quarta-feira, 11 de junho de 2008

Farois


Era uma vez um farol que vivia muito feliz na ponta de um cabo.

Com o seu faroleiro fazia uma bela dupla. O belo e majestoso farol iluminava tudo o que o rodeava, ajudando os barcos a não embaterem naquela costa e a orientarem-se no seu caminho.

Sentia-se importante, auxiliando os outros.

Tinha o seu faroleiro, que dele cuidava, o mantinha funcional e sempre grandioso.

O faroleiro amava o seu farol e nunca o abandonava. Conhecia-lhe todos os recantos, percorria todos os seus degraus de olhos fechados, se preciso fosse. Mesmo que aquela escalada diária lhe custasse, não desistia da sua vida de faroleiro.

Um dia, o belo e majestoso farol, durante a sua empreitada noturna — iluminando aquele pequeno mundo à sua volta, num olhar zeloso mas solitário — sentiu-se encandeado.

Sim, encandeado.

A sua luz cruzava-se com a de outro farol.

Nunca tinha acontecido.

Chegara a julgar-se único…
não fazia ideia de que existiam outros como ele.

O faroleiro nunca lho dissera.

O outro farol, que vivia numa pequena ilhota, também se surpreendeu com aquela troca de luzes.

Estava triste.

O seu faroleiro tinha-o abandonado e ele sentia-se desamparado. Mas continuava a cumprir a sua missão, iluminando o mundo à sua volta.

Ao perceber que não estava sozinho, sentiu-se, estranhamente, feliz.

Desde essa noite, os dois faróis passaram a desejar cruzar as suas luzes.

Dos seus pontos de vigia, conscientes das suas funções, contemplavam-se ao longe, a cada encontro dos seus feixes de luz.

Passaram muitos Natais.

Os instrumentos náuticos sofisticaram-se e os faróis tornaram-se quase elementos decorativos, míticos… mas sempre em função.

Cada vez mais automatizados, dispensando os faroleiros.

E, ainda assim, nas suas grandiosas funções, continuam a iluminar o escuro da noite — tal como uma árvore de Natal ilumina o regresso a casa.

Sílvia Q. Sanches
2008

terça-feira, 10 de junho de 2008

A Lenda Do Anel De Brilhantes



Vou contar uma das peripécias do meu tio porreiraço.
Um autêntico cool man, de quem muitos gostavam — poucos não.

Um filósofo à sua maneira, capaz de fazer as delícias de quem o ouvia.

Como sabem, na Foz do Arelho, quando a maré está vazia, é só ver gentinha de rabo pró ar a apanhar berbigão. É já tradição para muitas famílias ir à Foz apanhar uma insolação enquanto juntam uns quilitos de marisco para poupar uns trocos.

Já para não falar da apanha ilegal, em épocas em que está interdita por razões de saúde pública… mas o pessoal não liga. Até é giro depois comer aquilo tudo e acabar no hospital com uma valente diarreia.

Mas naquele tempo não havia dessas maleitas.
Era tudo fresquinho, fresquinho!

E era ver ainda mais gentinha ali, de rabinho para o ar.
Havia dias em que parecia haver mais gente do que berbigão… ou até do que grãos de areia.

Claro que só os nativos da região — e outros tantos tugas — sabiam o propósito daquelas romarias.

Os estrangeiros, coitaditos, não percebiam nada do que ali se passava e perguntavam — claro — ao meu tio, o único poliglota do pedaço, o que fazia toda aquela gente naquela posição, ali na água.

Ele, que não se contentava com explicações simples, inventava sempre uma história na hora.

E um dia nasceu a lenda do anel de brilhantes.

Passou a ser a versão oficial… para estrangeiros.


“Há muitos, muitos séculos, quando a Península Ibérica ainda pertencia aos mouros, vivia em Óbidos uma bela princesa moura, que costumava cavalgar no areal onde hoje é água.

Sim, a lagoa não existia — era um extenso areal que lhe lembrava o deserto que deixara para trás, ao acompanhar o seu pai, um sultão poderoso — o rei dos sultões.

Um dia, a princesa enamorou-se de um belo príncipe, filho de um rei rival.

Era um amor lindo… mas proibido.

Ainda assim, encontravam sempre forma de se ver.

E, num desses encontros, trocaram anéis, selando o seu amor:
ela ofereceu-lhe um anel de safiras;
ele deu-lhe um belo anel de brilhantes.

Certo dia, enquanto cavalgava, a princesa deixou cair o anel.

Nesse mesmo instante, sentiu uma dor profunda no peito.

O seu príncipe tinha partido para a guerra… e ela sentiu que o perdera para sempre.

O anel ficou perdido no areal.

Desde então, a princesa percorre aquele lugar, à sua procura, chorando sem parar.

E chorou tanto…
que as suas lágrimas formaram a lagoa de Óbidos.

O anel nunca foi encontrado.

E, ao longo dos séculos, cada vez mais pessoas vieram procurá-lo — na esperança de o devolver à princesa, que ainda chora a perda do seu amado.”


Foi esta a história que me habituei a ouvir — com mais ou menos pormenores — contada aos estrangeiros que por ali passavam.

Genial, não?!

Sílvia Sanches
2008