domingo, 14 de junho de 2009

Ser Tuga

Ser português é…

Levar arroz de frango para a praia.

Guardar as cuecas velhas para polir o carro.

Lavar o carro na rua, ao domingo.

Ter pelo menos duas camisas “traficadas” da Lacoste e da Tommy (amarelo-canário e azul-cueca).

Passar o domingo no shopping.

Tirar a cera dos ouvidos com a chave do carro ou com a tampa da esferográfica.

Ter bigode.

Viajar para o cu de Judas e encontrar outro tuga no restaurante.

Receber visitas e mostrar a casa toda.

Enfeitar as estantes da sala com os presentes do casamento.

Exigir que lhe chamem “Doutor”.

Exigir que o tratem por Sr. Engenheiro.

Assassinar o português ao escrever.

Gastar 50 mil euros num Mercedes C220 CDI, mas não comprar o kit mãos-livres porque “é caro”.

Já ter “ido à bruxa”.

Ter os filhos batizados e na catequese, mas nunca pôr os pés na igreja.

Não ser racista… mas abrir exceção com os ciganos.

Ir de carro para todo o lado — mesmo que seja a 500 metros de casa.

Conduzir sempre pela faixa da esquerda da autoestrada (a da direita é para os camiões).

Cometer três infrações ao código da estrada por quilómetro percorrido.

Ter três telemóveis.

Gastar uma fortuna no telemóvel, mas pensar duas vezes antes de ir ao dentista.

Ir à bola, comprar bilhete para a “geral” e saltar para a “central”.

Viver em casa dos pais até aos 30 anos ou mais.

Ser mal atendido, ficar lixado da vida, mas não reclamar por escrito “para não se chatear”.

Falar mal do Governo eleito e esquecer-se que votou nele.

Pendurar a bandeira portuguesa na janela durante o Euro… e tirá-la logo a seguir porque “é foleiro”.


Viva Portugal, carago…

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Peixinhos da sorte!

O meu avô materno vinha de uma família numerosa.
Eram muitos irmãos — nem sei bem quantos.

Devido às dificuldades da vida, cedo se separaram e cada um tentou a sua sorte em sítios diferentes. Uns em Alhandra, outros no Montijo, outros em Vila Franca de Xira, outros aqui nas Caldas… enfim, de Alenquer espalharam-se por vários lugares — até para Inglaterra!

Um desses irmãos — o mais carismático que conheci — correu meio país com a sua também grande família, desde a Marinha Grande até Lisboa, onde acabou por se instalar numa encosta na zona do Areeiro.

Foi lá que construiu a sua alegre casinha.

Com tijolos encontrados aqui e ali, tábuas, folhas de zinco e o que mais aparecesse.

Um verdadeiro “palácio”.
Bem ao jeito de um filme do Fellini.

Esse meu tio vivia do seu negócio — aliás, de vários negócios.

A verdade é que toda a família tinha espírito empreendedor e alma de inventor. Muito imaginativos. Uns para a fotografia, outros para outras artes de viver.

O meu avô, por exemplo, construiu a sua primeira máquina fotográfica à la minute, bem como cenários e engenhocas para a fotografia. Mais tarde, reinventou-se ainda noutros negócios.

A maioria dedicou-se à fotografia.

Mas esse irmão — o tio António, o mais velho — não era muito dado a essas artes. Tinha mais jeito para os animais.

Instalou então a sua banca no Martim Moniz, mesmo ao lado do Hotel Mundial, a poucos metros de uma grande loja de animais.

Vendia passarinhos.

Alguns criados no seu “palácio” do Areeiro, outros apanhados nas zonas verdes que ainda existiam em Lisboa.

Um dia — e porque o negócio florescia — resolveu alargá-lo.

E dedicou-se também… aos peixinhos.

Começou por vender uns pequenos “peixes” que os filhos apanhavam em charcos de terrenos baldios ali perto.

E, com o seu toque genial, baptizou-os de:

Peixinhos da sorte!

Sorte para ele…
azar para quem comprava!

Olha os peixinhos da sorte! — apregoava.

Esses pequenos peixinhos eram, pura e simplesmente… girinos!

E quando alguém voltava a reclamar que o “peixinho” se tinha transformado numa rã, ele respondia com o ar mais ingénuo que conseguia:

Vejam bem… como é que a rã foi comer o seu peixinho da sorte! Isto há coisas que nem lembram ao diabo, heim?!

Pois o diabo, ao pé deste meu tio, teria muito que aprender…

Eh, eh, eh!

Que família.

Sílvia Q. Sanches
2009

domingo, 7 de junho de 2009

A vida continua



Há dias tristes, em que não se gosta de nada… nem de ninguém.
Nem do próprio ser.

Coloca-se em causa a própria existência
e a forma como se vive.

Há dias em que o mundo desaba
e todas as luzes se apagam.

Dias de autêntica solidão.

Mas ninguém está só.

Existe sempre alguém com situações idênticas — e, quem sabe, piores.

Então, é nesse momento que se começa a vislumbrar uma luzinha.

Olha-se para uma criança na rua e sorri-se.
Aquela nuvem que passa, que gira… até parece uma girafa!
Passa aquela música na rádio que já não se ouvia há séculos — velhos tempos!
Passa-se por um campo repleto de margaridas… que bela fotografia daria!
Admira-se a imensidão do mar.
O abraço de um filho ao chegar a casa…

Retomam-se forças.
Levanta-se a cabeça.
Enche-se o peito de ar.

As luzes acendem-se.

Segue-se em frente.

A vida continua…

Sílvia Q. Sanches
2009

Hibernar


Hibernar

E quando se pensa que nesta vida tudo se sabe,
isso é sinal de uma ignorância tão grande que não haveria terra nem mar que a suportassem.

Não dormi o suficiente…
e apetece-me dormir.

Não só para descansar —
também para esquecer,
para me isolar,
para me esconder da realidade.

Tenho sono.
Tenho muito sono.

Preciso de hibernar.