terça-feira, 15 de agosto de 2017

Nasci livre…

https://youtu.be/mwYmyjjnmPw?si=GYxVYb_0S62EePxV

Este texto acompanha uma ligação no YouTube à música “Vejam Bem”, de Zeca Afonso.


Sentir o entusiasmo emotivo da liberdade merecida de jovens pais, tios, avós… gente entusiasta de camisa aberta, manga arregaçada, calça à boca de sino…

A alegria de fazer parte daqueles bandos de miudagem livre, rebolando no chão, cantando os hinos da liberdade numa canção de roda.

Admirar a gente grande como heróis conquistadores de liberdade.

Participar alegremente em marchas, concertos e comícios, às cavalitas de alguém ou embrulhada num xaile de lã ao colo de uma avó.

Sinto ainda a emoção geral de uma conquista da qual já só usufruí.

Falta-me a eloquência dos que outrora admirei. Falta-me a presença, as conversas sem nexo e sem fim em volta de uma mesa de café, numa espécie de nevoeiro de fumo de cigarros.

Lembranças de uma infância selada com entusiasmo geral.

Nasci livre…

Emociono-me.

Temo não saber defender a liberdade e morrer sem ela.


terça-feira, 28 de março de 2017

Saudades de ser criança


(27 de março de 2017)

Saudades de andar descalça e sentir cada pedrinha ou a areia da praia, umas vezes quente do sol, outras fria já ao anoitecer… tão bom!

Sinto ainda o cheiro da areia e da maresia nas noites de nevoeiro.

Saltava, descalça, de medão em medão, como que a fugir da humidade fria da noite.

Vigiada pela lua e pela luz do farol da Berlenga, apanhava conchinhas e atirava-as ao ar enquanto os adultos se entretinham em conversa e petiscada.

Noites animadas, aquelas!

Mais ainda quando as melgas, quase sempre atraídas pelas luzes das gambiarras, faziam também elas o seu petisco — e eu nunca me escapava. Coçava as borbulhas até sangrar e cobria com areia para estancar; melhor cura não havia! Ficou-me entranhado na pele…

Que bem me sabia ir molhar os pés na escada escorregadia do cais. Água fria, corrente forte, cheiro a iodo — ainda o sinto.

O sono chegava e a “birrinha” encaminhava-me para a saia da avó ou para as pernas do avô.

Anda cá, menina!…

Uma mão afagava-me o cabelo áspero da areia e do sal, e o casaco de malha da avó enrolava-se em mim até aos pés.

Ainda de pele salgada do banho da tarde, um arrepio misto de frio e de prazer. Agarrava a “Xana” por um braço, uma perna ou pelo pescoço e abraçava-a até adormecer — umas vezes ao colinho da avó, outras já na cama de lençóis de flanela polvilhada de areia que eu levava agarrada à pele, qual croquete, qual fartura. Espoliação melhor não havia.

Banhos intermináveis aqueles, até ficar bem salgada, engelhada e gelada com tantos pinotes, mergulhos e braçadas.

Já ao sol, de queixo a tremer, o doce da fartura quentinha e o leite achocolatado “Ucal” misturavam-se com o salgado da boca. Divino!

Tardes perdidas a construir barraquinhas com panos e paus surripiados das barracas de praia, a fazer castelos na areia — cada um maior e melhor decorado que o outro —, a jogar à carica em longas pistas vincadas no areal, a lançar o papagaio ou pura e simplesmente a correr e a cantarolar, de toalha enrolada na cabeça:

Na praia da Nazaré ninguém pode andar em pé…

Momentos mágicos, intemporais, que jamais esqueço.

Nenhuma criança esquece a sua infância. E eu, e os outros que como eu viveram ali aqueles momentos, aprendemos o que é a liberdade.

Quando for grande, quero voltar a ser criança!

Sílvia Queirós Sanches   

Pintura a pastel seco sobre papel aguarela - 2001 - pintado por mim - de uma foto da minha infancia

quinta-feira, 23 de março de 2017

O Sr Menino

(Homenagem ao meu avô — 23 de março de 2017)

“O menino é mau!”

