(27 de março de 2017)
Saudades de andar descalça e sentir cada pedrinha ou a areia da praia, umas vezes quente do sol, outras fria já ao anoitecer… tão bom!
Sinto ainda o cheiro da areia e da maresia nas noites de nevoeiro.
Saltava, descalça, de medão em medão, como que a fugir da humidade fria da noite.
Vigiada pela lua e pela luz do farol da Berlenga, apanhava conchinhas e atirava-as ao ar enquanto os adultos se entretinham em conversa e petiscada.
Noites animadas, aquelas!
Mais ainda quando as melgas, quase sempre atraídas pelas luzes das gambiarras, faziam também elas o seu petisco — e eu nunca me escapava. Coçava as borbulhas até sangrar e cobria com areia para estancar; melhor cura não havia! Ficou-me entranhado na pele…
Que bem me sabia ir molhar os pés na escada escorregadia do cais. Água fria, corrente forte, cheiro a iodo — ainda o sinto.
O sono chegava e a “birrinha” encaminhava-me para a saia da avó ou para as pernas do avô.
— Anda cá, menina!…
Uma mão afagava-me o cabelo áspero da areia e do sal, e o casaco de malha da avó enrolava-se em mim até aos pés.
Ainda de pele salgada do banho da tarde, um arrepio misto de frio e de prazer. Agarrava a “Xana” por um braço, uma perna ou pelo pescoço e abraçava-a até adormecer — umas vezes ao colinho da avó, outras já na cama de lençóis de flanela polvilhada de areia que eu levava agarrada à pele, qual croquete, qual fartura. Espoliação melhor não havia.
Banhos intermináveis aqueles, até ficar bem salgada, engelhada e gelada com tantos pinotes, mergulhos e braçadas.
Já ao sol, de queixo a tremer, o doce da fartura quentinha e o leite achocolatado “Ucal” misturavam-se com o salgado da boca. Divino!
Tardes perdidas a construir barraquinhas com panos e paus surripiados das barracas de praia, a fazer castelos na areia — cada um maior e melhor decorado que o outro —, a jogar à carica em longas pistas vincadas no areal, a lançar o papagaio ou pura e simplesmente a correr e a cantarolar, de toalha enrolada na cabeça:
— Na praia da Nazaré ninguém pode andar em pé…
Momentos mágicos, intemporais, que jamais esqueço.
Nenhuma criança esquece a sua infância. E eu, e os outros que como eu viveram ali aqueles momentos, aprendemos o que é a liberdade.
Quando for grande, quero voltar a ser criança!
Sílvia Queirós Sanches
Pintura a pastel seco sobre papel aguarela - 2001 - pintado por mim - de uma foto da minha infancia
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