quinta-feira, 23 de abril de 2020

Flores

Hoje lembrei-me do cheiro das flores. Não das de florista — natureza morta. As flores do campo, genuinamente vivas.

Uma paisagem salpicada de cores é, sem dúvida, dos melhores presentes que a natureza nos oferece.

Nunca gostei de ramos de florista, todos engalanados, cheios de brilho, vestidos dos mais variados invólucros, com laços de formas criativas e sofisticadas. Não gosto. Cheira a aparência, ostentação, presunção.

Já estão mortas e não sabem, as flores…

As flores silvestres são as mais genuínas, com vida, nos campos onde nascem espontaneamente, cada uma com o seu vestido e perfume. Lindas no seu bailado ao sabor do vento.

Não viveriam num balde de florista com aquela aparência glamorosa das flores de estufa, criadas apenas para esse efeito, mas vivem felizes nos campos, sem artifícios e sem laços.

Alimentam abelhas, abrigam joaninhas, perfumam a natureza e alegram o nosso olhar.

As flores de estufa não têm vontade própria. Não nascem espontaneamente em qualquer lugar e dependem dos maiores cuidados para serem belas e cheirosas.

A sua vida é efémera, frágil. Nunca sobreviveriam num campo.

No entanto, um bouquet de flores silvestres pode ser um encanto.

Assim é a vida…

domingo, 29 de março de 2020

Sol

Gosto de sol.

Já me chamaram de lagarto, cobra, animal de sangue frio… Quem me conhece sabe o quanto gosto de uma bela sorna no carro, a produzir vitamina D até escorrer pelo canto da boca.

Das minhas memórias de infância recordo as grandes sestas que fazia com o avô no carro. Ficava completamente “grogue” ao fim de um par de horas na “estufa”.

Preciso de sol e hoje não foi exceção.

Passei a manhã e uma boa parte da tarde na varanda, ao sol. Deu para ler, consultar as redes sociais, ouvir os pássaros, os vizinhos… até dormir.

Foi bom. Com os níveis de vitamina D e as defesas reforçados.

Pronta para mais uma semana de clausura.

Isolamento

Começo a habituar-me a isto.

Dizem que para criar uma rotina só precisamos de a repetir por 21 dias… e eu já estou quase lá!

Sempre gostei de estar em casa, no meu ninho, no meu sossego. Quando estou stressada, isolo-me um fim de semana longe do mundo. Portanto, já não é novidade para mim estar em casa.

Também gosto de passear, de caminhar, de viajar… preciso disso, acho que todos precisamos.

Mas agora é ficar em casa e viajar em pensamento, ou nas páginas de um livro. E trabalhar, cumprindo o horário e produzindo tanto ou mais.

Gosto de casa. Gosto da minha companhia — não nos damos mal.

Diz-se que só se é realmente feliz quando sabemos viver com a nossa própria companhia, quando não se depende da atenção de ninguém.

Pois então, estou no bom caminho. Estou bem comigo mesma, na minha rotina, no meu conforto, com as minhas “taras e manias”.

Por vezes sinto falta de socializar, de estar com o meu filho, de afetos… mas há um telemóvel e redes sociais onde podemos saber uns dos outros. Pelo menos aquilo que queremos mostrar.

Vivo bem assim. Só preciso de garantir o meu sustento. Com ou sem “guerra”, não há coisa melhor do que sermos donos da nossa vida, sem dependências.

sexta-feira, 27 de março de 2020

A guerra

Não tenho sono. Ou melhor, tenho, mas o ruído dos meus pensamentos não me deixa descansar.

Estamos em guerra.

Fugimos de balas invisíveis, escondemo-nos de um inimigo sem rosto…

Sem rosto era o bebé que eu protegia, fugindo entre escombros de um bombardeamento após o 11 de setembro.

Era um sonho e eu, grávida, preocupava-me com o bebé que sentia dentro de mim, mas cujo rosto não conhecia.

Agora é real.

Sem bombas, mas explodindo as nossas vidas.

Trabalho em casa. Penso que é mais seguro… será?

Não estou tão exposta às “balas”, nem ameaço outros. Ocupo o meu tempo a trabalhar.

