Com os pés na areia surgem duvidas, reflexões, ideias... como grãos de areia. Sobre a areia viajo para onde a imaginação me leva. De pés na areia mantenho-me de pé... Caminho à beira deste mar, medito, escrevo e partilho ideias. Assim me vou descobrindo.
domingo, 12 de janeiro de 2014
Balanço...
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
Antes de termos tudo, tínhamos imaginação
Vivia perto da escola e, nas férias, ia brincar para o pátio do recreio.
Não havia vedações altas nem portões fechados à chave.
Os meninos iam para a escola a pé — e tinham a chave de casa.
Eu já sabia estrelar um ovo e fritar umas salsichas, caso a minha mãe não chegasse a tempo de me fazer o almoço.
Durante a tarde, frequentava o ATL do Colégio Ramalho Ortigão.
Fazia os deveres, sim… mas o pensamento estava sempre na brincadeira.
No mundo da fantasia.
Princesas e rainhas.
Filhas e mães.
Guerreiros do espaço…
Imitávamos séries da época, como Star Trek.
Eu gostava de ser a Maya, uma das tripulantes da nave Enterprise, vulcaniana como o Mr. Spock — capaz de se transformar nas mais variadas criaturas.
Isso fascinava qualquer criança.
Os nossos walkie-talkies, telefones portáteis, armas laser… eram pedaços de cadeiras velhas amontoadas num canto do recreio.
Neles desenhávamos, com canetas de feltro, teclas, ecrãs e botões imaginários.
Não tínhamos “Magalhães”, “PlayStations”, “Nintendo DS”, tablets…
Nem sequer sonhávamos que um dia andaríamos com um pequeno aparelho no bolso — um telemóvel — quanto mais iPhones.
E, no entanto, já inventávamos mundos inteiros.
Hoje, com tanta escolha e tanta oferta, as crianças quase não precisam de imaginar.
Antes de sonharem… já têm tudo à disposição.
Sou de uma geração feliz.
Uma geração que brincava na rua, subia aos muros, percorria o bairro de bicicleta e jogava à macaca ou ao pião no meio da estrada.
Hoje, temo por uma geração diferente.
Crianças que não têm a mesma liberdade.
Que não podem sair de casa ou da escola sem a companhia de um adulto.
Que têm menos espaço para criar, imaginar, explorar.
Até a comida é diferente — manipulada, transformada — sem sabermos bem que impacto terá no futuro.
E a vida social…
tão distante da que conhecemos.
Hoje, muitas vezes, mais solitária.
Mais virtual.
Será que os meus netos serão gerados via internet?
Sílvia Q. Sanches
8 de janeiro de 2014
Capitães da Areia
Passava os verões quase sem vigilância, na praia da Foz do Arelho, enquanto os meus avós maternos geriam o seu negócio — na altura, um bar de praia — e os meus pais tomavam conta da loja de fotografia, o negócio da família.
Na Foz do Arelho, junto ao cais, formava-se ali um ponto de venda com os mais diversos negócios: uns com farturas, outros com frangos, frutas, brinquedos de praia… enfim, tudo o que o povo consumia — ou era levado a consumir. Foram anos em que o poder económico do povo português tinha aumentado substancialmente, ainda antes da Revolução dos Cravos.
Mas as crianças não sabem o que é política.
Até aos 10 anos, vivia os meus invernos entre a escola, as Atividades de Tempos Livres do Colégio Ramalho Ortigão, as brincadeiras na minha rua e à porta da loja de fotografia, sempre à espera das férias grandes.
Os verões pareciam eternidades.
Passavam-se na Foz do Arelho, entre mergulhos no cais e a apanha de caracóis, que se coziam ainda com ranhoca e faziam as delícias dos lanches da petizada daquele “centro comercial”.
O grupo era grande, com idades entre os 4 e os 12 anos — um autêntico bando de “Capitães da Areia” daquela praia.
Éramos donos daquele pedaço.
E os miúdos que ousassem pensar que nos podiam fazer frente — quer no parque dos baloiços, quer nas sessões de mergulhos no cais — saíam, com certeza, de cabeça baixa… para depois, após a demonstração de “força”, se tornarem grandes amigos do grupo.
Posso dizer que tive uma infância livre — talvez até demais — mas saudável.
Aprendemos a ser independentes, a fazer frente aos perigos (ou, pelo menos, a contorná-los), a respeitar hierarquias, a conviver e a fazer amigos.
Apesar de parecermos um bando de “índios”, éramos meninos bons e respeitadores das regras do bem viver. Sabíamos respeitar os mais velhos e adorávamos ouvir histórias da lagoa — ou outras experiências vividas por eles.
Ajudar pais, avós ou tios a arrumar as respetivas bancas era também uma das tarefas de todos os
meninos e meninas, ao final de cada dia…
Sílvia Q. Sanches
08-01-2014
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
domingo, 15 de dezembro de 2013
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Eutanásia
Entre o direito à vida e o direito à dignidade
Foi como auxiliar de saúde que testemunhei histórias de sofrimento.
Assisti a momentos de profunda angústia — vidas desgastadas, onde a morte tardava em chegar.
Situações em que, mesmo com todo o conforto e cuidados de saúde, os idosos pediam ajuda para terminar aquele sofrimento.
O medo de se tornarem um fardo para os que os rodeavam estava sempre presente.
E o direito à autodeterminação, à liberdade de escolha, era-lhes negado.
Quando se chega ao fim da vida sem mobilidade, incapaz de comer pela própria mão ou de realizar as atividades mais básicas do dia a dia — levantar-se, vestir-se, cuidar da própria higiene — que sentido faz permanecer assim, preso a um leito, a definhar lentamente?
Todos temos direito a uma vida digna.
E também a uma morte digna.
Se a situação é irreversível, para quê viver com o auxílio de máquinas?
Grande parte da classe médica rege-se pelo respeito absoluto pela vida humana desde o seu início, evitando qualquer ação que a possa contrariar. No entanto, por vezes, esquece-se que também deve zelar pela dignidade do doente e pela qualidade da sua vida — ou da sua ausência.
Desligar máquinas que mantêm um corpo em morte cerebral levanta questões éticas, médicas e religiosas. Para alguns, trata-se de uma usurpação do direito à vida. Para outros, uma forma de evitar o prolongamento do sofrimento.
Idealmente, deveria existir sempre o consentimento do próprio.
Mas nem sempre isso acontece.
Ainda assim, quando não há qualquer esperança de recuperação, talvez se deva ouvir o apelo do bom senso — e não permitir que o prolongamento artificial da vida se sobreponha ao seu verdadeiro sentido.
A ciência deve servir para cuidar, mas também para aliviar o sofrimento.
E, quando já não há vida digna possível, talvez deva permitir uma morte digna.
A legislação, por sua vez, não acompanha esta complexidade.
Quem ajuda um doente a terminar o seu sofrimento pode ser condenado por homicídio.
A eutanásia é um tema profundamente polémico.
Passa por questões éticas, morais, religiosas e legais.
Mas, acima de tudo, passa pela capacidade de compreender o sofrimento do outro — reconhecendo que ninguém é igual e que cada um encara a vida e a morte de forma diferente.
Sou a favor da eutanásia —
desde que a condição do doente, seja ele idoso, adulto ou criança, seja cuidadosamente avaliada e não exista qualquer possibilidade de uma vida digna.
Sílvia Q. Sanches
Dezembro de 2013






