Voltámos a épocas passadas. Épocas em que se mantinha o povo distraído com futebol, fado e religião para enganar a fome e mascarar a miséria em que se vivia.
Nada tenho contra a religião. Respeito a convicção de cada um, assim como gosto que respeitem a minha. O que me entristece é que, com tanta evolução, a fórmula continua exatamente a mesma — um bocadinho mais refinada, mas exatamente a mesma.
Enquanto o povinho tem estado ocupado a olhar para o Papa, com direito a “feriado” em vários sectores, vão metendo a mão no bolso de quem menos ganha. Porque não são os grandes gestores e a classe política, que contribuíram maioritariamente para o estado em que se encontra a nossa economia, que vão sentir o aperto do cinto.
O povinho que não sabe mais do que trabalhar e pagar para poder trabalhar é que continua a pagar, pagar, pagar…
Bem, isto parece um discurso de esquerda — podia até ser. Mas, tal como na religião, não gosto de tomar partidos. Trata-se simplesmente do lamento de quem se sente cada vez mais espezinhado pelo sistema.
É triste a forma como a classe que mais produz é tratada. Mas vai-se embebedando a populaça, que esquece depressa e até as calças baixa, se for preciso.
O povinho entretido com o Papa e os festejos de Fátima não percebe que se gastaram 750 milhões de euros para receber o velho homem. Grandeza tal que até faz corar alguém um pouco mais atento — não sei se de raiva, de desespero ou mesmo de vergonha.
Ao mesmo tempo, sabe-se que no final do ano os subsídios de Natal estarão comprometidos com cortes significativos como contributo no combate à crise; que o IVA vai aumentar, encarecendo bens alimentares e medicamentos; que o IRS sobe e com menos benefícios; que os ordenados estão congelados por tempo indeterminado; que os combustíveis aumentam mesmo com o petróleo a baixar…
Mas pior ainda é quando se sabe que o país vai ajudar a irmã Grécia e que, para tal, vai ter de pedir dinheiro emprestado. Isto então é de gritos.
De gritos é também assistir a uma euforia exacerbada com o futebol e as vitórias de um qualquer clube, ao mesmo tempo que reina o desinteresse pelo estado em que nos encontramos.
Temo que se desloquem mais pessoas aos estádios ou aos locais onde transmitem futebol do que às mesas de voto nas eleições.
É triste ver que o povinho se vai deixando levar pela maré e que, mesmo a avizinhar-se a tempestade do século, continua impávido e sereno, brincando nas ondas cada vez mais altas, como se nada estivesse em perigo.
A embriaguez do futebol é tamanha que o resto passa despercebido… e o povo fica feliz.
Enfim, a Roma antiga dava circo e pão ao seu povo.
Nós temos Papa e golos.
É uma alegria!
Sílvia Q. Sanches
Maio de 2010

