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segunda-feira, 11 de julho de 2016

Crescer em liberdade I


A minha infância foi vivida numa época de grandes mudanças, causadas pela revolução do 25 de Abril. Os meus pais, como tantos outros da sua geração, viviam aquele espírito com muita intensidade e conseguiram transmitir-me o entusiasmo do momento.

Participei, com umas quantas dezenas de outras crianças, em atividades lúdicas ao ar livre organizadas pela então Casa da Cultura, no Parque D. Carlos I.

Desenhos e pinturas num papel de cenário desenrolado pelo chão do parque, trabalhar o barro ou a plasticina em grandes mesas — que alegria! —, ouvir concertos acústicos aos pés do Zé Barata Moura e do Zeca Afonso, saber de cor a Joana Come a Papa, o Olha a Bola, Manel e o Grândola, Vila Morena

Tudo isto fazia parte da vida social de qualquer criança daquela época.

Eu não fui exceção.

                                                   



Sílvia Q. Sanches


domingo, 29 de maio de 2016

As Laranjas da "Ti Estrudes"


Algumas das memórias mais vincadas da minha infância estão ligadas a uma tia carismática que vivia em Santarém. Gertrudes de seu nome, mais conhecida por “Ti Estrudes”.

Vivi a infância convencida de que “Tiestrudes” era um nome próprio, de tal forma que sempre me dirigia a ela assim:
— A tia Tiestrudes… a tia das laranjas!

Casa de campo modesta, construída pelo marido — avarento, que de simpatia e bondade nada devia ao divino —, paredes finas e chão de cimento colorido. Uma casa de banho sem banheira, outrora exterior, ligada à casa por uma sala acrescentada ao longo dos anos, onde a família se juntava.

Todos se atropelavam para se sentar no velho banco de camião — o único e “sofisticadíssimo” sofá de couro que existia na casa — mesmo ao lado da chaminé de chão, onde repousava um fogão de lenha em esmalte branco.

No fogão que aquecia a casa fervia uma panela de ferro, onde a Tiestrudes ia acrescentando os ingredientes secretos de uma sopa mágica, da qual ainda guardo o sabor… mas que nunca mais saboreei.

A pandega tia — baixa, redondinha, com a sua longa trança preta enrolada em carrapito, artisticamente presa com ganchos de tartaruga — recebia como ninguém: entre anedotas, graçolas, credos, “traques” disfarçados com o arrastar de bancos e histórias de família.

Qual fada madrinha da Cinderela, cheia de truques e magia.
Qual bruxinha do bem, cuja casa, cheia de cantos e recantos, escondia tantos mistérios.

O relógio de cuco tocava todas as horas, compassadas pelo tique-taque constante, marcando o tempo interminável que ali se vivia — naquele autêntico lugar de culto.

Obrigatória era a visita ao quarto dos santinhos, onde uma grande cómoda servia de altar: a Nossa Senhora rodeada por um presépio de figuras de todas as “qualidades” e fotografias de sobrinhos, irmãos, amigos e conhecidos.

A Tiestrudes era conhecida pelos seus dotes curandeiros e rezava diariamente aos seus santinhos pelo bem de todos os que lhe pediam ajuda.

O cheiro a azeite das lamparinas misturava-se com o das tijelas com água, onde observava, através de gotas de azeite, se a vida de cada um corria bem… ou não.

O momento alto chegava com a ligação da santinha à tomada da velha instalação elétrica: acendiam-se luzes coloridas e ouvia-se o som agudo da música dos pastorinhos.

A hora de dormir era um acontecimento.

Abrir e fechar de gavetas e baús, de onde surgiam lençóis de linho e cobertores de “papa” que picavam. As camas — mais estreitas do que as de minha casa — eram feitas com todo o esmero, num ritual de bem receber tão próprio daquela amorosa tia.

Dormir num quarto de anexo era sempre uma aventura. Especialmente pela madrugada, quando se acordava com os primeiros raios de sol — ao som do galo e dos melros.

O cheiro das laranjeiras, que cobriam o alpendre, entrava pela janela de vidros martelados, encaixados numa quadrícula de ferro pintada de verde.

As laranjas da Tiestrudes eram especiais.

Apanhava-se um cesto delas — grandes, sujas de um pó preto que nos mascarava. Eram escolhidas uma a uma, de preferência com filhos… porque a “menina” gostava!

À mesa, a minha mãe, num toque de magia, cortava da casca da laranja uns óculos que eu ostentava divertidamente.

Há memórias que ficam pelos sentidos que despertam.

