quarta-feira, 25 de março de 2026

Politiquices — antes e depois

Revendo um texto antigo de 2009

Há quase vinte anos atrás, tive uma acesa discussão com um amigo, via SMS, por causa da política.

Ele acusava o Sócrates e toda a classe política por todas as nossas desgraças, mas eu discordei.

Entrámos então num autêntico debate político.

Ele dizia que, por causa do Sócrates, o país estava como estava.
Eu, sem querer defendê-lo, respondia que o problema não era de agora — que vinha de trás.

Depois vieram outros nomes, outras acusações, outros “culpados”.
E eu mantinha a mesma ideia:

O problema maior não está apenas nos políticos.
Está em nós.

No povinho tuga.

Sabemos criticar, sabemos apontar o dedo, sabemos lamentar…
mas arregaçar as mangas e fazer diferente — isso já custa mais.

Estamos sempre à espera de subsídios, de ajudas, de soluções vindas de fora…
mas mudar por dentro — pouco.

E, no entanto, fomos nós que elegemos quem lá está.

Queríamos gente melhor?

Então talvez devêssemos começar por ser melhores também.

Os nossos pais lutaram por uma liberdade que nos foi entregue como herança.
E nós… muitas vezes, não soubemos o que fazer com ela.

Eu incluída.

Durante muito tempo entrei no mesmo jogo:
falar, criticar… e pouco agir.

Mas uma coisa fiz — e continuo a fazer:

Votei.

Não sei se sempre bem.
Mas votei.


Quase vinte anos passaram.

Hoje olho para essa conversa com outros olhos.

O tempo confirmou algumas coisas — e desmontou outras. O caso do ex-ministro Sócrates arrasta-se há anos na justiça, num processo que parece não ter fim à vista. Entre acusações, defesas e adiamentos, fica a sensação de um país suspenso, à espera de respostas.

Mas, mais do que isso, ficou clara uma coisa:

O problema nunca foi só um nome.

Continuei a votar.
Nem sempre com certezas — mas com consciência.

Fui tentando ser mais participativa, mais atenta, menos reativa.
A idade também ajuda.
Traz distância… mas também responsabilidade.

Percebi que criticar é fácil.
Fazer melhor… nem sempre.

Os amigos mudaram.

Uns afastaram-se, outros aproximaram-se.
A vida tratou de filtrar.

Ficaram menos — mas ficaram melhor.

O mundo, esse, tornou-se ainda mais virtual.

Hoje até se estuda à distância.
Vivem-se relações à distância.
Discutem-se ideias à distância.

E, muitas vezes, também se julga à distância.

Avançámos muito.

Para o bem — e para o mal.

Mas há coisas que continuam iguais:

Fala-se muito.
Faz-se pouco.

A facilidade de criticar mantém-se.
A dificuldade de fazer diferente — também.

E, no meio disto tudo, continuo a acreditar no mesmo:

A mudança começa em cada um.

Devagar.
Imperfeita.
Mas real.

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