segunda-feira, 30 de março de 2026

Evolução? — dez anos depois

 

Evolução? — dez anos depois


Dez anos passaram.

E aquilo que, na altura, me parecia exagero… afinal era só o início.

Hoje já não vivemos apenas numa montra.
Vivemos dentro dela.

A vida expõe-se em tempo real.
Filtra-se, edita-se, publica-se.
Sente-se… ou parece que se sente.

O amor também.

Mais rápido, mais imediato, mais descartável.
Mais falado do que vivido.

Aprendemos a sair das relações com a mesma facilidade com que entramos.
Bloqueia-se, apaga-se, silencia-se… segue-se.

Como se as pessoas fossem ficheiros.

E, no entanto, continuamos a procurar o mesmo de sempre:
afeto, presença, verdade.

Talvez o problema nunca tenha sido a evolução.
Mas a pressa.

Queremos tudo — e queremos já.
Sem tempo para conhecer, para construir, para falhar, para ficar.

Confundimos liberdade com ausência de compromisso.
Desapego com indiferença.
Amor-próprio com ego inflado.

E, no meio disso tudo, perdemos alguma coisa.

Ou talvez não.

Talvez estejamos apenas a aprender de outra forma.
A errar de outra maneira.
A amar… com menos romantismo e mais defesa.

Os poemas continuam a existir.
Só mudaram de lugar.

Já não se escrevem em papel — escrevem-se em mensagens que se apagam, em conversas que desaparecem, em silêncios que dizem mais do que muitas palavras.

E mesmo assim…

Continuamos a procurar a primavera.

Mas talvez, com o tempo, se aprenda isto:

Que nenhuma estação dura para sempre.
E que é no inverno que muitas vezes se aprende a ficar.

A fruta continua a nascer.

Umas vezes ao natural, outras em estufa.
Mas cabe a cada um escolher o que quer realmente saborear.

A evolução não está no mundo.

Está na forma como escolhemos viver dentro dele.

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