quarta-feira, 8 de março de 2023

Paz

Hoje, dia de comemoração específica das mulheres, 8 de março — que, afinal, deveria ser também de pesar pelas que morreram a defender direitos que ainda não tinham — as redes sociais enchem-se de frases e textos mais ou menos profundos a favor da classe feminina.

Gosto de ser mulher, sim, mas neste dia específico tenho por norma colocar-me à margem.

Não me identifico com as histerias e os carneirismos habituais. Não me satisfaço com flores ou bombons… muito menos com palavras vãs e frases feitas.

Não preciso que me lembrem que sou mulher e que a vida é mais desafiadora para qualquer uma de nós.

Prefiro lembrar, comemorar neste dia aquele em que saí da maternidade com um filho nos braços — com uma responsabilidade maior que o mundo e um amor capaz de ultrapassar o universo.

Nesse dia dormi pela primeira vez em casa com a certeza de que nunca mais seria a mesma coisa e de que nunca mais seria só eu.

Agora, passados alguns anos e umas quantas mudanças, o peso da responsabilidade aliviou, mas o amor, sem espaço num só universo, continua. E vejo a vida a mudar de outra forma, com outros desafios à espera do momento certo.

O corpo a mudar, a mente em constante busca, o tempo que escasseia, a vontade de ser “feliz” já o sendo, e a ideia de que ainda não se está no ponto…

Ainda jovem para sonhar e tentar novos projetos, mas com a sensação de que já estou demasiado velha para mudar e sair da zona de conforto.

A corda bamba da vida, com ideais preconcebidos de realização pessoal, sendo, na verdade, uma coisa simples: viver em paz, conviver, ter paz, crescer, manter a paz, amadurecer… com paz.

Um dia lá chegarei.

 


  


quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Ventos

Trabalho todos os dias, não dependo de ninguém.

Posso parecer desligada, fria, distante, mas estou atenta — de longe.

Sou como o vento: abraço tudo e todos.
Mas não me prendam — não sirvo para nada se estiver fechada.

Deixem-me voar…

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Como água

A vida, como a água, corre em direção ao mar e é nas correntes — mais lentas ou mais rápidas — que segue.

Pode até ficar parada algum tempo, como a água numa barragem, mas não para sempre.

Correndo ou evaporando, a vida segue: fria ou mais quente, ácida ou alcalina, conforme o percurso.

Assim vejo a vida.

Sempre em movimento, contribuindo para a vida, apagando fogos, saciando, banhando… lavando…

Numa azáfama individual e desenfreada, desde o nascimento até ao derradeiro momento, mais cristalina ou um pouco mais turva.

Cá estou eu a entrar no percurso final, a sair dos rápidos e das quedas vertiginosas, agora num percurso mais largo, lento e denso.

Agora só quero águas calmas até ao mar, sem grandes dependências nem tropeções.

Não tenho pressa.

Mas quando chegar ao mar, encontrar-me-ei com as baleias e serei sereia.


sábado, 19 de março de 2022

Os dias de...

Quem me conhece sabe que não ligo muito a datas comemorativas. Até mesmo aniversários que respeito e até comemoro de acordo com o que a sociedade dita… Enfim…

Para mim é tudo palhaçada, show off, hipocrisias.

Dar os parabéns publicamente nas redes sociais que ajudam a lembrar o aniversário do amigo de escola por quem se passa na rua e nem se cumprimenta; aquela amiga que se afastou mas com quem fica bem manter as aparências de pessoa socialmente correcta e “muito popular”; o familiar que nem se conhece, mas que fica bem mostrar que se tem uma família grande; os conhecidos de quem já nem nos lembramos quem são, mas fica bem felicitar… enfim…

Já estes dias comemorativos — do pai, da mãe, dos irmãos, do cão, do gato, da treta… — todos a publicarem mensagens demonstrando afetos que só sentem no momento em que publicam para a sociedade ver.

Pois lamento ser tão fria, desligada nestes dias. Nalguns casos até sou sempre, porque a vida me obrigou a isso. Aqui, na minha frieza e despiste, amo todos os dias quem devo amar sem precisar de mostrar. Preocupo-me todos os dias com todos, mesmo que não haja comunicação.

Portanto, para mim, todos os dias são dias — menos os que nos são impostos e publicitados nas redes sociais.

Prefiro uma palavra, uma piscadela de olho ou uma boa ação em qualquer momento, a mensagens fantásticas direcionadas aos holofotes.

domingo, 13 de março de 2022

Engolir sapos engorda

Está na hora de começar a fazer dieta.
Tenho exagerado nos sapos.

Estou enjoada dessa “iguaria” que insistem em servir-me.
Pode até ser gourmet… mas eu dispenso.

Prefiro pão e água
a continuar a engolir sapos.

Enjoei.

E há dietas que começam simplesmente assim:
deixar de aceitar o que nos tentam pôr no prato.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Papéis que não servem

Nem todos os nomes que nos dão nos pertencem.


