A liberdade não se construiu no 25 de Abril de 1974.
A liberdade constrói-se — e rega-se — todos os dias.
Cresci nos primeiros anos da liberdade, sem perceber verdadeiramente o que isso significava. Para mim, o 25 de Abril era um dia diferente — feito de gestos, de sorrisos, de abraços que diziam mais do que palavras. Era o dia em que a emoção se sentia no ar, mesmo sem a compreender. O dia que se cantava Zeca Afonso como um hino.
Com o tempo, percebi que a liberdade não é um dado adquirido. É um trabalho contínuo — interior e coletivo. Exige consciência, cuidado e limite.
Porque a minha liberdade termina onde começa a do outro.
Mas isso não é apenas um limite — é um compromisso.
Não basta não invadir.
É preciso não crescer à custa de quem fica para trás.
E nem sempre é simples.
Há tentativas de clareza que se perdem em silêncio.
Há respeito — mas também há cansaço.
E, às vezes, há pressa.
Nem sempre sabemos sair sem ferir.
Nem sempre percebemos, no momento, o peso dos nossos passos nos outros.
Mas crescer também é isto:
olhar para trás, não para ficar —
mas para compreender.
A liberdade coletiva nasce desta consciência individual.
É um trabalho interior que se reflete no mundo.
Como num organismo vivo, aquilo que fazemos multiplica-se:
o cuidado gera cuidado,
a indiferença alastra,
a violência também.
Crescemos uns a partir dos outros.
E é nesse crescimento que se decide tudo:
ou construímos espaço para viver —
ou abrimos caminho para destruir.
Há quem fale de liberdade como se fosse absoluta.
Mas que liberdade é essa
que cresce sobre o silêncio dos outros?
Que se impõe pela força, que ocupa, que destrói?
Talvez não seja liberdade.
Talvez seja apenas poder com outro nome.
A ideia de semear cravos no deserto pode parecer ingénua.
Mas nasce de um gesto real.
Houve um dia em que se colocaram flores no cano das espingardas —
e, por um instante, a lógica da repressao foi interrompida.
Não porque o mundo fosse simples,
mas porque alguém ousou contrariá-lo.
E se, em vez de balas, disparássemos flores?
Em vez de mísseis, sementes?
Em vez de drones, gestos?
Não para negar a dureza do mundo,
mas para lembrar que há sempre outra possibilidade.
Também a arte é uma forma de liberdade.
Uma forma de dizer, de questionar, de unir.
Tal como os livros — que não mudam o mundo,
mas mudam as pessoas que o podem transformar,
como escreveu Mário Quintana.
E é nesse movimento que tudo começa.
Este ano, um cravo gigante será erguido no Museu Nacional Resistência e Liberdade.
Construído por mãos de outra terra, viajará até Peniche como símbolo de união.
Um gesto coletivo.
Uma obra feita de muitos.
Uma lembrança viva de que a liberdade nunca é solitária.
Há também outra forma de pensar a liberdade —
aquela que se exerce dentro das instituições.
O direito à greve é uma conquista.
Mas quando a justiça pára, quando a saúde atrasa, quando a educação falha,
não se levanta também outra questão?
Que liberdade é esta
que, ao ser exercida, deixa outros à espera?
Talvez não seja uma contradição —
mas um equilíbrio difícil.
Porque a liberdade não vive sozinha.
Depende de sistemas que funcionem,
de estruturas que respondam,
de um compromisso coletivo que não se adie.
E 52 anos depois de Abril,
a questão não é apenas se somos livres —
mas se sabemos o que fazer com essa liberdade.
Por isso, a liberdade não se guarda.
Semeia-se.
Cuida-se.
Rega-se.
Todos os dias.

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