terça-feira, 31 de maio de 2016

Dia dos irmãos

Comemora-se hoje o Dia dos Irmãos.

Urra… irmãos!

E se os amigos são os irmãos que escolhemos, brindemos também a eles.

Para mim, todos os dias são dias de mães, pais, amigos, filhos…
do sol, da lua, da terra…

Estamos por cá todos os dias —
e é enquanto cá estamos que temos de comemorar.

Comemorar, acima de tudo, a vida.

Afinal…
somos todos irmãos.

Sílvia Q. Sanches
31 maio 2016

domingo, 29 de maio de 2016

As Laranjas da "Ti Estrudes"


Algumas das memórias mais vincadas da minha infância estão ligadas a uma tia carismática que vivia em Santarém. Gertrudes de seu nome, mais conhecida por “Ti Estrudes”.

Vivi a infância convencida de que “Tiestrudes” era um nome próprio, de tal forma que sempre me dirigia a ela assim:
— A tia Tiestrudes… a tia das laranjas!

Casa de campo modesta, construída pelo marido — avarento, que de simpatia e bondade nada devia ao divino —, paredes finas e chão de cimento colorido. Uma casa de banho sem banheira, outrora exterior, ligada à casa por uma sala acrescentada ao longo dos anos, onde a família se juntava.

Todos se atropelavam para se sentar no velho banco de camião — o único e “sofisticadíssimo” sofá de couro que existia na casa — mesmo ao lado da chaminé de chão, onde repousava um fogão de lenha em esmalte branco.

No fogão que aquecia a casa fervia uma panela de ferro, onde a Tiestrudes ia acrescentando os ingredientes secretos de uma sopa mágica, da qual ainda guardo o sabor… mas que nunca mais saboreei.

A pandega tia — baixa, redondinha, com a sua longa trança preta enrolada em carrapito, artisticamente presa com ganchos de tartaruga — recebia como ninguém: entre anedotas, graçolas, credos, “traques” disfarçados com o arrastar de bancos e histórias de família.

Qual fada madrinha da Cinderela, cheia de truques e magia.
Qual bruxinha do bem, cuja casa, cheia de cantos e recantos, escondia tantos mistérios.

O relógio de cuco tocava todas as horas, compassadas pelo tique-taque constante, marcando o tempo interminável que ali se vivia — naquele autêntico lugar de culto.

Obrigatória era a visita ao quarto dos santinhos, onde uma grande cómoda servia de altar: a Nossa Senhora rodeada por um presépio de figuras de todas as “qualidades” e fotografias de sobrinhos, irmãos, amigos e conhecidos.

A Tiestrudes era conhecida pelos seus dotes curandeiros e rezava diariamente aos seus santinhos pelo bem de todos os que lhe pediam ajuda.

O cheiro a azeite das lamparinas misturava-se com o das tijelas com água, onde observava, através de gotas de azeite, se a vida de cada um corria bem… ou não.

O momento alto chegava com a ligação da santinha à tomada da velha instalação elétrica: acendiam-se luzes coloridas e ouvia-se o som agudo da música dos pastorinhos.

A hora de dormir era um acontecimento.

Abrir e fechar de gavetas e baús, de onde surgiam lençóis de linho e cobertores de “papa” que picavam. As camas — mais estreitas do que as de minha casa — eram feitas com todo o esmero, num ritual de bem receber tão próprio daquela amorosa tia.

Dormir num quarto de anexo era sempre uma aventura. Especialmente pela madrugada, quando se acordava com os primeiros raios de sol — ao som do galo e dos melros.

O cheiro das laranjeiras, que cobriam o alpendre, entrava pela janela de vidros martelados, encaixados numa quadrícula de ferro pintada de verde.

As laranjas da Tiestrudes eram especiais.

Apanhava-se um cesto delas — grandes, sujas de um pó preto que nos mascarava. Eram escolhidas uma a uma, de preferência com filhos… porque a “menina” gostava!

À mesa, a minha mãe, num toque de magia, cortava da casca da laranja uns óculos que eu ostentava divertidamente.

Há memórias que ficam pelos sentidos que despertam.

O cheiro inesquecível das laranjas, o calor do fogão de lenha, o sofá feito de banco de camião…
olhar o mundo através de óculos de casca de laranja, ao som do crepitar do lume…

São memórias que não mais esqueço.

Onde quer que esteja — provavelmente ao lado dos seus santinhos — sei que a saudosa Tiestrudes continua, com a mão no peito e a sua gargalhada tão envolvente.

“Avé laranjas da Tiestrudes!”

