Júlio Machado Vaz
"O Amor é..."
Com os pés na areia surgem duvidas, reflexões, ideias... como grãos de areia. Sobre a areia viajo para onde a imaginação me leva. De pés na areia mantenho-me de pé... Caminho à beira deste mar, medito, escrevo e partilho ideias. Assim me vou descobrindo.
Um dos meus tios maternos — homem muito comunicativo, dado a línguas e culturas estrangeiras — fazia amizades com uma facilidade impressionante com qualquer estrangeiro que lhe aparecesse no bar da praia, negócio da família na altura.
Eu sempre venerei este tio.
Era como que o seu porta-chaves — acompanhava-o para todo o lado (ou para onde me deixavam ir) e seguia-lhe todas as passadas.
Eu era a menina do tio.
E ele era o tio porreiraço que qualquer sobrinho gostaria de ter.
Era o maior desenrasca que conheci.
Nunca o vi atrapalhado com nada.
Tinha sempre solução para tudo —
mas nada programado.
Fazia tudo em cima do joelho…
e corria sempre bem.
Quase tudo.
Quase sempre!
O bar situava-se junto ao velho cais da praia da Foz do Arelho e, nessa altura, a água da lagoa era tão límpida que se via todo o fundo — bem como tudo o que lá estava.
Não se falava em poluição.
Nem se sabia bem o que isso era.
Os estrangeiros ficavam fascinados com a beleza bruta da Foz.
Tudo era puro.
Até o povo de lá.
(Mas adiante…)
Uma das especialidades do bar era o mexilhão aberto ao natural, acabado de apanhar.
Verdade, verdadinha!
Sempre que era pedida uma dose, ouvia-se a voz lá de dentro:
— Sai uma dose de mexilhão!!!
Lá ia o meu tio até aos pilares do cais, arrancar mais uns cachos do afamado mexilhão — fresquinho, fresquinho — que depois, pelas mãos da minha avó, cozinheira de mão cheia, se transformava num petisco capaz de fazer qualquer um fechar os olhos de prazer.
Os clientes adoravam.
E os estrangeiros, então… deliravam com toda aquela naturalidade com que tudo acontecia.
Sílvia Q. Sanches
2010
A chegada da primavera transporta-me à minha infância.
À felicidade simples do dia a dia de uma criança.
Aos dias enormes… em que até os rebuçados tinham outro sabor.
A marmelada… então nem se fala.
Vejo a minha avó a dar-me uma moeda de vinte e cinco tostões para eu ir buscar marmelada ao Sr. Madeira — mercearia e retrosaria gerida por pai e filhos solteirões, sempre muito aprumadinhos e atenciosos.
Todo aquele ambiente…
O grande balcão.
Os armários de madeira até ao teto.
Os frascos cheios de chupa-chupas.
Os chocolates Regina na vitrina por detrás do balcão.
A máquina registadora, com tantos botões como rebuçados dentro dos frascos.
O cheiro do colorau, vendido a peso, em pequenos pacotes de papel, dobrados como rissóis.
E aqueles homens…
Autênticos autómatos silenciosos no seu trabalho.
Formigas zelosas do seu dever.
De bata castanha e postura irrepreensível.
Encostava-me ao topo do grande balcão de mármore, aguardando a minha vez, observando a azáfama daqueles três.
Lá passava o Sr. Chico — o mais novo — que, com um ar cúmplice, me piscava o olho, como quem dizia que já me tinha visto… e já sabia ao que eu vinha.
Chegada a minha vez, nem precisava de falar.
Ao ver-me fixar o olhar no tabuleiro castanho coberto de celofane, o Sr. Chico — com a mesma delicadeza com que atendia as senhoras mais velhas — pegava na espátula de madeira e cortava, com precisão quase cerimonial, um cubo daquela preciosidade.
Embrulhava-o em papel vegetal.
Pesava-o na enorme balança.
E voltava a embrulhá-lo em papel manteiga.
Os seus dedos, mestres na arte do embrulho, moviam-se com a rapidez de um mágico — como quem faz surgir uma flor de trás da orelha de alguém.
Eu levava aquele cubinho celestial…
E, mal chegava a casa da minha avó, nem esperava pela fatia de pão.
Trincava-o como se fosse um bolo.
Hummm…
Ainda hoje sinto aquele sabor.
O verdadeiro gosto dos sabores da infância —
os que nunca mais se esquecem.
"Eu sou pequenina,
Não sei fazer nada,
Sei ir à cozinha
Comer marmelada."
Sílvia Q. Sanches
2010
Gosto de viajar.
Mas, não tendo suporte financeiro para grandes viagens, viajo no mais profundo do meu ser — enquanto contemplo o mar ou leio um livro.
Na verdade, ler é, talvez, uma das viagens mais belas e pacíficas que se podem fazer.
Sem as complicações dos transportes, das bagagens, dos documentos…
Para mim, são viagens que ficam para a vida.
Lendo, posso viajar no tempo e viver vidas que jamais ousaria viver.
É bom viajar — ainda que espiritualmente — conhecer outras culturas, histórias magníficas, pessoas extraordinárias.
Sem fotografias, filmes ou lembranças materiais…
mas com imagens, sentimentos e sensações que jamais ninguém poderá sentir da mesma forma.
Guardadas no mais profundo do meu ser — na minha essência, na minha alma — levarei sempre comigo as pequenas recordações das minhas grandes viagens.
Um dia, quando morrer, quero ser cremada.
Quero ser espalhada por todos os lugares que me encantam.
Quero que me espalhem por aí.
Perpetuar-me em muitos lugares é um sonho antigo.
Quero voar com o vento…
e conhecer o mundo.
Sílvia Q. Sanches
2010