A liberdade também se aprende
A minha infância foi vivida numa época de grandes mudanças, provocadas pela revolução do 25 de Abril de 1974. Os meus pais, como tantos outros da sua geração, viviam aquele espírito com enorme intensidade e conseguiram transmitir-me o entusiasmo daquele momento histórico.
Cresci num tempo em que a liberdade ainda tinha sabor a descoberta.
Recordo-me de participar, com dezenas de outras crianças, em atividades ao ar livre organizadas pela então Casa da Cultura, no Parque D. Carlos I, nas Caldas da Rainha. Para nós, aquele parque era muito mais do que um espaço verde: era um verdadeiro laboratório de criatividade e convivência.
No chão desenrolava-se um enorme papel de cenário onde pintávamos e desenhávamos sem regras nem limites. Noutras mesas moldávamos barro ou plasticina — uma alegria quase infinita para mãos de criança.
Havia música, muita música. Sentávamo-nos na relva para ouvir concertos acústicos de Zé Barata Moura ou Zeca Afonso. Cantávamos de cor músicas que hoje fazem parte da memória coletiva do país: Joana Come a Papa, Olha a Bola, Manel ou Grândola, Vila Morena.
Na altura não tínhamos consciência do significado político e social daquelas canções. Para nós eram apenas músicas alegres que todos cantavam. Só muito mais tarde compreendi que aqueles momentos faziam parte de algo maior: a construção de uma nova cultura de participação e liberdade.
Hoje, olhando para trás com alguma distância e à luz de uma leitura mais social da realidade, percebo melhor o significado daqueles encontros. Não eram apenas atividades para crianças. Eram também uma forma de educação cívica e cultural, uma tentativa de criar cidadãos mais livres, mais participativos e mais conscientes do seu lugar na sociedade.
A cultura saía das salas fechadas e vinha para o espaço público. A música, a arte e a palavra tornavam-se parte da vida quotidiana.
Para nós, crianças, aquilo era simplesmente brincar. Mas, de certa forma, estávamos também a aprender a viver em liberdade.
Talvez por isso aquelas memórias tenham ficado tão vivas em mim. Não eram apenas momentos de infância; eram momentos de construção de identidade, de pertença e de descoberta do mundo.
E hoje percebo que muitas das ideias que ali se respiravam — participação, partilha, liberdade — continuam a ser pilares fundamentais de qualquer sociedade que se queira verdadeiramente democrática.
No fundo, sem o saber, comecei ali a aprender o que significa viver em liberdade.