Sílvia Q. Sanches
29 de maio de 2016


Pequena Elegia Chamada Domingo



"O domingo era uma coisa pequena. 
Uma coisa tão pequena 
que cabia inteirinha nos teus olhos. 
Nas tuas mãos 
estavam os montes e os rios 
e as nuvens. 
Mas as rosas, 
as rosas estavam na tua boca. 

Hoje os montes e os rios 
e as nuvens 
não vêm nas tuas mãos. 
(Se ao menos elas viessem 
sem montes e sem nuvens 
e sem rios...) 
O domingo está apenas nos meus olhos 
e é grande. 
Os montes estão distantes e ocultam 
os rios e as nuvens 
e as rosas. "

Eugénio de Andrade, in 'Poesia e Prosa [1940-1980]' 
Pintura de Ana Paula Lopes

sábado, 28 de maio de 2016

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Expectativas



Talvez as pessoas não me decepcionem.  O problema talvez seja eu, que espero muito delas.
Bob Marley

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Ambiciosa

Ambiciosa


Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
O voo dum gesto para os alcançar...

Se as minhas mãos em garra se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar...
- Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar!

Minha alma é como a pedra funerária
Erguida na montanha solitária
Interrogando a vibração dos céus!

O amor dum homem? - Terra tão pisada,
Gota de chuva ao vento baloiçada...
Um homem? - Quando eu sonho o amor de um Deus!...


Florbela Espanca, Charneca em Flor (1930) 


Porto de Abrigo

sábado, 14 de maio de 2016

Mundo louco

Vivemos numa época de extremos.
Do tudo ou nada.

Somos cada vez mais independentes — e mais desligados.
A evolução tem-nos tornado assim.

Na pré-história, vivíamos em grandes grupos — um instinto primário que nos mantinha em segurança e garantia a continuidade da espécie.

Ao longo da história, fomos alterando hábitos, mudando necessidades.

Dos grandes grupos passaram a existir famílias.
Das grandes casas de família surgiram núcleos mais pequenos: casais com dois ou três filhos, casais com um filho, casais com um cão ou um gato… famílias monoparentais… ou simplesmente a opção de ficar só.

Ser só, por vezes, parece ser a escolha mais sensata.
Ainda assim, a ideia de “família” continua profundamente enraizada em cada um de nós — e na sociedade em geral.

A evolução tem-nos tornado seres cada vez mais individuais.

E, se “ninguém é de ninguém”…
para quê o sentido de posse?
Para quê o sentido de família?

Para quê carregar responsabilidades por pessoas que se tornaram tóxicas na nossa vida?

Cada um evolui por si, nas suas próprias vivências, interpretando a vida à sua maneira.

Para quê seguir grupos, líderes, normas?

Nem todos evoluíram da mesma forma, é certo.

E, por vezes, parece até que a sociedade retrocedeu.

Manifesta-se em grandes massas embriagadas de futebol, religião ou política…
influenciadas pelos media, pelo espetáculo, pelos reality shows, pelo dinheiro — e, acima de tudo, pelo poder.

O poder de alguém que pensa por si mesmo…
e que, sozinho, consegue influenciar uma sociedade ainda marcada por instintos primários.

Sílvia Q. Sanches
Maio de 2016

quinta-feira, 12 de maio de 2016

...ET...

Há dias em que me sinto uma autêntica extraterrestre.

Completamente fora de contexto, deslocada da realidade onde vivo.

Não me identifico com nada disto.

Vou-me adaptando.

Talvez seja esse o sentido da minha presença neste mundo.

Mas, sempre que ouço dizer que há vida noutro planeta…
fico tão feliz!

Afinal… não estou sozinha.

Sílvia Q. Sanches
Maio de 2016

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Invasões

As invasões fazem parte da história mundial.

A cultura ibérica, tão característica, é sem dúvida resultado das diversas invasões sofridas ao longo dos séculos.

Está, por isso, intrínseco em cada ibérico — em cada português — um certo sentido de invasão, sobretudo do espaço alheio.

Mas, à semelhança das grandes invasões históricas, surge inevitavelmente uma reação contrária:
o impulso de repulsa…
e, sobretudo, de evasão.

Desperta-se, então, o desejo de autonomia.

Convém ter sempre presente que a grande lição de cada invasão é simples:

“A liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro.”

