sexta-feira, 10 de junho de 2016

A marmelada

Sabores de infância


A chegada da primavera transporta-me à minha infância, à felicidade da simplicidade do dia-a-dia de uma criança, dos dias enormes em que, até os rebuçados tinham outro sabor, a marmelada … então nem se fala.

Vejo a minha avó a dar-me uma moeda de vinte e cinco tostões para eu ir buscar marmelada ao Sr. Madeira, mercearia e retrosaria gerida por pai e filhos solteirões muito aprumadinhos e atenciosos.

Todo aquele ambiente, o grande balcão, os armários de madeira com grandes portas de madeira até ao tecto, os frascos cheios de chupa-chupas, os chocolates Regina, na vitrina por detrás do balcão, a maquina registadora com tantos botões como rebuçados dentro dos frascos, o cheiro do colorau vendido a peso e colocado naqueles pacotinhos de papel parecidos com rissóis e aqueles homens, autênticos autómatos silenciosos no seu trabalho, formigas zelosas do seu dever, de bata castanha e postura aprumada.
Encosto-me ao topo do grande balcão de mármore aguardando a minha vez, observando a azáfama daqueles três.  Lá passa o Sr. Chico, embora mais alto o filho mais novo do merceeiro, piscando-me o olho como que a dizer que já me atende e a adivinhando ao que vou.

Chegada a minha vez, vendo-me olhar fixamente o tabuleiro castanho coberto de celofane, o Sr. Chico com a mesma delicadeza com que atende as Sras. mais velhas de sorriso ao canto da boca, nem precisa de perguntar o que desejo, limita-se a pegar naquele tabuleiro valiosíssimo e com uma espátula de madeira corta delicadamente um cubo daquela preciosidade embrulhando com todo o requinte em papel vegetal. Pesa-o na enorme balança colocando noutro embrulho de papel manteiga. Seus dedos mestres em embrulhos, executam-no tão rapidamente como um mágico faz desabrochar uma flor de trás da orelha de alguém.

Levo aquele cubinho celestial e chegando a casa da avó nem espero pela fatia do pão, trinco-o como se de um bolo se tratasse.

Huummm… ainda sinto aquele sabor…

O autentico gostinho dos sabores da infância que nunca mais se esquecem.


" Eu sou pequenina,
Não sei fazer nada
Sei ir à cozinha
Comer marmelada"

Sílvia. Q. Sanches 2010