O cheiro inesquecível das laranjas, o calor do fogão de lenha, o sofá feito de banco de camião…
olhar o mundo através de óculos de casca de laranja, ao som do crepitar do lume…

São memórias que não mais esqueço.

Onde quer que esteja — provavelmente ao lado dos seus santinhos — sei que a saudosa Tiestrudes continua, com a mão no peito e a sua gargalhada tão envolvente.

“Avé laranjas da Tiestrudes!”

Sílvia Q. Sanches
29 de maio de 2016


sábado, 7 de maio de 2016

Recordações

Vivia perto da escola,  e nas férias ia brincar no pátio do recreio. Não havia vedações altas nem portões fechados à chave. Os meninos iam para a escola a pé, e tinham a chave de casa. Eu até já sabia estrelar um ovo e fritar umas salsichas, caso a minha mãe não chegasse a casa a tempo de me fazer almoço. Durante a tarde frequentava o ATL do Colégio Ramalho Ortigão. Fazia os deveres da escola mas o sentido estava sempre na brincadeira, no mundo de fantasia, de princesas e rainhas, filhas e mães, guerreiros do espaço, imitando uma série televisiva da época Star Trek.  Gostava de protagonizar a  Maya, uma das tripulantes da nave espacial Enterprise e vulcaniana como o Mr Spock. Transformava-se nas mais variadas criaturas e isso fascinava qualquer criança.
Os nossos Walkie-talkies, telefones portáteis, armas laser, etc. eram nada mais que pedaços de cadeiras velhas amontoadas num dos cantos do recreio. Neles desenhávamos com canetas de feltro, as teclas, ecrãs e botões especiais de laser imaginários. Não tínhamos “Magalhães”, “Play-Stations”, “Nintendo DS”, Tablets, nem sonhávamos que um dia iríamos andar com um pequeno aparelho, chamado telemóvel no bolso, muito menos Iphones, e que  tudo isso iria mudar as nossas vidas. O telefone era um objeto raro, nem todos o tinham em casa, já inventávamos aparelhos fantásticos, que nenhuma criança dos dias de hoje se atreveria sequer a sonhar porque com tanta escolha, tanta variedade, eles nem precisam sonhar. Antes de imaginarem já têm à disposição.
Sou de uma geração feliz, que brincava na rua, subia aos muros, percorria o bairro de bicicleta e jogava à macaca e ao pião no meio da estrada. Temo por uma geração em que os meninos não têm liberdade, não podem sair de casa ou da escola sem a companhia de um adulto, são impedidos de criar livremente e até a comida é geneticamente manipulada, não se sabendo ainda o que pode provocar no futuro. Já para não falar da sua vida social, tão diferente da que tínhamos. Hoje tão solitários agarrados a sistemas virtuais. Será que os meus netos serão gerados via Internet? 

Silvia.Q.Sanches 8-01-2014

terça-feira, 3 de maio de 2016

Eutanásia

Foi como profissional de saúde que testemunhei histórias de sofrimento. Assisti a momentos de profunda angústia perante a uma vida desgastada e uma morte que tardava em chegar. Situações em que, mesmo com todo o conforto e cuidados de saúde, os idosos pediam que os ajudassem a acabarem com aquele sofrimento. O medo de se tornarem um fardo para aqueles que o rodeavam estava presente a todo o momento e o direito à autodeterminação e liberdade de escolha era-lhes negado.
Quando se chega ao final da vida sem qualquer tipo de mobilidade, incapaz de comer pela própria mão ou de fazer uma qualquer das atividades da vida diária (AVD): levantar-se, lavar os dentes, vestir-se sozinho, etc… não há qualquer motivo para se permanecer a vegetar no leito de uma cama, literalmente a apodrecer. Todos temos direito a uma vida e morte digna.
Se a situação for irreversível para quê viver com o auxílio de máquinas?
 A maioria da classe médica rege-se, essencialmente, pela saúde do doente o respeito absoluto pela Vida Humana desde o seu início e em não fazer uso dos conhecimentos médicos contra as leis da Humanidade, esquecendo que também que deve zelar pela dignidade do doente e acabar com a má qualidade de vida.
Desligar as máquinas que mantêm aqueles que se encontram em morte cerebral poderá provocar sofrimento, ainda que por pouco tempo e do ponto de vista religioso é considerado usurpação do direito à vida humana, afinal, todos temos direito à vida. É necessário o consentimento do interessado e por vezes isso não acontece mas desde que não haja qualquer esperança de vida, na minha opinião, deve ouvir-se o apelo do bom senso e não deixar que o capricho da ciência se sobreponha ao verdadeiro sentido da vida. Não havendo esperança de vida, a ciência deve sim, proporcionar uma morte digna e não um prolongar do sofrimento tanto do doente como de quem o rodeia.
A legislação também não ajuda, aquele que de alguma forma ajudar um doente a acabar com o seu sofrimento, poderá ser condenado por homicídio.
A eutanásia passou da simples lei do mais forte à capacidade de compreender o sofrimento alheio em que facto de ninguém ser igual a ninguém e haver diferentes formas de encarar a morte tem tornado este tema tão polémico.
Sou a favor da eutanásia desde que a condição do doente (velho, adulto ou criança), seja bem avaliada e não haja qualquer esperança de vida digna.

