Lembrando o Caminho dos Remédios, onde a Quaresma se faz visível nas cruzes e nas faixas roxas, volto hoje ao meu culto.
Caminhar.
Hoje é o Domingo de Ramos.
Volto à beira mar.
O vento está fresco.
O mar traz força.
Parece inquieto, como se tivesse algo para devolver.
Na tradição, este é o dia em que se erguem ramos — sinais de acolhimento, de esperança, de reconhecimento.
Ramos verdes, vivos, colocados no caminho como promessa.
Mas aqui, à beira-mar, os ramos são outros.
A praia está cheia de restos — plásticos, objetos, fragmentos de descuido humano.
Talvez estes sejam os ramos com que a natureza nos recebe agora.
Não de celebração, mas de devolução.
O mar devolve tudo, como quem se recusa a guardar aquilo que não lhe pertence.
Hoje nem as gaivotas vejo.
Estão ausentes. Ou talvez em recolhimento.
Na areia húmida, entre as marcas das ondas, está um ser imóvel.
Parece-me um golfinho.
O corpo marcado, exposto, devolvido pelo mar.
Há qualquer coisa de profundamente simbólico naquela imagem.
Como se tivesse sido ali deixado.
Como se fosse uma espécie de crucificação silenciosa.
Não consigo evitar a pergunta:
Que pecado terá cometido?
Ou terá vindo lembrar-nos de algum?
Nestes dias fala-se de morte e de redenção.
De um corpo que cai para que algo possa renascer.
Mas ali, diante de mim, o que vejo é outra coisa.
A vida interrompida.
O excesso devolvido.
A consequência.
Talvez o mar não traga respostas.
Talvez apenas nos obrigue a olhar.
O vento mantém-se.
O mar insiste.
Sigo o meu caminho.
Hoje o meu culto não foi apenas paz.
Foi também confronto.
Porque talvez os ramos que hoje levantamos
já não sejam de celebração —
mas de alerta.
E talvez seja isso que estes dias pedem:
não apenas fé —
mas consciência.
Caminhar é o meu pequeno culto da paz.