Entre a maré vazia e o regresso do sol, há filhos que não se prendem — pertencem ao mar.
A Páscoa aproxima-se.
O bom tempo chegou — e, com ele, a praia enche-se de gente.
Maré vazia., a areia estende-se como um espelho húmido, infinito, onde o céu se demora e as nuvens se duplicam em silêncio. Caminha-se mais devagar — sente-se o tempo recuar.
Desperta a vontade de caminhar e a vontade preparar o físico para o bikini no verão.
Caminhar sem destino, apenas com o som ritmado das ondas a acompanhar os passos.
Já não caminho sozinha.
O crowd intensifica-se — famílias, aprendizes de surf, pranchas debaixo do braço, risos que se perdem no vento. As escolas multiplicam-se, como se o mar, de repente, tivesse mais alunos do que nunca.
E, no meio desse movimento, quase por acaso, encontro-o.
O meu filho.
No meio de tantos iguais a ele, poderia não o distinguir.
Mas, assim que vi aquele esbracejar — aquela postura de peixinho dourado com barbatanas de tubarão — reconheci-o de imediato.
Está dentro de água.
Entre ondas e instruções, ensina alguém a levantar-se sobre a prancha. Há qualquer coisa de natural naquele gesto — como se sempre tivesse sido assim.
Cresceu com a brisa do mar.
Com o sal na pele.
Com este horizonte aberto a moldar-lhe o olhar.
Vejo-o ali — e percebo.
Já não caminho sozinha.
Desde cedo que o entreguei ao mar.
As conchas acompanham-me.
Sento-me na areia. O sol aquece-me a pele.
Este contacto direto do sol na pele é a energia de que preciso para o resto da semana.
Pego numa concha.
Guardo-a, como quem guarda um instante.
Porque as conchas são isso:
pequenos arquivos do mar, fragmentos de tempo que chegam à areia depois de longas viagens invisíveis.
Talvez os filhos sejam assim também.
Partem de nós, percorrem o seu próprio oceano e deixam-nos apenas sinais — suficientes para sabermos que continuam a pertencer ao mesmo mar.
É assim que deve ser.
O mar é a casa dele.
Ou não fosse ele um verdadeiro peixe.