O dia em que um povo escolheu o mar
Hoje trabalho para um resort de golfe.
Mas houve um tempo em que este lugar estava destinado a ser uma central nuclear.
Dia 15 de março assinala-se em Ferrel uma data importante.
Foi neste dia, em 1976, que a população saiu à rua para protestar contra a construção de uma central nuclear.
Passaram cinquenta anos.
Hoje esse episódio é lembrado como um dos primeiros grandes momentos do movimento ambientalista em Portugal — um tempo em que, poucos anos depois da Revolução dos Cravos, a sociedade começava a descobrir a força da participação cívica.
Eu tinha apenas quatro anos.
Na memória guardo apenas lembranças pouco nítidas do que se vivia na época. Lembro-me de ver os adultos a protestar. Lembro-me da preocupação dos mais velhos e da energia reivindicativa dos mais novos. A liberdade ainda era recente e muitos sentiam que era preciso defendê-la todos os dias.
Os meus pais estavam entre aqueles que lutavam contra tudo o que pudesse fazer lembrar o regresso à ditadura ou ao fascismo.
Naquele tempo ouviam-se as músicas de intervenção. Canções que davam voz às inquietações de uma geração.
Numa delas, Lena D’Água dizia, quase como numa canção de embalar inquieta:
Ó papão mau, vai-te embora…
deixa dormir o menino…
E depois vinha o aviso:
No olhar de uma criança
vê-se a luz do mundo.
Não lhe vamos deixar como herança
um planeta moribundo.
O refrão repetia-se nas manifestações e nas conversas:
“Nuclear não, obrigado.
Antes ser activo hoje
do que radioactivo amanhã.”
Nesse dia, a população não se limitou a protestar. Muitos deslocaram-se até ao próprio terreno onde a central nuclear iria nascer. Agricultores chegaram com os seus tratores, famílias inteiras ocuparam o espaço. À população local juntaram-se artistas, professores, pescadores, ambientalistas e políticos.
Era uma forma simples e poderosa de dizer que aquela terra lhes pertencia — e que o futuro dela também.
A democracia tinha pouco mais de um ano e meio. Depois de décadas de silêncio imposto pelo Estado Novo, sair à rua para defender o território era também uma forma de aprender a viver em liberdade.
Na altura talvez ninguém imaginasse exatamente como seria o futuro.
Mas hoje, olhando para trás, é impossível não pensar no impacto daquela decisão.
Se a central nuclear tivesse sido construída, este território seria certamente muito diferente.
Talvez não tivéssemos as praias que hoje temos.
Peniche talvez não fosse o destino de surf que se tornou.
Ferrel não teria crescido como cresceu — ainda que de forma algo desordenada, talvez à imagem da revolta de um povo pouco conformado.
Entretanto, a agricultura intensificou-se na região. A população sempre viveu muito ligada à terra, mas começaram a surgir novas formas de cultivo. Um exemplo foi o desenvolvimento da cultura da cenoura com sistemas de rega gota-a-gota — algo inovador para a época e que transformou a paisagem agrícola da zona.
E os campos de golfe da região que, provavelmente também não existiriam.
A central nuclear nunca nasceu.
No seu lugar nasceram outras formas de desenvolvimento: agricultura modernizada, turismo, resorts, surf, uma nova relação com o mar e com a paisagem.
O território seguiu outro caminho.
Talvez o capitalismo, tão contestado na época, tenha acabado por se transformar e procurar formas menos agressivas de ocupação do território.
Curiosamente, hoje trabalho num campo de golfe construído perto do lugar onde um dia se pensou erguer uma central nuclear.
E penso que, sem aquelas pessoas que saíram à rua em 1976, talvez tudo isto fosse diferente.
Há momentos em que a história muda de direção.
E consigo imaginar o contraste.
Onde poderia existir o símbolo do nuclear,
há hoje pranchas no mar.
Onde poderia existir uma central,
há pessoas a caminhar junto ao mar.
Onde tudo poderia ser grey,
existe agora um green.
Talvez seja essa a imagem mais bonita que ficou daquele dia:
um território que escolheu o mar.
E assim, mesmo sendo uma pequena aldeia junto ao Atlântico, Ferrel acabou ligada a um movimento global — o de pessoas que decidiram defender o lugar onde vivem
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