Há palavras que parecem pequenas quando são ditas.
Mas algumas ficam a ecoar durante muito tempo.

Entre todas, houve uma que nunca assentou bem: dondoca.

Dizia-se que era carinho. Apenas uma forma leve de tratar.
Mas há palavras que trazem consigo uma ideia inteira — um retrato desenhado por outros, onde nem sempre nos reconhecemos.

Há quem imagine uma mulher como dondoca: decorativa, dependente, talvez fútil, talvez confortável numa vida onde outros decidem e sustentam.

Mas nem todas as mulheres cabem nesse retrato.

Há mulheres que sempre trabalharam, que construíram o seu próprio caminho, que nunca estiveram à venda nem à espera que alguém lhes definisse o lugar.

Quando uma palavra tenta reduzir alguém a um papel que não escolheu, deixa de ser ternura. Torna-se apenas uma forma subtil de desrespeito.

Durante algum tempo acredita-se que talvez seja apenas uma diferença de linguagem, de mundos, de formas de estar. Admira-se a disciplina do outro, a determinação, a forma firme como defende as suas ideias. Até se confunde isso com força.

Mas a vida ensina que há forças que não sabem reconhecer a liberdade do outro.

Há relações em que alguém acredita mandar, decidir, estabelecer regras. Talvez porque foi assim que sempre viu o mundo funcionar.

Só que há mulheres que não nasceram para ocupar lugares definidos por outros.

Podem até tentar adaptar-se durante algum tempo. Podem até escolher o silêncio quando certas coisas magoam. Não por fraqueza, mas porque preferem seguir em frente em vez de discutir cada gesto.

Até que um dia percebem que alguns papéis simplesmente não lhes pertencem.

E então deixam-nos ficar para trás.

Hoje aquela palavra já não pesa. Ficou onde tantas outras coisas ficaram: no passado.

Porque houve um tempo em que alguém quis que fosse dondoca.

Mas há pessoas que nasceram apenas para ser livres.

Alguns papéis nunca foram feitos para nós.
E reconhecer isso também é liberdade.

sábado, 29 de janeiro de 2022

Do signo ou do feitio?


"Capricornianos podem ser vistos como a personificação da rudeza e da falta de empatia por muita gente, que até pode estar certa. Eles parecem não ter paciência para ensinar e eliminam pessoas de suas vidas como se não tivessem importância alguma. Para muitos, esse comportamento é apenas um sinal de que o seu interior é obscuro, mas, na realidade, a razão pode ser mais complexa.

Esses representantes almejam muito por uma vida de sucesso e querem ser os melhores em tudo o que fazem. Por já terem sido enganados por seus atos de bondade e gentileza, aprenderam que precisam agir mais com a razão; por isso são, por vezes, grosseiros — uma forma de evitar serem enganados novamente. Não são pessoas fáceis de se conviver."

(Texto retirado de um site de horóscopo)

Depois de ler este texto, que pode ter o seu quê de verdade, penso que, seja por tendência do zodíaco ou mesmo por mau feitio, tenho-me afastado de várias pessoas ao longo da minha vida.

E porquê?

Acabo de sair de uma aula de inteligência emocional e já estou a expor esta questão — de certo modo, pouco inteligente.

Mas se, para chegar a um bom nível na gestão das emoções, devemos refletir sobre o porquê dos acontecimentos, nada como meditar aqui sobre essa questão.

Não sou de impor a minha presença sempre que sinto que não sou desejada.
Também me defendo, afastando-me de quem não me faz bem emocionalmente.

Sou um pouco permeável e as energias, positivas ou negativas, influenciam-me.

Prefiro a luz, o sol, pessoas radiosas, positivas e que não critiquem sem antes olhar para os seus próprios defeitos.

Não me preocupam os defeitos dos outros — também tenho os meus, muitos.

Sou cruel, dura, às vezes — muitas vezes — comigo própria.

Se me sinto pisada, incompreendida, esquecida ou ignorada, desligo.
Desligo de vez. Não sem antes hesitar muito, às vezes até demais.
Mas quando desligo, é de vez.

E hoje, ao ler o texto sobre o comportamento do capricórnio, fiquei pensativa.

Afinal, é do signo?
Ou é mesmo mau feitio?

Para mim, é o meu amor-próprio a funcionar.
E digam o que disserem — fria, cruel, rude ou antipática — é a minha reação.

Não sei se isso é inteligência ou apenas feitio.
Sei apenas que é a minha forma de continuar livre e senhora do meu nariz.




terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Obrigações, não obrigada!

Posso parecer tolinha, palerma, domesticável, “porreirinha”…

Posso parecer pacífica — e até sou. Sou tudo isso até deixar de o ser.

No dia em que decido não ser, corto o mal pela raiz, doa a quem doer.
E não dói menos a mim… Mas é assim, como quem tem de arrancar um dente. Dói, mas passa.

Dedico-me às causas a 100%, de forma espontânea e descontraída.