Dizia o menino grande, com boquinha de mimo, sempre que fazia alguma asneira menos própria para a sua idade.

Homem a quem roubaram a infância, tendo de se “safar” desde que se deu como gente.

Menino que nunca deixou de sonhar e que até o dever levava a brincar.

Senhor de artes e ofícios, artimanhas e engenhocas, capaz de idealizar e construir os mais variados engenhos.

Brinquedos que nunca teve em menino tornou reais em adulto e, a brincar, fez deles o seu negócio — e voou.

Foi feliz fazendo felizes outros meninos… e as mães dos meninos… e as avós… as tias… as primas…

Desbocado galhofeiro, capaz de transformar o mais horrendo palavrão num elogio carinhoso, cantarolava e assobiava qual canário, qual “Rouxinol Faduncho” que, ao jeito de “José Lito”, cantava “Lá Piconera”, acompanhado da sua castanhola improvisada com a prótese — que passava mais tempo nas mãos do que na própria boca.

O melhor da vida era uma mesa farta rodeada de família e amigos.

“Comam, bebam!”

Palavra de ordem daquela autoridade, condecorado com as belas medalhas das guerras comensais e com o seu velho boné de marinheiro “engatatão”.

Com o seu ar de rezingão lá ia comandando as tropas com os seus gritos de guerra.

“É-mi-si-mi-não-mi” — soava ao ronronar do gatinho que se tenta acalmar.

“Ão Ão Ão” — cachorrinho a pedir festinhas…

Encantador, de espírito livre, alma grande em invólucro pequeno…

“Homem pequeno ou velhaco ou dançarino”… também gostava de dançar!

“Queirosito”. Sr. Menino. Sr. Queirós, o fotógrafo.

Homem das redes macaenses, para as portas e contra o mau-olhado.

Ladino, lutador, de garra, projetos e sonhos — tantos que nem todos realizou.

O corpo não deixou.

A vida fê-lo assim.

E assim o levou.


Sílvia Queirós Sanches – Ao meu avô – Março 2017





Procastinação

(23/03/2017)

Fazer promessas de Ano Novo e planos a curto prazo que serão adiados consecutivamente.

A procrastinação — a mania de adiar uma ação ou uma tarefa, de “deixar para amanhã”… e depois… e depois…

Faço amanhã!

A arte de ir empurrando com a barriga.

Deixar para amanhã o que posso fazer hoje, o que podia ter feito ontem.

O que posso fazer?

Nada.

Ou tudo?!...

Terei de mudar…

Sem procrastinar.


quinta-feira, 9 de março de 2017

Tendências

(Março de 2017)

A sociedade rege-se por tendências.

Somos seres sociais e são poucos os que conseguem manter ideias próprias o tempo todo.
Penso até que ninguém.

Há sempre um momento em que seguimos uma ou outra tendência, ditada por alguém influente ou nascida de um conjunto de situações que acabam por se transformar em moda dentro de determinado grupo.

Veja-se uma das comparações mais curiosas que ouvi nos últimos tempos:

“A homossexualidade é uma moda tal e qual como o sushi. Agora toda a gente quer experimentar: uns adoram, outros odeiam.”

Esta analogia fez algum sentido para mim.

Este discurso pode ser considerado tendencioso ou discriminatório, mas é apenas a minha forma de pensar.

Conheço alguns homossexuais que respeito e de quem sou amiga. No entanto, também observo uma tendência cada vez mais visível de alguns jovens assumirem posições apenas porque é moderno ou porque socialmente é mais aceite experimentar.

Vejo jovens casais de lésbicas, miúdas da escola do meu filho que não se assumem como tal, mas como bissexuais. Têm todo o direito de experimentar, claro, mas muitas vezes parece-me que ainda não sabem bem o que querem para assumir aquilo que quer que seja.

