente em constante busca, o tempo que escasseia, a vontade de ser “feliz” já o sendo, e a ideia de que ainda não se está no ponto…

Ainda jovem para sonhar e tentar novos projetos, mas com a sensação de que já estou demasiado velha para mudar e sair da zona de conforto.

A corda bamba da vida, com ideais preconcebidos de realização pessoal, sendo, na verdade, uma coisa simples: viver em paz, conviver, ter paz, crescer, manter a paz, amadurecer… com paz.

Um dia lá chegarei.

 


  


quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Ventos

Trabalho todos os dias, não dependo de ninguém.

Posso parecer desligada, fria, distante, mas estou atenta — de longe.

Sou como o vento: abraço tudo e todos.
Mas não me prendam — não sirvo para nada se estiver fechada.

Deixem-me voar…

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Como água

A vida, como a água, corre em direção ao mar e é nas correntes — mais lentas ou mais rápidas — que segue.

Pode até ficar parada algum tempo, como a água numa barragem, mas não para sempre.

Correndo ou evaporando, a vida segue: fria ou mais quente, ácida ou alcalina, conforme o percurso.

Assim vejo a vida.

Sempre em movimento, contribuindo para a vida, apagando fogos, saciando, banhando… lavando…

Numa azáfama individual e desenfreada, desde o nascimento até ao derradeiro momento, mais cristalina ou um pouco mais turva.

Cá estou eu a entrar no percurso final, a sair dos rápidos e das quedas vertiginosas, agora num percurso mais largo, lento e denso.

Agora só quero águas calmas até ao mar, sem grandes dependências nem tropeções.

Não tenho pressa.

Mas quando chegar ao mar, encontrar-me-ei com as baleias e serei sereia.


sábado, 19 de março de 2022

Os dias de...

Quem me conhece sabe que não ligo muito a datas comemorativas. Até mesmo aniversários que respeito e até comemoro de acordo com o que a sociedade dita… Enfim…

Para mim é tudo palhaçada, show off, hipocrisias.

Dar os parabéns publicamente nas redes sociais que ajudam a lembrar o aniversário do amigo de escola por quem se passa na rua e nem se cumprimenta; aquela amiga que se afastou mas com quem fica bem manter as aparências de pessoa socialmente correcta e “muito popular”; o familiar que nem se conhece, mas que fica bem mostrar que se tem uma família grande; os conhecidos de quem já nem nos lembramos quem são, mas fica bem felicitar… enfim…

Já estes dias comemorativos — do pai, da mãe, dos irmãos, do cão, do gato, da treta… — todos a publicarem mensagens demonstrando afetos que só sentem no momento em que publicam para a sociedade ver.

Pois lamento ser tão fria, desligada nestes dias. Nalguns casos até sou sempre, porque a vida me obrigou a isso. Aqui, na minha frieza e despiste, amo todos os dias quem devo amar sem precisar de mostrar. Preocupo-me todos os dias com todos, mesmo que não haja comunicação.

Portanto, para mim, todos os dias são dias — menos os que nos são impostos e publicitados nas redes sociais.

Prefiro uma palavra, uma piscadela de olho ou uma boa ação em qualquer momento, a mensagens fantásticas direcionadas aos holofotes.

domingo, 13 de março de 2022

Engolir sapos engorda

Está na hora de começar a fazer dieta.
Tenho exagerado nos sapos.

Estou enjoada dessa “iguaria” que insistem em servir-me.
Pode até ser gourmet… mas eu dispenso.

Prefiro pão e água
a continuar a engolir sapos.

Enjoei.

E há dietas que começam simplesmente assim:
deixar de aceitar o que nos tentam pôr no prato.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Papéis que não servem

Nem todos os nomes que nos dão nos pertencem.


Há palavras que parecem pequenas quando são ditas.
Mas algumas ficam a ecoar durante muito tempo.

Entre todas, houve uma que nunca assentou bem: dondoca.

Dizia-se que era carinho. Apenas uma forma leve de tratar.
Mas há palavras que trazem consigo uma ideia inteira — um retrato desenhado por outros, onde nem sempre nos reconhecemos.

Há quem imagine uma mulher como dondoca: decorativa, dependente, talvez fútil, talvez confortável numa vida onde outros decidem e sustentam.

Mas nem todas as mulheres cabem nesse retrato.

Há mulheres que sempre trabalharam, que construíram o seu próprio caminho, que nunca estiveram à venda nem à espera que alguém lhes definisse o lugar.

Quando uma palavra tenta reduzir alguém a um papel que não escolheu, deixa de ser ternura. Torna-se apenas uma forma subtil de desrespeito.

Durante algum tempo acredita-se que talvez seja apenas uma diferença de linguagem, de mundos, de formas de estar. Admira-se a disciplina do outro, a determinação, a forma firme como defende as suas ideias. Até se confunde isso com força.

Mas a vida ensina que há forças que não sabem reconhecer a liberdade do outro.

Há relações em que alguém acredita mandar, decidir, estabelecer regras. Talvez porque foi assim que sempre viu o mundo funcionar.

Só que há mulheres que não nasceram para ocupar lugares definidos por outros.

Podem até tentar adaptar-se durante algum tempo. Podem até escolher o silêncio quando certas coisas magoam. Não por fraqueza, mas porque preferem seguir em frente em vez de discutir cada gesto.

Até que um dia percebem que alguns papéis simplesmente não lhes pertencem.

E então deixam-nos ficar para trás.

Hoje aquela palavra já não pesa. Ficou onde tantas outras coisas ficaram: no passado.

Porque houve um tempo em que alguém quis que fosse dondoca.

Mas há pessoas que nasceram apenas para ser livres.

Alguns papéis nunca foram feitos para nós.
E reconhecer isso também é liberdade.