Nem todos os nomes que nos dão nos pertencem.
Há palavras que parecem pequenas quando são ditas.
Mas algumas ficam a ecoar durante muito tempo.
Entre todas, houve uma que nunca assentou bem: dondoca.
Dizia-se que era carinho. Apenas uma forma leve de tratar.
Mas há palavras que trazem consigo uma ideia inteira — um retrato desenhado por outros, onde nem sempre nos reconhecemos.
Há quem imagine uma mulher como dondoca: decorativa, dependente, talvez fútil, talvez confortável numa vida onde outros decidem e sustentam.
Mas nem todas as mulheres cabem nesse retrato.
Há mulheres que sempre trabalharam, que construíram o seu próprio caminho, que nunca estiveram à venda nem à espera que alguém lhes definisse o lugar.
Quando uma palavra tenta reduzir alguém a um papel que não escolheu, deixa de ser ternura. Torna-se apenas uma forma subtil de desrespeito.
Durante algum tempo acredita-se que talvez seja apenas uma diferença de linguagem, de mundos, de formas de estar. Admira-se a disciplina do outro, a determinação, a forma firme como defende as suas ideias. Até se confunde isso com força.
Mas a vida ensina que há forças que não sabem reconhecer a liberdade do outro.
Há relações em que alguém acredita mandar, decidir, estabelecer regras. Talvez porque foi assim que sempre viu o mundo funcionar.
Só que há mulheres que não nasceram para ocupar lugares definidos por outros.
Podem até tentar adaptar-se durante algum tempo. Podem até escolher o silêncio quando certas coisas magoam. Não por fraqueza, mas porque preferem seguir em frente em vez de discutir cada gesto.
Até que um dia percebem que alguns papéis simplesmente não lhes pertencem.
E então deixam-nos ficar para trás.
Hoje aquela palavra já não pesa. Ficou onde tantas outras coisas ficaram: no passado.
Porque houve um tempo em que alguém quis que fosse dondoca.
Mas há pessoas que nasceram apenas para ser livres.
Alguns papéis nunca foram feitos para nós.
E reconhecer isso também é liberdade.