Evolução? — dez anos depois
Dez anos passaram.
E aquilo que, na altura, me parecia exagero… afinal era só o início.
Hoje já não vivemos apenas numa montra.
Vivemos dentro dela.
A vida expõe-se em tempo real.
Filtra-se, edita-se, publica-se.
Sente-se… ou parece que se sente.
O amor também.
Mais rápido, mais imediato, mais descartável.
Mais falado do que vivido.
Aprendemos a sair das relações com a mesma facilidade com que entramos.
Bloqueia-se, apaga-se, silencia-se… segue-se.
Como se as pessoas fossem ficheiros.
E, no entanto, continuamos a procurar o mesmo de sempre:
afeto, presença, verdade.
Talvez o problema nunca tenha sido a evolução.
Mas a pressa.
Queremos tudo — e queremos já.
Sem tempo para conhecer, para construir, para falhar, para ficar.
Confundimos liberdade com ausência de compromisso.
Desapego com indiferença.
Amor-próprio com ego inflado.
E, no meio disso tudo, perdemos alguma coisa.
Ou talvez não.
Talvez estejamos apenas a aprender de outra forma.
A errar de outra maneira.
A amar… com menos romantismo e mais defesa.
Os poemas continuam a existir.
Só mudaram de lugar.
Já não se escrevem em papel — escrevem-se em mensagens que se apagam, em conversas que desaparecem, em silêncios que dizem mais do que muitas palavras.
E mesmo assim…
Continuamos a procurar a primavera.
Mas talvez, com o tempo, se aprenda isto:
Que nenhuma estação dura para sempre.
E que é no inverno que muitas vezes se aprende a ficar.
A fruta continua a nascer.
Umas vezes ao natural, outras em estufa.
Mas cabe a cada um escolher o que quer realmente saborear.
A evolução não está no mundo.
Está na forma como escolhemos viver dentro dele.
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