Um ciclo vicioso: dormir, comer, trabalhar, comer, trabalhar, comer, dormir…

Estou a ficar quadrada.

Sim, quadrada fisicamente, porque estou a comer demais, e quadrada de espírito, porque não vejo mais nada para além do trabalho e das notícias da guerra, e das consequências num futuro muito próximo.

Estar em casa é bom. É uma trincheira confortável, mas muito solitária.

Estou cansada de conversar comigo mesma e de dizer ao telefone que está tudo bem…

Não está fácil.

A guerra está a deixar marcas e ainda nem se vislumbram sinais do seu fim.

Agora penso: como será o pós-guerra?

Conseguirei dormir?



sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Brincar às bonecas

Bonecas dentro de caixas, só na loja.

Quando era pequena, lembro-me de amigas que tinham bonecas lindas dentro das caixas, ali, a decorar o quarto. Nem podiam brincar com elas.

Assim são essas Barbies da vida.

Lindas, maravilhosas, glamorosas, intocáveis nas suas torres de Babel. Quando um dia saírem da “caixa”, se saírem, serão como as outras: as unhas descascam, os cabelos brilhantes desbotam e encrespam, os corpos deformam-se e as lindas tattoos ou piercings perdem a graça.

Podem sempre optar por continuar bonecas — aquelas que agradam a maridos que gostam de exibir troféus que o dinheiro compra. Ainda há quem prefira ter a boneca em casa, qual Barbie na sua casinha encantada.

Mais tarde ou mais cedo, o brilho apaga-se.

Assim sendo, se é para brincar, que seja como uma boneca de trapos: simples, sem glamour, mas cheia de conteúdo.

O melhor da vida é o que se vive sem mostrar.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Cidade moderna, hábitos medievais



Na verdade, parece que continuamos na Idade Média.

Evoluiu-se em tanta coisa. Construíram-se prédios, estradas, passeios. Fala-se dos planos de ordenamento e inauguram-se espaços em vésperas de eleições… mas o essencial parece continuar por resolver: a limpeza.

Por vezes até me parece pior.

Quando era pequena ainda via os varredores nas ruas efetivamente a limpar e a lavar com grandes mangueiras e agulhetas potentes. Agora os poucos varredores que vejo parecem fazer cócegas às pedras das calçadas, deixando a sujidade por onde passam.

Antes também era habitual ver o pessoal do comércio — e até de casas particulares — limpar o espaço à frente das suas portas. Agora não vejo nada disso.

Por onde passo vejo passeios negros e cheios de dejetos, cantos, pilares e postes marcados pelo sarro da urina de animais.

E não me digam que são cães abandonados, porque não há cães à solta nas ruas da cidade.

Às vezes apetecia-me andar com um pulverizador cheio de lixívia a lavar esses locais, mas não faria outra coisa.

Bem no centro da cidade de Caldas da Rainha, em frente ao município, não é preciso ser um grande observador para ver um desses exemplos. As arcadas em frente ao “Novo Banco” estão imundas.

Provavelmente a responsabilidade da limpeza será do condomínio do prédio ou do próprio banco, mas é um local público com imenso movimento: gente que entra e sai, que passa, que passeia… há turistas.

E que bilhete-postal!

Tem sido feito muito em termos de modernização, mas a evolução parece ter desviado a atenção para outros assuntos que não a higiene. E isso não se resolve com uma aplicação de telemóvel, mas sim com medidas profundas de saneamento e de hábitos.

Portanto, senhores das entidades responsáveis — e cidadãos comuns, eu incluída — por favor retirem os olhos dos telemóveis.

Não é só falar do lixo dos oceanos.

Olhem para o que vos rodeia.

Há muito para fazer em terra.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

O desporto nacional

Oh, artistas!

É impressionante a quantidade de argumentistas populares que este país tem.

Assim como existem “olheiros” para descobrir estrelas do futebol e concursos de talentos para as mais variadas formas de arte, deveria criar-se um programa para descobrir os talentosos argumentistas especializados na vida alheia.

Melhor ainda…

Se o governo taxar esse tipo de argumentações que tanto entretêm a opinião geral, acabam-se os buracos nos cofres do Estado num abrir e fechar de olhos.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Chiu...