Sílvia Q. Sanches - Dez 2013 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A vida depois dos 40


Chegam os 40, e se há a quem nada acontece e segue a sua vida, abastada, ou não, também há quem não se acomode à idade e continue a lutar como se tivesse 20 ou mesmo 30 anos. 
Já estou à 2 anos no clube dos 40 e na verdade já sinto diferença. Não na vontade de viver, nem na capacidade de sonhar. Na capacidade de trabalho, sinto-me mais capaz até do que noutros períodos da minha vida. Estou mais responsável, mais experiente e com muita vontade de lutar por aquilo que acredito. Mas o "crachá" deste clube, por muito mérito que me traga, tem-me vedado a entrada em muitas oportunidades de emprego.
Mesmo sem nos conhecerem, só o facto apresentar a idade, fecham de imediato as portas e a oportunidade de poder mostrar o que se vale.
Dou comigo a pensar que afinal, quem faz a selecção das propostas de emprego são jovens, talvez com menos de 35 ou mesmo 30 anos, saídos das universidades à meia dúzia de anos, com uma carreira promissora, proporcionada pelo esforço dos seus pais que lhes pagaram os cursos e pós graduações. Inchados da vaidade e cegos pela tecnologia, esquecem que existem pessoas que não frequentaram as faculdades, mas a vida e a vontade de aprender, mesmo já "fora  de tempo", que nunca é tarde para aprender, podem ser tão ou mais valiosas para trabalhar. 
Entendo que o choque de gerações tenha algum peso. Mas as gerações completam-se, e não é só nos livros que se aprende a valorizar os outros e o seu trabalho. Conhecer os mais velhos, ouvi-los, valoriza-los e ter em conta os seus exemplos de vida. Sinto que é isso que falta em Portugal, neste momento.
Se somos um país  com tendência ao envelhecimento da população, dever-se-ia cultivar mais o respeito pelos mais velhos, dar oportunidade a quem tem capacidade e quer trabalhar. 
Não é isso que eu vejo nem sinto. 
Vejo valorizar os jovens recém licenciados, e muito bem. 
Vejo o cuidado para com os reformados que afinal, são os nossos alicerces, é justo.
Mas sinto-me num grupo à margem, que se não tem trabalho, é velho para trabalhar naquilo que quer, e é novo demais para se sentar num cadeirão à espera do que por aí vem. 
Se tenta melhorar a formação académica, é quase um motivo de chacota, tanto por parte dos mais novos a quem ajudou a formar como contribuinte, quanto por parte os da sua idade com o seu emprego "seguro" e os seus "canudos" bafientos. Resta-lhe concorrer com aqueles que por um motivo ou outro nunca tiveram interesse em saber mais do que ir trabalhar todos os dias nas mais elementares tarefas, e que com todo o mérito, porque são tão sábios quanto todos os outros, foram quem manteve o contributo mal gerido pelos que saíram de institutos e universidades. 
Não se é nem indiferenciado, nem se é aceite como um profissional de uma qualquer profissão.
Não consigo vislumbrar a tão apregoada ternura dos 40.




quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Capitães da Areia

Passava os verões quase sem vigilância, na praia da Foz do Arelho, enquanto os meus avós maternos geriam o seu negócio — na altura, um bar de praia — e os meus pais tomavam conta da loja de fotografia, o negócio da família.

Na Foz do Arelho, junto ao cais, formava-se ali um ponto de venda com os mais diversos negócios: uns com farturas, outros com frangos, frutas, brinquedos de praia… enfim, tudo o que o povo consumia — ou era levado a consumir. Foram anos em que o poder económico do povo português tinha aumentado substancialmente, ainda antes da Revolução dos Cravos.

Mas as crianças não sabem o que é política.