Da mesma forma que o sushi se tornou quase obrigatório num jantar entre amigos — nem que seja para provar uma vez na vida porque é moda — mesmo quem não gosta acaba por sentir a pressão de gostar.

Quase como se a tendência nos empurrasse para uma direção, apenas para não ficarmos de fora.

Perdoem-me os meus amigos e amigas homossexuais.
Perdoem-me também os que gostam de sushi, tal como eu.

Mas a verdade é que, por muito que rejeitemos ser comandados e por muito que defendamos ter ideias próprias, muitas vezes acabamos por não passar de meros carneiros a seguir o rebanho.






terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Responsabilidades

(fevereiro de 2017)

A vida é feita de apegos e desapegos, e há que fazer escolhas.

O que foi ontem não é hoje, e o que é hoje poderá não ser amanhã. Estamos em permanente mudança, e isso faz parte da evolução de cada um de nós.

Somos o que somos e, sem mudar a nossa essência, podemos mudar de gostos, vontades… faz parte do crescimento individual.

Fazemos parte de um todo, de uma sociedade com regras, dogmas e imposições várias. Mas nada nem ninguém poderá impedir outro alguém de tentar encontrar o seu próprio caminho.

Ainda que, aos olhos dos outros, esse caminho não seja o melhor, cabe ao próprio decidir isso.

Cada um é dono de si, e a responsabilidade das suas escolhas cabe-lhe a si mesmo. Ninguém se deve sentir responsável por ninguém.

A partir do momento em que os pássaros aprendem a voar e a procurar a sua própria comida, são postos fora do ninho e levados a construir o seu próprio abrigo — cada um por si.

Proteger as “crias” em exagero, dando-lhes de comer em vez de as ensinar a pescar, é, na minha opinião, um dos piores erros que a sociedade atual comete.

Cuidado e preocupação, sim. Carregar filhos crescidos, capazes de fazer meninos, não.

Somos responsáveis pelos filhos enquanto menores. Ainda assim, também eles têm a sua personalidade — e, se não a têm, estará na hora de a estimular.

O mesmo digo em relação à preocupação pelos mais próximos. Por vezes há a tendência de decidir pelos outros coisas que só eles podem decidir.

Ninguém é responsável por ninguém. Repito: cada um deve decidir por si e para si.

Nada de esperar nada de ninguém.

Vamos lá ser responsáveis.




Sílvia Q. Sanches 07 Fevereiro 2017

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

economia popular

(31/01/2017)

Só quando já se comprou casa é que se percebe que afinal não era bem aquilo que se queria.

Que se excederam todos os limites e que não se comprou o que realmente se necessitava, mas sim algo para mostrar aos demais que se conseguiu lá chegar.

Mas nada disso faz sentido.

É como comprar um carro e não ter dinheiro para o sustentar.

É como comprar uma Bimby e dizer às amigas que se tem aquele maravilhoso robot de cozinha, mas não tirar verdadeiro partido dele. Deixá-lo apenas a decorar a bancada, só porque é um aparelho de design bonito. Fica bem.

Tal como vestir roupa de uma daquelas marcas cujas peças custam quase um mês de trabalho, apenas para mostrar que se veste bem.

Tudo para mostrar.

Mostrar que se tem. Mostrar que se pode. Mostrar que se chegou lá.

Mas, no fim de contas, a quem interessa isso?

A vida não se mede pelo que se mostra, mas pelo que realmente se vive.

Talvez a verdadeira economia popular seja simplesmente saber viver com aquilo que realmente precisamos. Nem mais, nem menos.

Ter o suficiente para viver com dignidade, sem precisar de provar nada a ninguém.

Porque no fundo, quem vive para mostrar acaba por viver sempre em dívida — aos outros e a si próprio.

E essa é uma dívida que nunca se paga.

Liberdade – o que significa?


Li algures que os ingleses usam um termo curioso para medir a liberdade de cada um:

“Fuckability”.

Ou seja:

Quem se sentir com liberdade suficiente para mandar muitas pessoas “para a outra banda”, de uma forma inteligente, é porque é livre.

