(Homenagem ao meu avô — 23 de março de 2017)
— “O menino é mau!”
Dizia o menino grande, com boquinha de mimo, sempre que fazia alguma asneira menos própria para a sua idade.
Homem a quem roubaram a infância, tendo de se “safar” desde que se deu como gente.
Menino que nunca deixou de sonhar e que até o dever levava a brincar.
Senhor de artes e ofícios, artimanhas e engenhocas, capaz de idealizar e construir os mais variados engenhos.
Brinquedos que nunca teve em menino tornou reais em adulto e, a brincar, fez deles o seu negócio — e voou.
Foi feliz fazendo felizes outros meninos… e as mães dos meninos… e as avós… as tias… as primas…
Desbocado galhofeiro, capaz de transformar o mais horrendo palavrão num elogio carinhoso, cantarolava e assobiava qual canário, qual “Rouxinol Faduncho” que, ao jeito de “José Lito”, cantava “Lá Piconera”, acompanhado da sua castanhola improvisada com a prótese — que passava mais tempo nas mãos do que na própria boca.
O melhor da vida era uma mesa farta rodeada de família e amigos.
— “Comam, bebam!”
Palavra de ordem daquela autoridade, condecorado com as belas medalhas das guerras comensais e com o seu velho boné de marinheiro “engatatão”.
Com o seu ar de rezingão lá ia comandando as tropas com os seus gritos de guerra.
— “É-mi-si-mi-não-mi” — soava ao ronronar do gatinho que se tenta acalmar.
— “Ão Ão Ão” — cachorrinho a pedir festinhas…
Encantador, de espírito livre, alma grande em invólucro pequeno…
“Homem pequeno ou velhaco ou dançarino”… também gostava de dançar!
“Queirosito”. Sr. Menino. Sr. Queirós, o fotógrafo.
Homem das redes macaenses, para as portas e contra o mau-olhado.
Ladino, lutador, de garra, projetos e sonhos — tantos que nem todos realizou.
O corpo não deixou.
A vida fê-lo assim.
E assim o levou.
