No meu culto dominical, depois de percorrer a praia, detenho-me no Caminho dos Remédios.
Os cruzeiros surgem marcados com faixas roxas que o vento move devagar. Penso que assinalam a Via-Sacra. Estamos na Quaresma — esse tempo suspenso entre o excesso do Carnaval e a promessa da Páscoa.
As flores também se vestem de roxo.
É a cor da época.
O roxo impõe silêncio.
Assinala a vigília da Páscoa.
Penso na Via-Sacra como a caminhada de Cristo com a cruz às costas, as várias paragens antes da morte. Um percurso feito de cansaço, quedas e continuidade — continuar apesar de tudo. Conheço pouco da religião católica, mas reconheço este símbolo: caminhar carregando aquilo que pesa.
E, enquanto caminho, ocorre-me a ideia de que Cristo fez a sua Via-Sacra num lugar seco, de pedra e poeira. Num quase deserto.
Pergunto-me como teria sido se esse caminho tivesse acontecido junto ao mar — com o som constante das ondas, o sal no ar, as gaivotas atravessando o céu. Talvez a morte parecesse menos dura. Talvez o sofrimento encontrasse algum consolo na imensidão da água.
Nenhuma morte é bonita.
Mas o mar tem essa capacidade de suavizar tudo o que toca.
Penso também que alguém tão ligado a pescadores acabou por morrer longe do mar. Há nisso uma espécie de desencontro final, como se o último caminho tivesse sido feito afastando-se daquilo que respira vida.
E as gaivotas.
Ao longo do caminho estão ali, pousadas, imóveis, atentas. Não fogem, não se perturbam com a passagem das pessoas. Parecem ocupar o trilho como sentinelas silenciosas, marcando o lugar.
Talvez estejam à espera de ver Jesus Cristo passar outra vez. Como se reconhecessem o caminho. Como se aguardassem uma repetição antiga, um regresso improvável.
Saio do Caminho dos Remédios. Já não sigo as cruzes. No Santuário dos Remédios acendo uma vela. Peço paz no mundo, luz para todos.
Não sou religiosa, mas tenho a minha fé — uma fé tranquila, sem grandes rituais, mais feita de intenção do que de regras.
De regresso a casa.
Sinto-me preparada para o resto da semana.
Quando o faço, é como um reforço silencioso — um renovar de energia, um alinhamento interior antes dos dias que vêm.
Um pequeno ritual meu.

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