Há quem não saiba entender e não respeite. Quando assim é, deixa de ser causa e passa a ser obrigação.

Nunca gostei de obrigações e não obrigo ninguém.

Sentindo que a minha presença deixa de ser desejada, retiro-me e espero reciprocidade.

Para obrigações já basta o dia a dia: o trabalho, a sociedade, as contas…

Amizades e amores têm de ser sentidos, desejados, espontâneos — não impostos friamente, nem por agenda.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Marionetas e fantoches

Tenho uma predileção especial por marionetas.

Quem da minha geração não se enterneceu numa praça qualquer a ver um teatro de fantoches? Os “Robertos”, sempre com a sua lição de moral: no fim, o mais humilde acabava por ganhar.

Havia muita fantuchada, é verdade.
Mas a mensagem era clara.

Talvez fosse por isso que ficávamos ali, atentos, a rir e a esperar pelo desfecho. No meio das pancadas, das trapalhadas e das vozes exageradas, havia sempre um momento em que a justiça aparecia — simples, direta, quase infantil.

Com o tempo percebe-se que a vida não é bem assim.

Nem sempre o mais humilde ganha. Nem sempre quem faz mais barulho é o vilão, nem quem parece inocente é a vítima.

E há dias em que todos parecemos um pouco marionetas, presos a fios invisíveis: expectativas, conveniências, papéis que nos pedem para representar.

Uns aceitam os fios.
Outros cortam-nos.

Talvez por isso continue a gostar de marionetas. Porque, no fundo, lembram-nos que há sempre alguém a puxar os fios.

A diferença é que, na vida real, cada um decide se quer continuar no palco…
ou aprender a viver sem fios.

Porque ver os fios é fácil.
Difícil é ter coragem de os cortar.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Espírito de Natal

Começam a cair as primeiras folhas, os miúdos voltam à escola e já se começa a pensar no Natal, nas festas de “família”. Consumismo à vista!... A loucura das prendas e de quem se destaca com as ideias mais geniais ou luxuosas no toma lá, dá cá do “Natal” contemporâneo.

Tenho-me afastado dessas festas nos últimos anos. Digo que não gosto do Natal, mas não é da época em si.

Afinal, o verdadeiro Natal fez-se a três: mãe, pai e filho. Vá, a cinco — falta a vaca e o burro num estábulo, sossegadinhos.

Mesa cheia de comensais não é Natal; isso, quanto muito, na minha ótica, será antes da Páscoa — e sem excessos!

Prendas? Pode ser pelos Reis, mas sem competitividade. O espírito é oferecer o que se tem, o que se pode e, se houver vontade, fazê-lo.

O que interessa mesmo é o bom entendimento entre as pessoas, sem ódio nem ressentimento, sem publicidade nem falso sentimentalismo.

“Natal é sempre que se quiser.”
E, por mim, pode ser em qualquer época, em qualquer dia, a qualquer hora —
menos quando todos dizem que tem de ser.





sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Liberdade em sociedade

Tenho lido vários trechos num livro sobre a evolução da economia na sociedade. Abordam a importância da individualidade e da liberdade intelectual, tanto a nível laboral como religioso — que, quer se queira quer não, também é uma forma de economia e de organização.

Durante séculos, sobretudo na Idade Média, o pensamento do homem foi muitas vezes conduzido por manuais, doutrinas e estruturas rígidas de fé. Quando levadas ao extremo, essas formas de organização tendem a toldar o pensamento individual, limitando a capacidade de questionar e de criar.

A liberdade de pensamento nasce muitas vezes quando deixamos de seguir manuais — e começamos a fazer perguntas.

Com a evolução do feudalismo para o burguesismo, o homem foi recuperando, pouco a pouco, a capacidade de pensar por si e de procurar realização no seu próprio trabalho e nas suas escolhas.

Daí a presença cada vez maior da valorização pessoal e científica, bem como a criação de pequenos negócios que se destacam pela não submissão a regras e ideias escravagistas de uma sociedade capitalista industrializada.

Somos todos, de alguma forma, escravos do dinheiro e da sociedade, e disso é difícil fugir.

Há sempre a necessidade de liberdade de pensamento num misto de necessidade de aceitação.

Viver em sociedade e ser livre é uma utopia, mas é bom acreditar que isso existe.

Pelo menos sonhamos.
E lutamos.
Vivemos.

Somos humanos, somos diferentes uns dos outros e temos de nos aceitar mutuamente.

Estaria aqui a divagar sobre o que penso do viver em sociedade, mas não teria fim.

Fica apenas este pensamento.

sábado, 19 de junho de 2021

Voar

Ser feliz é ser livre de tudo o que me impeça de voar.

Quebrar amarras, não depender de nada nem de ninguém.

Saber viver cada momento concedido pela vida como se não houvesse amanhã!

Nem sempre se consegue essa plenitude, mas, com calma e descontração, lá se vai indo de peito aberto às coisas boas da vida.