segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Essência

Sou uma omnívora inveterada. Por muito que tente, não sei ser de outra maneira.

Bem tento fazer comida vegetariana, fugir da carne, das “cenas” de origem animal, mas é difícil. Está entranhado em mim.

Gosto de comer o que me agrada à vista, ao olfato e ao paladar. Não sigo fundamentalismos.

Afinal, desde a origem que o ser humano, para sobreviver, comia o que apanhava ou caçava. Logo, é isso que faço.

Não concordo com a produção em massa e com a matança desenfreada, mas também sei que, para quem vive em sociedade, é o que é possível.

Já não somos nómadas, nem caçamos para comer.

Comer apenas produtos de origem vegetal, no fundo, vai parar ao mesmo. Também se produz em massa e continuam a existir excedentes que só não são aproveitados e distribuídos pela população mais carenciada porque as políticas não o permitem.

Tem sempre de haver uma população dominante.

É a lei do mais forte em tudo.

Sou omnívora, sim.

Não consigo viver sem os derivados do leite, sem os ovos, sem as frutas, sem os legumes, sem os peixes.

Posso viver sem carne a maior parte do tempo, mas há sempre uma altura em que o corpo pede. Faz parte da nossa essência.

Comer de tudo, sem exagero, sem gula, sem ganância, sem preconceitos ou fundamentalismos.

Saber gerir, como em tudo na vida.

Equilíbrio.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Rita pataquinha

Roque e amiga, Peter Pan e Sininho.
Os manos traquinas viveram aventuras sem fim num reino só deles.

A menina feliz com o vestido do laço, tairocas e a sua sombrinha vermelha de pega dourada — qual espada de cavaleiro, qual ceptro de rainha.

A menina dos seus pais.
A mais nova de três irmãos.
A menina.

Olho para esta fotografia e imagino-a nesse tempo: leve, sorridente, a dançar como quem acredita que o mundo inteiro cabe numa tarde de festa.

Ritinha Pataquinha.
Menina engraçadinha.

Da infância solta, feliz, desregrada e emotiva nasceu a mulher.
Uma vida de trabalho, muitas vezes sem tempo para crescer devagar.

Vieram as responsabilidades, as lutas e as conquistas de uma vida inteira.

Mas quem olha bem percebe que, algures dentro dela, a menina continua lá.

A menina que dançava.
A menina que sonhava.

E talvez seja por isso que, quando olho para esta fotografia, não vejo apenas quem ela foi.

Vejo a Ritinha Pataquinha que ainda é.


segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Asas cortadas

Ao ler o título “Ame sem possuir, acompanhe sem invadir e viva sem depender”, fico com vontade de divagar sobre o tema.

Essa é, de facto, a minha filosofia de vida, até porque defendo a liberdade individual e social.

Defendo a liberdade, mas fico triste com os excessos, com a libertinagem. A nossa liberdade acaba onde começa a dos outros e cabe a cada um de nós zelar pelo bem de todos — nós incluídos.

Por isso, quer queiramos quer não, dependemos uns dos outros e da atitude de cada um. Se falharmos, não só falhamos connosco como com todos os que, direta ou indiretamente, dependem das nossas ações.

Não posso possuir, nem quero. Mas invadem-me quando sou obrigada a aceitar realidades alheias, viver suspensa e depender de ações completamente fora das minhas expectativas.

Isso suga-me a energia e a capacidade de sonhar.

Na realidade, “o que nos f… são as expectativas”. O ideal será viver o dia a dia da melhor forma possível.

“Vive cada dia como se fosse o último.”
Mas nem isso posso.

Tenho de trabalhar para sobreviver. Não tenho tempo de viver nem de sonhar, nem tenho liberdade para viver.

Sou escrava do sistema, da sociedade, das expectativas — minhas e dos outros.

Desiludo-me a cada dia. Dependo do meu trabalho, do dinheiro, da minha saúde e dos outros, das minhas escolhas e das atitudes de todos.

Sinto-me presa num estado livre.

Com asas e sem voar.