Com os pés na areia surgem duvidas, reflexões, ideias... como grãos de areia. Sobre a areia viajo para onde a imaginação me leva. De pés na areia mantenho-me de pé... Caminho à beira deste mar, medito, escrevo e partilho ideias. Assim me vou descobrindo.
sábado, 9 de novembro de 2013
terça-feira, 10 de junho de 2008
A Lenda Do Anel De Brilhantes

Vou contar uma das peripécias do meu tio porreiraço.
Um autêntico cool man, de quem muitos gostavam — poucos não.
Um filósofo à sua maneira, capaz de fazer as delícias de quem o ouvia.
Como sabem, na Foz do Arelho, quando a maré está vazia, é só ver gentinha de rabo pró ar a apanhar berbigão. É já tradição para muitas famílias ir à Foz apanhar uma insolação enquanto juntam uns quilitos de marisco para poupar uns trocos.
Já para não falar da apanha ilegal, em épocas em que está interdita por razões de saúde pública… mas o pessoal não liga. Até é giro depois comer aquilo tudo e acabar no hospital com uma valente diarreia.
Mas naquele tempo não havia dessas maleitas.
Era tudo fresquinho, fresquinho!
E era ver ainda mais gentinha ali, de rabinho para o ar.
Havia dias em que parecia haver mais gente do que berbigão… ou até do que grãos de areia.
Claro que só os nativos da região — e outros tantos tugas — sabiam o propósito daquelas romarias.
Os estrangeiros, coitaditos, não percebiam nada do que ali se passava e perguntavam — claro — ao meu tio, o único poliglota do pedaço, o que fazia toda aquela gente naquela posição, ali na água.
Ele, que não se contentava com explicações simples, inventava sempre uma história na hora.
E um dia nasceu a lenda do anel de brilhantes.
Passou a ser a versão oficial… para estrangeiros.
“Há muitos, muitos séculos, quando a Península Ibérica ainda pertencia aos mouros, vivia em Óbidos uma bela princesa moura, que costumava cavalgar no areal onde hoje é água.
Sim, a lagoa não existia — era um extenso areal que lhe lembrava o deserto que deixara para trás, ao acompanhar o seu pai, um sultão poderoso — o rei dos sultões.
Um dia, a princesa enamorou-se de um belo príncipe, filho de um rei rival.
Era um amor lindo… mas proibido.
Ainda assim, encontravam sempre forma de se ver.
E, num desses encontros, trocaram anéis, selando o seu amor:
ela ofereceu-lhe um anel de safiras;
ele deu-lhe um belo anel de brilhantes.
Certo dia, enquanto cavalgava, a princesa deixou cair o anel.
Nesse mesmo instante, sentiu uma dor profunda no peito.
O seu príncipe tinha partido para a guerra… e ela sentiu que o perdera para sempre.
O anel ficou perdido no areal.
Desde então, a princesa percorre aquele lugar, à sua procura, chorando sem parar.
E chorou tanto…
que as suas lágrimas formaram a lagoa de Óbidos.
O anel nunca foi encontrado.
E, ao longo dos séculos, cada vez mais pessoas vieram procurá-lo — na esperança de o devolver à princesa, que ainda chora a perda do seu amado.”
Foi esta a história que me habituei a ouvir — com mais ou menos pormenores — contada aos estrangeiros que por ali passavam.
Genial, não?!
Sílvia Sanches
2008
