
Era uma vez um farol que vivia muito feliz na ponta de um cabo.
Com o seu faroleiro fazia uma bela dupla. O belo e majestoso farol iluminava tudo o que o rodeava, ajudando os barcos a não embaterem naquela costa e a orientarem-se no seu caminho.
Sentia-se importante, auxiliando os outros.
Tinha o seu faroleiro, que dele cuidava, o mantinha funcional e sempre grandioso.
O faroleiro amava o seu farol e nunca o abandonava. Conhecia-lhe todos os recantos, percorria todos os seus degraus de olhos fechados, se preciso fosse. Mesmo que aquela escalada diária lhe custasse, não desistia da sua vida de faroleiro.
Um dia, o belo e majestoso farol, durante a sua empreitada noturna — iluminando aquele pequeno mundo à sua volta, num olhar zeloso mas solitário — sentiu-se encandeado.
Sim, encandeado.
A sua luz cruzava-se com a de outro farol.
Nunca tinha acontecido.
Chegara a julgar-se único…
não fazia ideia de que existiam outros como ele.
O faroleiro nunca lho dissera.
O outro farol, que vivia numa pequena ilhota, também se surpreendeu com aquela troca de luzes.
Estava triste.
O seu faroleiro tinha-o abandonado e ele sentia-se desamparado. Mas continuava a cumprir a sua missão, iluminando o mundo à sua volta.
Ao perceber que não estava sozinho, sentiu-se, estranhamente, feliz.
Desde essa noite, os dois faróis passaram a desejar cruzar as suas luzes.
Dos seus pontos de vigia, conscientes das suas funções, contemplavam-se ao longe, a cada encontro dos seus feixes de luz.
Passaram muitos Natais.
Os instrumentos náuticos sofisticaram-se e os faróis tornaram-se quase elementos decorativos, míticos… mas sempre em função.
Cada vez mais automatizados, dispensando os faroleiros.
E, ainda assim, nas suas grandiosas funções, continuam a iluminar o escuro da noite — tal como uma árvore de Natal ilumina o regresso a casa.
Sílvia Q. Sanches
2008
