Escrever é a minha forma de voltar a casa. E a minha casa é aqui, de pés na areia.
Caminho na praia como quem procura qualquer coisa sem nome. Sempre fui uma caçadora de conchas. Há neste gesto algo de instintivo, antigo: baixar-me, escolher, virar na mão aquilo que o mar decidiu devolver.
Gosto particularmente dos búzios. Guardam ecos, como se ainda transportassem dentro de si a respiração do oceano. Apanho-os sem pensar, como quem recolhe fragmentos de histórias.
Sempre recolhi.
Conchas são restos de vida. Casas que já foram habitadas. Estruturas que cumpriram o seu tempo e que o mar devolve, polidas, transformadas. Não são o que foram — mas não deixaram de ter valor.
Talvez por isso me identifique tanto com elas.
Durante muito tempo pensei que recolhia apenas cascas vazias. Que insistia em guardar o que já tinha terminado. Que habitava búzios onde a vida já tinha partido.
Tal como a anémona que troca de abrigo para continuar a crescer, também nós habitamos lugares provisórios. Habitar e partir não é fracasso — é movimento.
Hoje, porém, entre a areia e as algas, encontro menos conchas e mais plástico. Pequenos sinais da presença humana espalhados como uma nova espécie invasora. Penso que talvez fosse mais útil apanhar tampinhas em vez de conchas. Talvez o verdadeiro cuidado seja agora recolher aquilo que nunca deveria ter chegado ao mar.
E ainda assim continuo a apanhar conchas.
Pergunto-me se não será essa a verdadeira diferença: a concha é transformação natural; o plástico é permanência sem evolução.
Talvez a vida seja isso mesmo — aprender a distinguir o que é memória viva do que é peso inútil.
Penso na paz da praia, na sorte de poder caminhar sem medo, enquanto há mundos em guerra, planos suspensos, vidas interrompidas. A tranquilidade não é culpa. É responsabilidade.
Entre conchas e plástico, entre silêncio e ruído, compreendo que a praia é espelho. Mostra o que já foi e o que ainda pode ser.
Continuo a apanhar conchas.
Mas já não as recolho por carência.
Recolho-as por reconhecimento.
Porque cada casca polida pelo mar lembra-me que também eu fui sendo transformada pelas marés da vida.
Hoje trouxe poucas conchas comigo.
Mas trouxe algo mais importante:
a certeza de que já não preciso de habitar búzios vazios para me sentir inteira.
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