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quinta-feira, 11 de junho de 2015

Capuchinho Vermelho - a historia que não se conta...



O Capuchinho Vermelho…
a própria avozinha.

O lobo não era mau.

Foi seduzido pela leveza daquela mulher que se sentia menina.

A capa vermelha dos tempos de adolescência alegrava-lhe o rosto.

Caminhava pelo bosque, saboreando o cheiro da terra, o chilrear dos pássaros, as flores…

Amava a vida — e tudo o que a rodeava.

Não tolerava injustiças e lutava sempre pelos menos favorecidos.

Ao ver o lobo, ali sozinho, indefeso, afagou-lhe o pelo, ofereceu-lhe um biscoito… e sentaram-se a venerar a floresta.

Conversaram horas sem fim.

Assunto nunca lhes faltou.

O lobo aquecia a avozinha…
e ela sentia-se menina.

Acarinhava-o, ouvindo as suas histórias.

Sentiam-se bem juntos.
Completavam-se.

A amizade cresceu tanto que, na aldeia, todos se intrigavam.

Que tanto tinham aqueles dois para conversar?

Não entendiam que uma mulher envelhecida se pudesse sentir jovem.
Nem que um lobo pudesse ser bom.

Não aceitavam a pureza daquela amizade.

Diagnosticaram demência à mulher e internaram-na num lar.

Ao lobo, caçaram-no e fecharam-no num centro de recuperação do lobo-ibérico.

Ele integrou-se com os seus companheiros de cativeiro.
Sente-se acolhido pela nova alcateia.

A avozinha, cada vez mais alheada da vida, guarda ainda a capa vermelha na sua caixa de memórias.

Sente-se a ovelha negra do seu próprio rebanho.

Na aldeia, continua-se a contar a velha história do Capuchinho Vermelho — omitindo a parte das crianças visitarem os avós e reforçando apenas o medo dos lobos.

Sílvia Sanches
2015



quarta-feira, 11 de junho de 2008

Farois


Era uma vez um farol que vivia muito feliz na ponta de um cabo.

Com o seu faroleiro fazia uma bela dupla. O belo e majestoso farol iluminava tudo o que o rodeava, ajudando os barcos a não embaterem naquela costa e a orientarem-se no seu caminho.

Sentia-se importante, auxiliando os outros.

Tinha o seu faroleiro, que dele cuidava, o mantinha funcional e sempre grandioso.

O faroleiro amava o seu farol e nunca o abandonava. Conhecia-lhe todos os recantos, percorria todos os seus degraus de olhos fechados, se preciso fosse. Mesmo que aquela escalada diária lhe custasse, não desistia da sua vida de faroleiro.

Um dia, o belo e majestoso farol, durante a sua empreitada noturna — iluminando aquele pequeno mundo à sua volta, num olhar zeloso mas solitário — sentiu-se encandeado.

Sim, encandeado.

A sua luz cruzava-se com a de outro farol.

Nunca tinha acontecido.

Chegara a julgar-se único…
não fazia ideia de que existiam outros como ele.

O faroleiro nunca lho dissera.

O outro farol, que vivia numa pequena ilhota, também se surpreendeu com aquela troca de luzes.

Estava triste.

O seu faroleiro tinha-o abandonado e ele sentia-se desamparado. Mas continuava a cumprir a sua missão, iluminando o mundo à sua volta.

Ao perceber que não estava sozinho, sentiu-se, estranhamente, feliz.

Desde essa noite, os dois faróis passaram a desejar cruzar as suas luzes.

Dos seus pontos de vigia, conscientes das suas funções, contemplavam-se ao longe, a cada encontro dos seus feixes de luz.

Passaram muitos Natais.

Os instrumentos náuticos sofisticaram-se e os faróis tornaram-se quase elementos decorativos, míticos… mas sempre em função.

Cada vez mais automatizados, dispensando os faroleiros.

E, ainda assim, nas suas grandiosas funções, continuam a iluminar o escuro da noite — tal como uma árvore de Natal ilumina o regresso a casa.

Sílvia Q. Sanches
2008