Costuma dizer-se que, quando alguém morre, era uma boa pessoa.
Curiosamente, enquanto estamos vivos, chamam-nos tudo menos boas pessoas!
Podemos ser bons uns para os outros. Podemos achar que somos bons uns para os outros. Podemos fazer alguma coisa com toda a dedicação, com a melhor das intenções e com aquilo que, naquele momento, sabemos e conseguimos fazer.
E, ainda assim, aos olhos de quem recebe os nossos atos, podemos não ter sido bons.
Porque aquilo que fazemos e aquilo que o outro sente que fizemos nem sempre são a mesma coisa.
Eu posso achar que estou a fazer bem a alguém e essa pessoa sentir que lhe estou a fazer mal. E pode acontecer exatamente o contrário: alguém pode acreditar que está a fazer o melhor por mim e eu interpretar os seus gestos de outra maneira.
Não estamos dentro uns dos outros.
Não sabemos exatamente como o outro vê o mundo. Não conhecemos todas as suas experiências, todas as suas feridas, todos os seus medos, todas as suas expectativas...
Cada um tem a sua bagagem, a sua vida.
E a imperfeição nasce disso mesmo.
Somos imperfeitos não apenas porque erramos, mas porque nem sequer conseguimos garantir que aquilo que fazemos será recebido pelo outro da maneira que imaginámos.
Eu não me considero uma pessoa perfeita.
Já errei muitas vezes.
Erros que reconheço como meus. Outros que só percebi muito mais tarde.
Magoei pessoas.
Se fiz mal? Muito provavelmente, sim.
Se deveria pedir desculpa? Provavelmente também.
Mas, na maioria das vezes, acredito que fiz o melhor que sabia fazer naquele momento.
No entanto, as pessoas que eventualmente magoei também podem ter tentado fazer o melhor por mim. Também podem ter acreditado que estavam a agir corretamente. E, ainda assim, do meu ponto de vista, fizeram coisas que me magoaram.
Será que estavam erradas?
Talvez.
Ou talvez eu simplesmente não tenha conseguido interpretar os seus atos da maneira como elas os quiseram transmitir.
Tal como elas podem não ter conseguido interpretar os meus.
Então, se eu lhes devo um pedido de desculpas, talvez elas também me devam um.
Estamos quites, assim!
Não porque os erros se anulem uns aos outros, mas porque somos todos humanos.
Todos devemos desculpas a alguém.
Todos temos alguém a quem deveríamos ter tratado melhor. Todos temos alguém que, provavelmente, também sentimos que deveria ter-nos tratado melhor.
Pedir desculpas é difícil!
Costuma dizer-se que as desculpas não se pedem: evitam-se.
Mas nós nem sempre conseguimos evitá-las.
Não porque sejamos propriamente maus, mas porque somos imperfeitos.
Vivemos, relacionamo-nos, fazemos escolhas, interpretamos, somos interpretados. E, pelo caminho, vamos inevitavelmente chocando uns com os outros.
A vida é mesmo isto: um constante ajuste, da mesma forma que a natureza.
Não existe uma natureza perfeitamente organizada, imóvel, sem conflito ou sem mudança. Existe adaptação. Existem condições diferentes, ambientes diferentes, respostas diferentes.
Cada coisa procura sobreviver e adaptar-se às circunstâncias.
Nós também.
Somos natureza, apesar de tantas vezes querermos colocar-nos fora dela.
Queremos corrigir, controlar, aperfeiçoar. Queremos construir um mundo à nossa medida. Queremos transformar aquilo que nos deu vida.
Essa vontade de perfeição é a maior das ilusões.
Porque a perfeição não existe.
Existem pessoas a tentar.
Pessoas que acertam e pessoas que erram. Pessoas que amam bem e outras vezes amam mal. Pessoas que cuidam e, outras vezes, ferem. Pessoas que pedem desculpa e pessoas que não conseguem fazê-lo.
E temos de aprender a viver com isso.
Não desculpar tudo.
Não aceitar tudo.
Não apagar aquilo que nos fizeram ou fingir que não magoámos ninguém.
Apenas reconhecer que somos todos seres imperfeitos, a tentar viver uns com os outros com as ferramentas que temos.
Por isso, talvez um dia, quando eu morrer, alguém diga:
— Era uma boa pessoa.
E eu aceito.
Não porque tenha sido.
Mas porque, finalmente, talvez já não importe tanto saber se fui.
Enquanto estou viva, continuarei a errar, a aprender, a magoar e a ser magoada, a pedir desculpa e talvez a esperar algumas desculpas.
Continuarei a tentar fazer o melhor que sei.
E, quando morrer, serei boa pessoa.
Como quase todos nós.
Sem comentários:
Enviar um comentário