Um dos meus tios maternos — homem muito comunicativo, dado a línguas e culturas estrangeiras — fazia amizades com uma facilidade impressionante com qualquer estrangeiro que lhe aparecesse no bar da praia, negócio da família na altura.
Eu sempre venerei este tio.
Era como que o seu porta-chaves — acompanhava-o para todo o lado (ou para onde me deixavam ir) e seguia-lhe todas as passadas.
Eu era a menina do tio.
E ele era o tio porreiraço que qualquer sobrinho gostaria de ter.
Era o maior desenrasca que conheci.
Nunca o vi atrapalhado com nada.
Tinha sempre solução para tudo —
mas nada programado.
Fazia tudo em cima do joelho…
e corria sempre bem.
Quase tudo.
Quase sempre!
O bar situava-se junto ao velho cais da praia da Foz do Arelho e, nessa altura, a água da lagoa era tão límpida que se via todo o fundo — bem como tudo o que lá estava.
Não se falava em poluição.
Nem se sabia bem o que isso era.
Os estrangeiros ficavam fascinados com a beleza bruta da Foz.
Tudo era puro.
Até o povo de lá.
(Mas adiante…)
Uma das especialidades do bar era o mexilhão aberto ao natural, acabado de apanhar.
Verdade, verdadinha!
Sempre que era pedida uma dose, ouvia-se a voz lá de dentro:
— Sai uma dose de mexilhão!!!
Lá ia o meu tio até aos pilares do cais, arrancar mais uns cachos do afamado mexilhão — fresquinho, fresquinho — que depois, pelas mãos da minha avó, cozinheira de mão cheia, se transformava num petisco capaz de fazer qualquer um fechar os olhos de prazer.
Os clientes adoravam.
E os estrangeiros, então… deliravam com toda aquela naturalidade com que tudo acontecia.
Sílvia Q. Sanches
2010




