quinta-feira, 11 de junho de 2015

Capuchinho Vermelho - a historia que não se conta...



O Capuchinho Vermelho…
a própria avozinha.

O lobo não era mau.

Foi seduzido pela leveza daquela mulher que se sentia menina.

A capa vermelha dos tempos de adolescência alegrava-lhe o rosto.

Caminhava pelo bosque, saboreando o cheiro da terra, o chilrear dos pássaros, as flores…

Amava a vida — e tudo o que a rodeava.

Não tolerava injustiças e lutava sempre pelos menos favorecidos.

Ao ver o lobo, ali sozinho, indefeso, afagou-lhe o pelo, ofereceu-lhe um biscoito… e sentaram-se a venerar a floresta.

Conversaram horas sem fim.

Assunto nunca lhes faltou.

O lobo aquecia a avozinha…
e ela sentia-se menina.

Acarinhava-o, ouvindo as suas histórias.

Sentiam-se bem juntos.
Completavam-se.

A amizade cresceu tanto que, na aldeia, todos se intrigavam.

Que tanto tinham aqueles dois para conversar?

Não entendiam que uma mulher envelhecida se pudesse sentir jovem.
Nem que um lobo pudesse ser bom.

Não aceitavam a pureza daquela amizade.

Diagnosticaram demência à mulher e internaram-na num lar.

Ao lobo, caçaram-no e fecharam-no num centro de recuperação do lobo-ibérico.

Ele integrou-se com os seus companheiros de cativeiro.
Sente-se acolhido pela nova alcateia.

A avozinha, cada vez mais alheada da vida, guarda ainda a capa vermelha na sua caixa de memórias.

Sente-se a ovelha negra do seu próprio rebanho.

Na aldeia, continua-se a contar a velha história do Capuchinho Vermelho — omitindo a parte das crianças visitarem os avós e reforçando apenas o medo dos lobos.

Sílvia Sanches
2015



domingo, 5 de abril de 2015

Autómato

A semana acaba.

Desliga-se,
arruma-se no armário,
poupando energia para a que se segue.

Há quem carregue baterias em modo férias,
numa felicidade aparentemente induzida.

Este carrega no escuro.

Ao terceiro dia, ressuscita.

Pronto a laborar.


Sílvia Q. Sanches · Abril 2015



sábado, 14 de março de 2015

Sair de cena

A longa-metragem, tipicamente portuguesa, corre o risco de se tornar uma infinita metragem, com cenas demasiadamente longas e falas à medida do curto orçamento.

A monótona e sensaborona história pode até ser considerada uma obra de arte.

Alguns aplaudem, outros copiam… há até quem inveje o que julga ver.

Na verdade, ninguém assiste à totalidade do filme.

Tornou-se socialmente correto apreciar histórias longas, cada vez mais raras. O que escasseia torna-se valioso aos olhos da sociedade, mesmo que a história seja incompreensível.

As expectativas elevam-se, o realizador perde a imaginação, ao guionista faltam as palavras e o elenco perde a cumplicidade.

A película não comporta muito mais e há que acabar com a história.

O dilema é como acabar.

Queima-se viva a protagonista, desvendando-lhe os atos de bruxaria?

Enviá-la para o desterro, deserdada de tudo e de todos?

Morrerá heroicamente numa batalha campal ou partirá numa fuga inglória, desaparecendo na neblina para todo o sempre?

O público já dorme, aguardando um final feliz…

Mas há que chocar, marcar pela diferença e sair de cena sem perder o protagonismo.

Sílvia Q. Sanches
Março de 2015



sábado, 14 de fevereiro de 2015

Adiamento...

Álvaro de Campos
Adiamento





   Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
   Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
   E assim será possível; mas hoje não...
   Não, hoje nada; hoje não posso.
   A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
   O sono da minha vida real, intercalado,
   O cansaço antecipado e infinito,
   Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
   Esta espécie de alma...
   Só depois de amanhã...
   Hoje quero preparar-me,
   Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
   Ele é que é decisivo.
   Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
   Amanhã é o dia dos planos.
   Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
   Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
   Tenho vontade de chorar,
   Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...   Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
   Só depois de amanhã...
   Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
   Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
   Depois de amanhã serei outro,
   A minha vida triunfar-se-á,
   Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
   Serão convocadas por um edital...
   Mas por um edital de amanhã...
   Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
   Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
   Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
   Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
   Antes, não...
   Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
   Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
   Só depois de amanhã...
   Tenho sono como o frio de um cão vadio.
   Tenho muito sono.
   Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
   Sim, talvez só depois de amanhã...
   O porvir...
   Sim, o porvir...
http://pessoa.mdaedalus.com/alvaro-de-campos20.html