domingo, 5 de abril de 2015

Autómato

Semana acaba.
Desliga-se e arruma-se no armário poupando energia para a semana que se segue.
Há aqueles que carregam baterias em modo férias, numa felicidade aparentemente induzida.
Este carrega no escuro.
Ao 3º dia ressuscita...
Pronto a laborar...

Sílvia Q. Sanches . Abril 2015


sábado, 14 de março de 2015

Sair de cena

A longa-metragem, tipicamente portuguesa, corre o risco de se tornar uma infinita metragem, com cenas demasiadamente longas e falas à medida do curto orçamento.

A monótona e sensaborona história pode até ser considerada uma obra de arte.

Alguns aplaudem, outros copiam… há até quem inveje o que julga ver.

Na verdade, ninguém assiste à totalidade do filme.

Tornou-se socialmente correto apreciar histórias longas, cada vez mais raras. O que escasseia torna-se valioso aos olhos da sociedade, mesmo que a história seja incompreensível.

As expectativas elevam-se, o realizador perde a imaginação, ao guionista faltam as palavras e o elenco perde a cumplicidade.

A película não comporta muito mais e há que acabar com a história.

O dilema é como acabar.

Queima-se viva a protagonista, desvendando-lhe os atos de bruxaria?

Enviá-la para o desterro, deserdada de tudo e de todos?

Morrerá heroicamente numa batalha campal ou partirá numa fuga inglória, desaparecendo na neblina para todo o sempre?

O público já dorme, aguardando um final feliz…

Mas há que chocar, marcar pela diferença e sair de cena sem perder o protagonismo.

Sílvia Q. Sanches
Março de 2015



sábado, 14 de fevereiro de 2015

Adiamento...

Álvaro de Campos
Adiamento





   Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
   Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
   E assim será possível; mas hoje não...
   Não, hoje nada; hoje não posso.
   A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
   O sono da minha vida real, intercalado,
   O cansaço antecipado e infinito,
   Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
   Esta espécie de alma...
   Só depois de amanhã...
   Hoje quero preparar-me,
   Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
   Ele é que é decisivo.
   Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
   Amanhã é o dia dos planos.
   Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
   Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
   Tenho vontade de chorar,
   Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...   Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
   Só depois de amanhã...
   Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
   Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
   Depois de amanhã serei outro,
   A minha vida triunfar-se-á,
   Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
   Serão convocadas por um edital...
   Mas por um edital de amanhã...
   Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
   Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
   Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
   Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
   Antes, não...
   Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
   Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
   Só depois de amanhã...
   Tenho sono como o frio de um cão vadio.
   Tenho muito sono.
   Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
   Sim, talvez só depois de amanhã...
   O porvir...
   Sim, o porvir...
http://pessoa.mdaedalus.com/alvaro-de-campos20.html