Hoje, 5 de outubro, feriado, fui cumprir o meu propósito.
Fui caminhar cedo.
Está um dia de verão. Talvez mais um daqueles dias bonitos de outubro, talvez mais quente do que seria habitual nesta época. Está bom, pronto.
Fui acompanhada. Ele nunca faz caminhadas, mas hoje lá foi, talvez a contrariar a própria vontade.
Fizemos um percurso menos turístico. Fomos e voltámos pelas fazendas, por aquele labirinto de muros de pedra que delimitam os pequenos talhões de terra temperada pela maresia.
Fomos até aos Remédios, mas o santuário estava fechado. Queria acender uma vela, mas ficou só a intenção.
Tenho andado com a cabeça cheia.
Informação, responsabilidades, trabalho, casa, estudos, pessoas, coisas por fazer, coisas que ficaram por fazer.
Preciso de espaço no meu disco rígido para estudar.
Já estou como o meu telemóvel: preciso de apagar informação inútil para conseguir ter melhor desempenho.
Caminhando, o corpo ocupa-se e, por momentos, a cabeça deixa de tentar resolver tudo.
Hoje encontrei um burro.
Fiquei a olhar para ele.
Pensei no lugar que estes animais tiveram durante séculos na nossa vida rural. Eram animais de trabalho, de carga, de transporte.
Deixaram de ser animais de trabalho como outrora, mas também são demasiado grandes para serem propriamente animais domésticos. E os que são mantidos dessa forma, curiosamente, estão presos atrás de uma rede, como este.
Pensei na liberdade.
E na utilidade.
Achamos que somos livres quando podemos fazer o que queremos, mas muitas vezes passamos a vida inteira presos àquilo que esperam de nós.
Trabalhar.
Produzir.
Resolver.
Cuidar.
Estudar.
Cumprir.
E temos dificuldade em aceitar que podemos simplesmente existir sem estar constantemente a provar a nossa utilidade.
Continuei a caminhar.
Mais à frente, o mar, a ilha, o horizonte...
As plantas rasteiras, as pequenas flores, os tons que só reparamos quando abrandamos.
E percebi que aquilo que procuro nestas caminhadas são chamamentos.
Como Camões, quando invoca as suas Tágides no início de Os Lusíadas, também eu preciso, às vezes, de qualquer coisa que me devolva a inspiração.
Não estou à procura das Tágides do Tejo.
As minhas aparecem atrás de uma rede, num muro de pedra, nas cores da vegetação ou no brilho do mar.
São pequenos sinais que me fazem parar.
Porque o foco não se encontra sentada diante do computador.
É preciso sair primeiro.
Respirar.
Cansar o corpo.
Deixar a cabeça esvaziar-se um pouco.
E só depois voltar.
Por vezes, para conseguirmos concentrar-nos naquilo que importa, precisamos primeiro de criar espaço para o Tetris do dia a dia.
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