Com os pés na areia surgem duvidas, reflexões, ideias... como grãos de areia. Sobre a areia viajo para onde a imaginação me leva. De pés na areia mantenho-me de pé... Caminho à beira deste mar, medito, escrevo e partilho ideias. Assim me vou descobrindo.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Mexilhões da Foz
Um dos meus tios maternos — homem muito comunicativo, dado a línguas e culturas estrangeiras — fazia amizades com uma facilidade impressionante com qualquer estrangeiro que lhe aparecesse no bar da praia, negócio da família na altura.
Eu sempre venerei este tio.
Era como que o seu porta-chaves — acompanhava-o para todo o lado (ou para onde me deixavam ir) e seguia-lhe todas as passadas.
Eu era a menina do tio.
E ele era o tio porreiraço que qualquer sobrinho gostaria de ter.
Era o maior desenrasca que conheci.
Nunca o vi atrapalhado com nada.
Tinha sempre solução para tudo —
mas nada programado.
Fazia tudo em cima do joelho…
e corria sempre bem.
Quase tudo.
Quase sempre!
O bar situava-se junto ao velho cais da praia da Foz do Arelho e, nessa altura, a água da lagoa era tão límpida que se via todo o fundo — bem como tudo o que lá estava.
Não se falava em poluição.
Nem se sabia bem o que isso era.
Os estrangeiros ficavam fascinados com a beleza bruta da Foz.
Tudo era puro.
Até o povo de lá.
(Mas adiante…)
Uma das especialidades do bar era o mexilhão aberto ao natural, acabado de apanhar.
Verdade, verdadinha!
Sempre que era pedida uma dose, ouvia-se a voz lá de dentro:
— Sai uma dose de mexilhão!!!
Lá ia o meu tio até aos pilares do cais, arrancar mais uns cachos do afamado mexilhão — fresquinho, fresquinho — que depois, pelas mãos da minha avó, cozinheira de mão cheia, se transformava num petisco capaz de fazer qualquer um fechar os olhos de prazer.
Os clientes adoravam.
E os estrangeiros, então… deliravam com toda aquela naturalidade com que tudo acontecia.
Sílvia Q. Sanches
2010
A marmelada - sabores de infância
A chegada da primavera transporta-me à minha infância.
À felicidade simples do dia a dia de uma criança.
Aos dias enormes… em que até os rebuçados tinham outro sabor.
A marmelada… então nem se fala.
Vejo a minha avó a dar-me uma moeda de vinte e cinco tostões para eu ir buscar marmelada ao Sr. Madeira — mercearia e retrosaria gerida por pai e filhos solteirões, sempre muito aprumadinhos e atenciosos.
Todo aquele ambiente…
O grande balcão.
Os armários de madeira até ao teto.
Os frascos cheios de chupa-chupas.
Os chocolates Regina na vitrina por detrás do balcão.
A máquina registadora, com tantos botões como rebuçados dentro dos frascos.
O cheiro do colorau, vendido a peso, em pequenos pacotes de papel, dobrados como rissóis.
E aqueles homens…
Autênticos autómatos silenciosos no seu trabalho.
Formigas zelosas do seu dever.
De bata castanha e postura irrepreensível.
Encostava-me ao topo do grande balcão de mármore, aguardando a minha vez, observando a azáfama daqueles três.
Lá passava o Sr. Chico — o mais novo — que, com um ar cúmplice, me piscava o olho, como quem dizia que já me tinha visto… e já sabia ao que eu vinha.
Chegada a minha vez, nem precisava de falar.
Ao ver-me fixar o olhar no tabuleiro castanho coberto de celofane, o Sr. Chico — com a mesma delicadeza com que atendia as senhoras mais velhas — pegava na espátula de madeira e cortava, com precisão quase cerimonial, um cubo daquela preciosidade.
Embrulhava-o em papel vegetal.
Pesava-o na enorme balança.
E voltava a embrulhá-lo em papel manteiga.
Os seus dedos, mestres na arte do embrulho, moviam-se com a rapidez de um mágico — como quem faz surgir uma flor de trás da orelha de alguém.
Eu levava aquele cubinho celestial…
E, mal chegava a casa da minha avó, nem esperava pela fatia de pão.
Trincava-o como se fosse um bolo.
Hummm…
Ainda hoje sinto aquele sabor.
O verdadeiro gosto dos sabores da infância —
os que nunca mais se esquecem.
"Eu sou pequenina,
Não sei fazer nada,
Sei ir à cozinha
Comer marmelada."
Sílvia Q. Sanches
2010
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Viagens
Gosto de viajar.
Mas, não tendo suporte financeiro para grandes viagens, viajo no mais profundo do meu ser — enquanto contemplo o mar ou leio um livro.
Na verdade, ler é, talvez, uma das viagens mais belas e pacíficas que se podem fazer.
Sem as complicações dos transportes, das bagagens, dos documentos…
Para mim, são viagens que ficam para a vida.
Lendo, posso viajar no tempo e viver vidas que jamais ousaria viver.
É bom viajar — ainda que espiritualmente — conhecer outras culturas, histórias magníficas, pessoas extraordinárias.