Sílvia Q. Sanches
10 de maio de 2016

sábado, 7 de maio de 2016

Recordações

Vivia perto da escola,  e nas férias ia brincar no pátio do recreio. Não havia vedações altas nem portões fechados à chave. Os meninos iam para a escola a pé, e tinham a chave de casa. Eu até já sabia estrelar um ovo e fritar umas salsichas, caso a minha mãe não chegasse a casa a tempo de me fazer almoço. Durante a tarde frequentava o ATL do Colégio Ramalho Ortigão. Fazia os deveres da escola mas o sentido estava sempre na brincadeira, no mundo de fantasia, de princesas e rainhas, filhas e mães, guerreiros do espaço, imitando uma série televisiva da época Star Trek.  Gostava de protagonizar a  Maya, uma das tripulantes da nave espacial Enterprise e vulcaniana como o Mr Spock. Transformava-se nas mais variadas criaturas e isso fascinava qualquer criança.
Os nossos Walkie-talkies, telefones portáteis, armas laser, etc. eram nada mais que pedaços de cadeiras velhas amontoadas num dos cantos do recreio. Neles desenhávamos com canetas de feltro, as teclas, ecrãs e botões especiais de laser imaginários. Não tínhamos “Magalhães”, “Play-Stations”, “Nintendo DS”, Tablets, nem sonhávamos que um dia iríamos andar com um pequeno aparelho, chamado telemóvel no bolso, muito menos Iphones, e que  tudo isso iria mudar as nossas vidas. O telefone era um objeto raro, nem todos o tinham em casa, já inventávamos aparelhos fantásticos, que nenhuma criança dos dias de hoje se atreveria sequer a sonhar porque com tanta escolha, tanta variedade, eles nem precisam sonhar. Antes de imaginarem já têm à disposição.
Sou de uma geração feliz, que brincava na rua, subia aos muros, percorria o bairro de bicicleta e jogava à macaca e ao pião no meio da estrada. Temo por uma geração em que os meninos não têm liberdade, não podem sair de casa ou da escola sem a companhia de um adulto, são impedidos de criar livremente e até a comida é geneticamente manipulada, não se sabendo ainda o que pode provocar no futuro. Já para não falar da sua vida social, tão diferente da que tínhamos. Hoje tão solitários agarrados a sistemas virtuais. Será que os meus netos serão gerados via Internet? 

Silvia.Q.Sanches 8-01-2014

terça-feira, 3 de maio de 2016

Eutanásia

Foi como profissional de saúde que testemunhei histórias de sofrimento. Assisti a momentos de profunda angústia perante a uma vida desgastada e uma morte que tardava em chegar. Situações em que, mesmo com todo o conforto e cuidados de saúde, os idosos pediam que os ajudassem a acabarem com aquele sofrimento. O medo de se tornarem um fardo para aqueles que o rodeavam estava presente a todo o momento e o direito à autodeterminação e liberdade de escolha era-lhes negado.
Quando se chega ao final da vida sem qualquer tipo de mobilidade, incapaz de comer pela própria mão ou de fazer uma qualquer das atividades da vida diária (AVD): levantar-se, lavar os dentes, vestir-se sozinho, etc… não há qualquer motivo para se permanecer a vegetar no leito de uma cama, literalmente a apodrecer. Todos temos direito a uma vida e morte digna.
Se a situação for irreversível para quê viver com o auxílio de máquinas?
 A maioria da classe médica rege-se, essencialmente, pela saúde do doente o respeito absoluto pela Vida Humana desde o seu início e em não fazer uso dos conhecimentos médicos contra as leis da Humanidade, esquecendo que também que deve zelar pela dignidade do doente e acabar com a má qualidade de vida.
Desligar as máquinas que mantêm aqueles que se encontram em morte cerebral poderá provocar sofrimento, ainda que por pouco tempo e do ponto de vista religioso é considerado usurpação do direito à vida humana, afinal, todos temos direito à vida. É necessário o consentimento do interessado e por vezes isso não acontece mas desde que não haja qualquer esperança de vida, na minha opinião, deve ouvir-se o apelo do bom senso e não deixar que o capricho da ciência se sobreponha ao verdadeiro sentido da vida. Não havendo esperança de vida, a ciência deve sim, proporcionar uma morte digna e não um prolongar do sofrimento tanto do doente como de quem o rodeia.
A legislação também não ajuda, aquele que de alguma forma ajudar um doente a acabar com o seu sofrimento, poderá ser condenado por homicídio.
A eutanásia passou da simples lei do mais forte à capacidade de compreender o sofrimento alheio em que facto de ninguém ser igual a ninguém e haver diferentes formas de encarar a morte tem tornado este tema tão polémico.
Sou a favor da eutanásia desde que a condição do doente (velho, adulto ou criança), seja bem avaliada e não haja qualquer esperança de vida digna.

Sílvia Q. Sanches - Dez 2013