gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Eugénio de Andrade
Com os pés na areia surgem duvidas, reflexões, ideias... como grãos de areia. Sobre a areia viajo para onde a imaginação me leva. De pés na areia mantenho-me de pé... Caminho à beira deste mar, medito, escrevo e partilho ideias. Assim me vou descobrindo.
A insónia, hoje, resolveu fazer-me companhia.
Trouxe a vontade com ela.
Estivemos a ver um filme que eu guardava há uns tempos…
Fizemos um pacto.
Eu e a vontade —
Li um artigo que me despertou para aquilo a que se pode chamar a “evolução” do amor.
Diz a música que “já não há canções de amor como havia antigamente…”
E talvez seja verdade.
Vivemos na era das selfies, do mostrar no Facebook o quão “feliz” se está, do “autoconhecimento” e do desapego. Tudo isso se tornou tão moda que o verdadeiro sentido de cada uma dessas coisas se perdeu.
Vivemos permanentemente numa montra.
As relações tornam-se descartáveis.
E, se num dia o amor sai pelos poros, no outro converte-se, vertiginosamente, em ódio ou desprezo — à primeira contrariedade.
Ou se ama… ou já não se ama.
Quase ninguém deseja verdadeiramente a felicidade do outro.
Pensa-se que desejar a felicidade do outro é incompatível com a nossa própria.
O egocentrismo cego prolifera.
E os valores da amizade e do amor ao próximo vão ficando cada vez mais ténues.
Assusta a facilidade com que o amor se transforma em ódio, o querer bem em desprezo, o apego em maldizer.
As fotografias românticas dão lugar a indiretas ácidas.
As declarações de amor transformam-se em palavras amargas, carregadas de mágoa.
Os poemas de amor passaram à história — tornaram-se “pirosos”.
Mas, no fundo, todos ansiamos viver essas histórias.
Procuramos eternas primaveras, recusando as outras estações — tão ou mais importantes.
A fruta de cada época deve ser saboreada no seu tempo.
Mas a tendência é produzi-la em estufa, garantir doçura… ainda que artificial.
Esta é a tendência.
Mas será isto evolução?
É para isto que cá andamos?
Sílvia Q. Sanches
Abril de 2016
Comemora-se hoje o Dia dos Irmãos.
Urra… irmãos!
E se os amigos são os irmãos que escolhemos, brindemos também a eles.
Para mim, todos os dias são dias de mães, pais, amigos, filhos…
do sol, da lua, da terra…
Estamos por cá todos os dias —
e é enquanto cá estamos que temos de comemorar.
Comemorar, acima de tudo, a vida.
Afinal…
somos todos irmãos.
Sílvia Q. Sanches
31 maio 2016
Algumas das memórias mais vincadas da minha infância estão ligadas a uma tia carismática que vivia em Santarém. Gertrudes de seu nome, mais conhecida por “Ti Estrudes”.
Vivi a infância convencida de que “Tiestrudes” era um nome próprio, de tal forma que sempre me dirigia a ela assim:
— A tia Tiestrudes… a tia das laranjas!
Casa de campo modesta, construída pelo marido — avarento, que de simpatia e bondade nada devia ao divino —, paredes finas e chão de cimento colorido. Uma casa de banho sem banheira, outrora exterior, ligada à casa por uma sala acrescentada ao longo dos anos, onde a família se juntava.
Todos se atropelavam para se sentar no velho banco de camião — o único e “sofisticadíssimo” sofá de couro que existia na casa — mesmo ao lado da chaminé de chão, onde repousava um fogão de lenha em esmalte branco.
No fogão que aquecia a casa fervia uma panela de ferro, onde a Tiestrudes ia acrescentando os ingredientes secretos de uma sopa mágica, da qual ainda guardo o sabor… mas que nunca mais saboreei.
A pandega tia — baixa, redondinha, com a sua longa trança preta enrolada em carrapito, artisticamente presa com ganchos de tartaruga — recebia como ninguém: entre anedotas, graçolas, credos, “traques” disfarçados com o arrastar de bancos e histórias de família.
Qual fada madrinha da Cinderela, cheia de truques e magia.
Qual bruxinha do bem, cuja casa, cheia de cantos e recantos, escondia tantos mistérios.
O relógio de cuco tocava todas as horas, compassadas pelo tique-taque constante, marcando o tempo interminável que ali se vivia — naquele autêntico lugar de culto.
Obrigatória era a visita ao quarto dos santinhos, onde uma grande cómoda servia de altar: a Nossa Senhora rodeada por um presépio de figuras de todas as “qualidades” e fotografias de sobrinhos, irmãos, amigos e conhecidos.
A Tiestrudes era conhecida pelos seus dotes curandeiros e rezava diariamente aos seus santinhos pelo bem de todos os que lhe pediam ajuda.
O cheiro a azeite das lamparinas misturava-se com o das tijelas com água, onde observava, através de gotas de azeite, se a vida de cada um corria bem… ou não.
O momento alto chegava com a ligação da santinha à tomada da velha instalação elétrica: acendiam-se luzes coloridas e ouvia-se o som agudo da música dos pastorinhos.
A hora de dormir era um acontecimento.
Abrir e fechar de gavetas e baús, de onde surgiam lençóis de linho e cobertores de “papa” que picavam. As camas — mais estreitas do que as de minha casa — eram feitas com todo o esmero, num ritual de bem receber tão próprio daquela amorosa tia.
Dormir num quarto de anexo era sempre uma aventura. Especialmente pela madrugada, quando se acordava com os primeiros raios de sol — ao som do galo e dos melros.
O cheiro das laranjeiras, que cobriam o alpendre, entrava pela janela de vidros martelados, encaixados numa quadrícula de ferro pintada de verde.
As laranjas da Tiestrudes eram especiais.
Apanhava-se um cesto delas — grandes, sujas de um pó preto que nos mascarava. Eram escolhidas uma a uma, de preferência com filhos… porque a “menina” gostava!
À mesa, a minha mãe, num toque de magia, cortava da casca da laranja uns óculos que eu ostentava divertidamente.
Há memórias que ficam pelos sentidos que despertam.
O cheiro inesquecível das laranjas, o calor do fogão de lenha, o sofá feito de banco de camião…
olhar o mundo através de óculos de casca de laranja, ao som do crepitar do lume…
São memórias que não mais esqueço.
Onde quer que esteja — provavelmente ao lado dos seus santinhos — sei que a saudosa Tiestrudes continua, com a mão no peito e a sua gargalhada tão envolvente.
“Avé laranjas da Tiestrudes!”
Sílvia Q. Sanches
29 de maio de 2016