(Falavam de patrões, vizinhos, família, etc.)

Portanto, quanto mais “fuckability”, mais livre se é…

E os portugueses, terão uma fuckability quase nula?

Será?

O que pensar disto?

Seremos livres?

domingo, 30 de outubro de 2016

Olha a bola, Manel...

(Outubro de 2016)

Das minhas memórias de infância vem-me à ideia a Vila Marecos.

Casas contíguas, lembrando um western. Uma época diferente, parada no tempo.

Um autêntico cenário de filmes de cowboys, como os que se assistiam todas as tardes de domingo na casa de jantar da tia-avó Maria.

Os miúdos daquele “gueto” reuniam-se em volta da velha mesa com braseiro e cadeiras de madeira que rangiam a cada movimento.

A televisão a preto e branco, com um filtro de cor verde, era um autêntico altar pendurado num canto da sala de paredes caiadas e portas grosseiras pintadas de verde-água.

Não faltava um quadro do Menino da Lágrima e outro de um velho que durante muito tempo julguei ser o retrato do tio Vítor — marido da tia Maria — conhecido pelo “Vítor Malandro”.

Qual sala de cinema, qual saloon do velho oeste… aquele era o momento solene.

A hora de culto para aqueles rapazes com ar de quem tinha saído da série “Uma Casa na Pradaria”, ou qual Tom Sawyer saído das margens do Mississippi.

Olhos vivos, sorrisos rasgados, rostos sujos de suor e poeira.

Alguns diferentes, ruivos e sardentos, ao jeito da Pipi das Meias Altas. Todos com ar maroto.

Deliciavam-se com copos cheios de gasosa e pão-de-ló feito em forma de fogão, receita da tia-prima Fernanda — a solteirona, tão ruiva quanto eles.

O jogo de futebol antes do filme já tinha queimado a galinha caseira com arroz de cabidela que tinham almoçado.

Corriam atrás da bola: tropeções, rasteiras, pontapés… e quando algum pontapeava a bola que saltava para a estrada, lá ia o mais velho a correr buscá-la.

Manel, o mais velho dos netos da tia Maria — rapaz feito, quase homem, já trabalhava — mas menino na hora da confraternização da rapaziada.

“Olha a bola, Manel!”

Som de fundo que me soava ao ouvido.

Eu, a única menina no meio daquela “pandilha”, a prima afastada que estava de visita, era vista como a boneca de porcelana — impedida de jogar por ser menina.

Entretinha-me a equilibrar sobre o muro que separava “o estádio” da estrada, cantando baixinho a música de fundo daquela cena.

Aplaudia a cada grito de:

“GOLO!!!”

que os rapazes entusiasticamente festejavam.

Se fosse hoje, cantaria Carlos do Carmo, pois pareciam mais um bando de pardais à solta.

As visitas a Santarém eram emocionantes — autênticas viagens no tempo.

Mas talvez seja daí que venha a minha antipatia pelo futebol!


  



quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Do querer ao poder...



(2016)

Quero tudo e nada.

Não vivo o que pedi…
Vivo o que tem sido possível.
O que pediram por mim.

Quero viver,
quero ser,
quero ter…

Mas quero apenas o que pedi,
não o que me querem dar.

Ingrata?

Talvez…

Só quero ser eu.

Posso?

Sílvia Q. Sanches

terça-feira, 26 de julho de 2016

Descendo o rio...

  



 (Julho de 2016)

A vida é como a descida de um rio desde a sua nascente.

Eu já atravessei os rápidos cheios de pedras e perigos. Ainda estou numa zona onde a força da água me arrasta, mas sei que em breve a corrente acalma e poderei apreciar tudo o que me rodeia, remando ao meu ritmo, com toda a suavidade.

Ainda me aguarda uma corrente forte, talvez uns pequenos rápidos ou mesmo uma pequena cascata.

Mas estou confiante de que conseguirei equilibrar a minha pequena canoa, descer este meu rio até à foz e entrar no mar.

Sílvia Q. Sanches