Até aos 10 anos, vivia os meus invernos entre a escola, as Atividades de Tempos Livres do Colégio Ramalho Ortigão, as brincadeiras na minha rua e à porta da loja de fotografia, sempre à espera das férias grandes.

Os verões pareciam eternidades.

Passavam-se na Foz do Arelho, entre mergulhos no cais e a apanha de caracóis, que se coziam ainda com ranhoca e faziam as delícias dos lanches da petizada daquele “centro comercial”.

O grupo era grande, com idades entre os 4 e os 12 anos — um autêntico bando de “Capitães da Areia” daquela praia.

Éramos donos daquele pedaço.

E os miúdos que ousassem pensar que nos podiam fazer frente — quer no parque dos baloiços, quer nas sessões de mergulhos no cais — saíam, com certeza, de cabeça baixa… para depois, após a demonstração de “força”, se tornarem grandes amigos do grupo.

Posso dizer que tive uma infância livre — talvez até demais — mas saudável.

Aprendemos a ser independentes, a fazer frente aos perigos (ou, pelo menos, a contorná-los), a respeitar hierarquias, a conviver e a fazer amigos.

Apesar de parecermos um bando de “índios”, éramos meninos bons e respeitadores das regras do bem viver. Sabíamos respeitar os mais velhos e adorávamos ouvir histórias da lagoa — ou outras experiências vividas por eles.

Ajudar pais, avós ou tios a arrumar as respetivas bancas era também uma das tarefas de todos os 

meninos e meninas, ao final de cada dia…

Sílvia Q. Sanches

08-01-2014






terça-feira, 10 de junho de 2008

A Lenda Do Anel De Brilhantes



Vou contar uma das peripécias do meu tio porreiraço.
Um autêntico cool man, de quem muitos gostavam — poucos não.

Um filósofo à sua maneira, capaz de fazer as delícias de quem o ouvia.

Como sabem, na Foz do Arelho, quando a maré está vazia, é só ver gentinha de rabo pró ar a apanhar berbigão. É já tradição para muitas famílias ir à Foz apanhar uma insolação enquanto juntam uns quilitos de marisco para poupar uns trocos.

Já para não falar da apanha ilegal, em épocas em que está interdita por razões de saúde pública… mas o pessoal não liga. Até é giro depois comer aquilo tudo e acabar no hospital com uma valente diarreia.

Mas naquele tempo não havia dessas maleitas.
Era tudo fresquinho, fresquinho!

E era ver ainda mais gentinha ali, de rabinho para o ar.
Havia dias em que parecia haver mais gente do que berbigão… ou até do que grãos de areia.

Claro que só os nativos da região — e outros tantos tugas — sabiam o propósito daquelas romarias.

Os estrangeiros, coitaditos, não percebiam nada do que ali se passava e perguntavam — claro — ao meu tio, o único poliglota do pedaço, o que fazia toda aquela gente naquela posição, ali na água.

Ele, que não se contentava com explicações simples, inventava sempre uma história na hora.

E um dia nasceu a lenda do anel de brilhantes.

Passou a ser a versão oficial… para estrangeiros.


“Há muitos, muitos séculos, quando a Península Ibérica ainda pertencia aos mouros, vivia em Óbidos uma bela princesa moura, que costumava cavalgar no areal onde hoje é água.

Sim, a lagoa não existia — era um extenso areal que lhe lembrava o deserto que deixara para trás, ao acompanhar o seu pai, um sultão poderoso — o rei dos sultões.

Um dia, a princesa enamorou-se de um belo príncipe, filho de um rei rival.

Era um amor lindo… mas proibido.

Ainda assim, encontravam sempre forma de se ver.

E, num desses encontros, trocaram anéis, selando o seu amor:
ela ofereceu-lhe um anel de safiras;
ele deu-lhe um belo anel de brilhantes.

Certo dia, enquanto cavalgava, a princesa deixou cair o anel.

Nesse mesmo instante, sentiu uma dor profunda no peito.

O seu príncipe tinha partido para a guerra… e ela sentiu que o perdera para sempre.

O anel ficou perdido no areal.

Desde então, a princesa percorre aquele lugar, à sua procura, chorando sem parar.

E chorou tanto…
que as suas lágrimas formaram a lagoa de Óbidos.

O anel nunca foi encontrado.

E, ao longo dos séculos, cada vez mais pessoas vieram procurá-lo — na esperança de o devolver à princesa, que ainda chora a perda do seu amado.”


Foi esta a história que me habituei a ouvir — com mais ou menos pormenores — contada aos estrangeiros que por ali passavam.

Genial, não?!

Sílvia Sanches
2008