Mostrar mensagens com a etiqueta #memorias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta #memorias. Mostrar todas as mensagens

domingo, 15 de março de 2026

Crescer em liberdade II

 A liberdade também se aprende


A minha infância foi vivida numa época de grandes mudanças, provocadas pela revolução do 25 de Abril de 1974. Os meus pais, como tantos outros da sua geração, viviam aquele espírito com enorme intensidade e conseguiram transmitir-me o entusiasmo daquele momento histórico.

Cresci num tempo em que a liberdade ainda tinha sabor a descoberta.

Recordo-me de participar, com dezenas de outras crianças, em atividades ao ar livre organizadas pela então Casa da Cultura, no Parque D. Carlos I, nas Caldas da Rainha. Para nós, aquele parque era muito mais do que um espaço verde: era um verdadeiro laboratório de criatividade e convivência.

No chão desenrolava-se um enorme papel de cenário onde pintávamos e desenhávamos sem regras nem limites. Noutras mesas moldávamos barro ou plasticina — uma alegria quase infinita para mãos de criança.

Havia música, muita música. Sentávamo-nos na relva para ouvir concertos acústicos de Zé Barata Moura ou Zeca Afonso. Cantávamos de cor músicas que hoje fazem parte da memória coletiva do país: Joana Come a Papa, Olha a Bola, Manel ou Grândola, Vila Morena.

Na altura não tínhamos consciência do significado político e social daquelas canções. Para nós eram apenas músicas alegres que todos cantavam. Só muito mais tarde compreendi que aqueles momentos faziam parte de algo maior: a construção de uma nova cultura de participação e liberdade.

Hoje, olhando para trás com alguma distância e à luz de uma leitura mais social da realidade, percebo melhor o significado daqueles encontros. Não eram apenas atividades para crianças. Eram também uma forma de educação cívica e cultural, uma tentativa de criar cidadãos mais livres, mais participativos e mais conscientes do seu lugar na sociedade.

A cultura saía das salas fechadas e vinha para o espaço público. A música, a arte e a palavra tornavam-se parte da vida quotidiana.

Para nós, crianças, aquilo era simplesmente brincar. Mas, de certa forma, estávamos também a aprender a viver em liberdade.

Talvez por isso aquelas memórias tenham ficado tão vivas em mim. Não eram apenas momentos de infância; eram momentos de construção de identidade, de pertença e de descoberta do mundo.

E hoje percebo que muitas das ideias que ali se respiravam — participação, partilha, liberdade — continuam a ser pilares fundamentais de qualquer sociedade que se queira verdadeiramente democrática.

No fundo, sem o saber, comecei ali a aprender o que significa viver em liberdade.


domingo, 30 de outubro de 2016

Olha a bola, Manel...

(Outubro de 2016)

Das minhas memórias de infância vem-me à ideia a Vila Marecos.

Casas contíguas, lembrando um western. Uma época diferente, parada no tempo.

Um autêntico cenário de filmes de cowboys, como os que se assistiam todas as tardes de domingo na casa de jantar da tia-avó Maria.

Os miúdos daquele “gueto” reuniam-se em volta da velha mesa com braseiro e cadeiras de madeira que rangiam a cada movimento.

A televisão a preto e branco, com um filtro de cor verde, era um autêntico altar pendurado num canto da sala de paredes caiadas e portas grosseiras pintadas de verde-água.

Não faltava um quadro do Menino da Lágrima e outro de um velho que durante muito tempo julguei ser o retrato do tio Vítor — marido da tia Maria — conhecido pelo “Vítor Malandro”.

Qual sala de cinema, qual saloon do velho oeste… aquele era o momento solene.

A hora de culto para aqueles rapazes com ar de quem tinha saído da série “Uma Casa na Pradaria”, ou qual Tom Sawyer saído das margens do Mississippi.

Olhos vivos, sorrisos rasgados, rostos sujos de suor e poeira.

Alguns diferentes, ruivos e sardentos, ao jeito da Pipi das Meias Altas. Todos com ar maroto.

Deliciavam-se com copos cheios de gasosa e pão-de-ló feito em forma de fogão, receita da tia-prima Fernanda — a solteirona, tão ruiva quanto eles.

O jogo de futebol antes do filme já tinha queimado a galinha caseira com arroz de cabidela que tinham almoçado.

Corriam atrás da bola: tropeções, rasteiras, pontapés… e quando algum pontapeava a bola que saltava para a estrada, lá ia o mais velho a correr buscá-la.

Manel, o mais velho dos netos da tia Maria — rapaz feito, quase homem, já trabalhava — mas menino na hora da confraternização da rapaziada.

“Olha a bola, Manel!”

Som de fundo que me soava ao ouvido.

Eu, a única menina no meio daquela “pandilha”, a prima afastada que estava de visita, era vista como a boneca de porcelana — impedida de jogar por ser menina.

Entretinha-me a equilibrar sobre o muro que separava “o estádio” da estrada, cantando baixinho a música de fundo daquela cena.

Aplaudia a cada grito de:

“GOLO!!!”

que os rapazes entusiasticamente festejavam.

Se fosse hoje, cantaria Carlos do Carmo, pois pareciam mais um bando de pardais à solta.

As visitas a Santarém eram emocionantes — autênticas viagens no tempo.

Mas talvez seja daí que venha a minha antipatia pelo futebol!