Silêncio.

Hoje nem a TV liguei…
Nem os vizinhos de cima…

Nada.

Apenas os segundos do relógio.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Algures sem gravidade


(24/09/2018)

Num daqueles momentos em que a embriaguez da gula se sobrepõe a tudo, velando o discernimento do que se pode e deve comer, via-se paralisada, flutuando no vazio.

Ali, como que no espaço, os pensamentos passavam por si soltos, livres, como peças de puzzle idênticas umas às outras, mas com um único encaixe.

Passava-lhe pela cabeça a ideia de ligar àquela pessoa que a tinha tentado contactar pela hora do almoço, mas o corpo e a mente não reagiam ao estímulo de tentar ligar de volta.

O trabalho, as contas, as datas, os clientes, as horas, o salário, as obrigações — tudo peças miudinhas que flutuavam desordenadamente nos seus pensamentos, obstruindo a passagem de ideias maiores: escrever, pintar, criar, passear, planear momentos prazerosos, namorar, fazer planos a prazo.

Sentia-se soterrada em problemas que não lhe pertenciam, mas que assumia como tal.

Tinha de ultrapassar isso, treinar a capacidade de dizer basta sem ferir suscetibilidades. Como fazê-lo ainda estava longe de o saber.

Tentava apanhar as peças, os pensamentos, arrumando-as por categoria, por ordem de prioridade. Mas aquilo que tinha de ser não era bem o que esperava que fosse.

Aquelas pequenas peças do puzzle ocupavam-na tanto a tentar arrumá-las que não lhe deixavam tempo para fazer o que mais a motivava.

Perguntava-se, naquele mesmo momento, há quanto tempo não ouvia música.

Ultimamente fazia do ruído em volta o som ambiente, como se de uma música se tratasse: o som dos minutos do relógio, do qual nem sabia se as horas estavam certas; o choro do bebé do apartamento de cima; o som de um carro que passava na rua…

Tudo menos aquelas melodias que a faziam sonhar, que a emocionavam ou embalavam.

Estava perdida.

Flutuava no vazio.

Continuava a rodopiar num espaço sem gravidade entre as peças de puzzle, grandes e pequenas, sem ordem, sem peso, sem chão.

Flutuava apenas — sem destino, sem tempo, sem metas — débil numa luta entre o discernimento e a embriaguez da gula e do não fazer nada.




sábado, 2 de junho de 2018

Linhas...

(02/06/2018)

Prestes a concretizar um sonho de adolescente — quiçá de criança —, em viagens imaginárias vejo-me, sem qualquer tipo de pressões nem influências, a pisar de novo velhas linhas, velhos caminhos.

A tão ansiada viagem a Santiago. A minha caminhada será determinante.

Sinto que as alterações que o destino se encarregou de fazer são propositadas para terminar ciclos, fechar portas entreabertas.

Iniciaria de um ponto sem grande sentido e foi-me sugerido iniciar de outro, o que aceitei de imediato. Só mais tarde me dei conta da importância do lugar de partida, quando o destino se encarregou de chamar a atenção de velhos caminhantes vindos de terras de pescadores.

Cada vez mais me convenço de que a rede lançada pelo destino é agora conduzida pelo anjo que conheci na primeira noite do ano.

Comigo deixou paz de espírito, motivação e determinação.

Acredito que será mesmo esta a viagem da minha vida.

Em todos os sentidos.

Será um marco de viragem.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Tempestades quebram galhos

(21/12/2017)

Se há dias em que o sol brilha, também os há em que o céu escurece, presságio de tempestade.

Mesmo uma árvore robusta pode sofrer quebras, perder folhas, galhos…

Estamos em época de tempestades.

Muitas delas em pequenos copos…

Que pequenas tempestades não se transformem num furacão capaz de destruir tudo.

Desapego

(21/12/2017)

Soltar.
Entregar.
Deixar ir.

Deixar partir.
Fluir.

Viver no presente.
Sem o peso do passado.

Sem expectativas para o futuro.

Saber os nossos limites.

Somos passageiros.

Sem posses.
Sem medo.
Sem culpas.