sexta-feira, 27 de março de 2020

A guerra

Não tenho sono. Ou melhor, tenho, mas o ruído dos meus pensamentos não me deixa descansar.

Estamos em guerra.

Fugimos de balas invisíveis, escondemo-nos de um inimigo sem rosto…

Sem rosto era o bebé que eu protegia, fugindo entre escombros de um bombardeamento após o 11 de setembro.

Era um sonho e eu, grávida, preocupava-me com o bebé que sentia dentro de mim, mas cujo rosto não conhecia.

Agora é real.

Sem bombas, mas explodindo as nossas vidas.

Trabalho em casa. Penso que é mais seguro… será?

Não estou tão exposta às “balas”, nem ameaço outros. Ocupo o meu tempo a trabalhar.

Um ciclo vicioso: dormir, comer, trabalhar, comer, trabalhar, comer, dormir…

Estou a ficar quadrada.

Sim, quadrada fisicamente, porque estou a comer demais, e quadrada de espírito, porque não vejo mais nada para além do trabalho e das notícias da guerra, e das consequências num futuro muito próximo.

Estar em casa é bom. É uma trincheira confortável, mas muito solitária.

Estou cansada de conversar comigo mesma e de dizer ao telefone que está tudo bem…

Não está fácil.

A guerra está a deixar marcas e ainda nem se vislumbram sinais do seu fim.

Agora penso: como será o pós-guerra?

Conseguirei dormir?



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