A paisagem também muda quando mudamos o olhar
Há textos que escrevemos quase em tom de brincadeira e que, anos mais tarde, acabam por nos devolver um sorriso irónico.
Há muitos anos escrevi neste blogue um pequeno texto sobre campos de golfe. Na altura parecia-me um luxo desnecessário: extensões de relva impecavelmente cortada a perder de vista, num país que tantas vezes se queixa da falta de terra cultivada e de crise na agricultura.
Cheguei mesmo a brincar que, ao ritmo a que as coisas iam, qualquer dia ainda teríamos de comer a relva dos campos de golfe… bem picadinha num caldo verde.
O tempo passou.
E, curiosamente, hoje trabalho num campo de golfe.
A vida tem destas ironias.
Quando escrevi aquele texto via o golfe sobretudo como símbolo de um turismo elitista, algo distante da realidade da maioria das pessoas. Via-o como um capricho para poucos.
Hoje percebo que a realidade é mais complexa.
O turismo de golfe tornou-se, ao longo das últimas décadas, um dos motores económicos do país. Durante muito tempo falava-se sobretudo do Algarve como destino de eleição, mas hoje o fenómeno espalhou-se por outras regiões.
A região Oeste, onde vivo, é um bom exemplo dessa mudança.
Muitos estrangeiros já não vêm apenas passar férias. Vêm passar temporadas longas e, muitas vezes, acabam por ficar. Compram casas, estabelecem-se, trazem novas línguas, novos hábitos e outras formas de olhar para o território.
O turismo transforma os lugares.
Traz investimento, trabalho e dinamismo económico. Mas traz também novos desafios: o aumento do valor das propriedades, a pressão sobre a habitação e a transformação das comunidades locais.
Nada é totalmente simples.
Talvez seja isso que o tempo nos ensina: as ideias também evoluem. Aquilo que um dia criticamos pode, mais tarde, revelar outros lados que antes não víamos.
Não deixei de gostar de campos cultivados nem de pensar na importância da agricultura. Mas hoje consigo ver que um campo de golfe também faz parte de uma realidade maior — uma rede de atividades que liga turismo, economia, território e pessoas.
Curiosamente, esta reflexão leva-me também a recordar Ferrel, onde há quase cinquenta anos a população saiu à rua para impedir a construção de uma central nuclear. Foi um momento marcante de mobilização social e um dos primeiros grandes episódios do movimento ambientalista em Portugal.
As sociedades mudam, os territórios transformam-se, as prioridades evoluem.
Entre protestos, projetos, turismo e novas formas de viver os lugares, vamos todos fazendo parte dessa transformação, quer queiramos quer não.
Continuo a preferir caminhos de terra aos relvados demasiado perfeitos.
Mas aprendi a reconhecer que, tal como na vida, também na sociedade raramente existem respostas simples.
Hoje, da janela onde me sento a olhar o mundo, vejo um campo de golfe.
A vida tem destas ironias.
Nota final
Em setembro de 2009 escrevi neste blogue um pequeno texto irónico sobre os campos de golfe, imaginando até que um dia acabaríamos a comer a relva bem picadinha num caldo verde.
Curiosamente, anos depois vim a trabalhar precisamente num campo de golfe.
A vida tem destas voltas.
O texto original pode ser lido aqui: “Golfe & caldo verde” (2009).

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