Sem fotografias, filmes ou lembranças materiais…
mas com imagens, sentimentos e sensações que jamais ninguém poderá sentir da mesma forma.
Guardadas no mais profundo do meu ser — na minha essência, na minha alma — levarei sempre comigo as pequenas recordações das minhas grandes viagens.
Um dia, quando morrer, quero ser cremada.
Quero ser espalhada por todos os lugares que me encantam.
Quero que me espalhem por aí.
Perpetuar-me em muitos lugares é um sonho antigo.
Quero voar com o vento…
e conhecer o mundo.
Sílvia Q. Sanches
2010
sábado, 5 de junho de 2010
Clã com Sérgio Godinho - Espectáculo (ao vivo no Rivoli)
É realmente mais fresco, mais actual!
Gosto!
terça-feira, 11 de maio de 2010
domingo, 2 de maio de 2010
O Silencio II
O teu silêncio magoa-me
É o prelúdio do fim de uma relação? Um sinal de desprezo? O ignorar dos sentimentos do outro?
O silêncio é frio… glacial
O silêncio é frio… glacial. Quebramos o silêncio como se estilhaçássemos um objecto de cristal. Ou rompemo-lo como se nos desembaraçássemos de algo que nos asfixia. Não há nada mais desagradável numa relação a dois. Um belo dia, entre um homem e uma mulher, instala-se o silêncio. Quem é que o provocou? E agora, como escorraçá-lo? Primeiro há que tentar decifrá-lo, pois o silêncio é também uma forma de comunicação. O silêncio pode significar intimidação, respeito, mas também hostilidade ou desdém, medo e desinteresse. Entre duas pessoas que se querem, o silêncio nunca foi de ouro, contrariando o provérbio popular. É quase sempre sinónimo de solidão e de dor, de um problema mal resolvido. E se a situação de incomunicabilidade se passar debaixo do mesmo tecto, pior ainda.
A crise do silêncio tem de ter um motivo e ser passível de análise. Só através do diálogo podemos perceber as razões subjacentes à atitude. O que nos impede de falarmos como dois adultos civilizados? Talvez o orgulho ou o medo de reconhecer os próprios erros, não querer dar o braço a torcer, e a vaidade de querer ter sempre razão. Ou o medo de não sermos compreendidos. No fundo, uma chuva de motivos que nos bloqueiam. Seria sensato pensarmos que dialogar é diferente de discutir. Num diálogo, é necessário falar e saber ouvir. Alguém disse um dia que o diálogo é uma estrada de duplo sentido e não uma via única. Convém perceber as ideias e os argumentos apresentados, fazer um esforço de compreensão e não se artilhar para um ataque impiedoso. Aí, já entramos no campo da discussão. Entre dois egos orgulhosos não é possível chegar ao diálogo, mas antes ao solilóquio do arrasamento, do estilo: “és tão infantil”. Este tipo de comentários magoa e enraivece. A discussão é uma luta que só permite um vencedor. Já o diálogo proporciona uma linguagem mais tranquila porque ambos estão sintonizados na afinação do problema, mantêm uma abertura face à crise.
Apenas o diálogo vence o silêncio. No entanto, este tem de ser feito de autenticidade. Só com o diálogo, podemos descobrir o que se passa na mente do outro, os porquês do silêncio. Para que o casal cresça, ambos têm de renunciar ao orgulho, à detenção da verdade única. Ter uma pessoa a partilhar a nossa vida é algo maravilhoso, já que ninguém gosta de estar sozinho. Daí que tenhamos de aprender a lidar com opiniões diferentes da nossa sem que isso seja uma derrota, mas antes uma experiência enriquecedora. Se fôssemos felizes sozinhos não procurávamos parceiros. Mas um casal não constitui por si só a felicidade à prova do silêncio. As crises surgem inadvertidamente e há que saber sará-las com carinho e respeito.
Tipos de silêncio
. Punitivo. Surge como punição do outro, ignorando-o totalmente.
. Culpado. É um mecanismo de defesa, quando um dos parceiros tem a consciência pesada
. Ofendido. Como retaliação a uma grosseria
. Tédio. Surge quando já não há afinidade, o projecto de vida em comum deixou de fazer sentido para ambos
. Intimidado. Acontece quando se receia ser julgado
. Implicativo. Visa somente picar o outro
. SOS. É um pedido de ajuda e de atenção
. Magoado. Nasce de situações desagradáveis e pode transformar-se em rancor e raiva
. Defensivo. Próprio dos tímidos e dos mais frágeis
. Desesperado. É o último recurso para quem sente que já esgotou todas as palavras
. Indiferente. O pior de todos. Acontece quando já tudo morreu na relação
. Desprezo. É uma amargura que não se verbaliza, mas agride
. Chegámos ao fim. Quando não se tem coragem para pôr fim a uma relação, o silêncio significa: “Se não te atendo, se não te procuro, é porque tudo acabou”
. Birra. Algo imaturo mas pouco danoso, porque passageiro
. Controlador. Falso mistério que apenas visa prender o outro à curiosidade de um mutismo inexplicável
. Sádico. Praticado por pessoas que sentem prazer em torturar as outras pelo gosto de um jogo perverso
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