Mostrar mensagens com a etiqueta histórias reais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta histórias reais. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 28 de março de 2017

Saudades de ser criança


Saudade de andar descalça e sentir cada pedrinha ou a areia da praia, umas vezes quente do sol, outras fria já ao anoitecer... tão bom! 
Sinto ainda o cheiro da areia e da maresia nas noites de nevoeiro. 
Saltava, descalça, de medão em medão como que a fugir da humidade fria da noite. 
Vigiada pela lua e pela luz do farol da Berlenga, apanhava conchinhas e atirava-as ao ar enquanto os adultos se entretinham em conversa e petiscada. 
Noites animadas, aquelas! 
Mais ainda quando as melgas, quase sempre, atraídas pela luzes das gambiarras, faziam também elas o seu petisco e eu nunca me escapava. Coçava as borbulhas até sangrar e cobria com areia para estancar, melhor cura não havia! Ficou-me entranhado na pele...
Que bem me sabia ir molhar os pés na escada escorregadia do cais. Agua fria, corrente forte, cheiro a iodo, ainda o sinto.
O sono chegava e a "birrinha" encaminhava-me à saia da avó ou ás pernas do avô. - "Anda cá menina!..." - uma mão afagava-me o cabelo áspero da areia e do sal,  e o casaco de malha da avó enrolava-se em mim até aos pés. 
Ainda de pele salgada do banho da tarde, um arrepio misto de frio e de prazer, agarrava a "Xana" por um braço, uma perna ou pelo pescoço e abraçava-a até adormecer umas vezes ao "colinho" da avó outras já na cama de lençóis de flanela pulvilhada de areia que eu levava agarrada à pele, qual croquete, qual fartura. Espoliação melhor melhor não tinha. 

Banhos intermináveis aqueles, até ficar bem salgada, engelhada e gelada com tantos pinotes, mergulhos e braçadas. Já ao sol de queixo a tremer, o doce da fartura quentinha e o leite achocolatado "Ucal" misturavam-se como salgado da boca, divino!...

Tardes perdidas a construir barraquinhas com panos e paus surripiados das barracas de praia, a fazer castelos na areia cada um maior e melhor decorado que o outro, a jogar à carica em longas pistas vincadas no areal, a lançar o papagaio ou pura e simplesmente a correr e a cantarolar de toalha enrolada na cabeça - "Na praia da Nazaré ninguém pode andar em pé..." 

Momentos mágicos, intemporais que jamais esqueço. Nenhuma criança esquece a sua infância e eu e os outros que como eu viveram ali aqueles momentos aprendemos o que é a liberdade. 

Quando for grande, quero voltar a ser criança!

Sílvia Queirós Sanches 
Texto 27 Março 2017
Pintura a pastel seco sobre papel aguarela - 2001 

quinta-feira, 23 de março de 2017

O Sr Menino

"O menino é mau!"

Dizia o menino grande, com boquinha de mimo, sempre que fazia alguma asneira menos própria para a sua idade.
Homem a quem roubaram a infância, tendo que se "safar" desde que se deu como gente.
Menino que nunca deixou de sonhar e que até o dever levava a brincar.
Senhor de artes e ofícios, artimanhas e engenhocas, capaz de idealizar e construir os mais variados engenhos. 
Brinquedos, que nunca teve em menino, tornou reais em adulto e a brincar fez deles o seu negócio, e voou. 
Foi feliz fazendo felizes outros meninos... e as mães dos meninos... e as avós... as tias... as primas…
Desbocado galhofeiro, capaz de transformar o mais horrendo palavrão num elogio carinhoso, cantarolava e assobiava qual canário, qual “Rouxinol Faduncho” que ao jeito de “José Lito”, cantava “Lá Piconera” acompanhado da sua castanhola improvisada com a prótese, que passava mais tempo nas mãos que na própria boca.
O melhor da vida era uma mesa farta rodeada de família e amigos: "Comam, bebam!" Palavra de ordem daquela autoridade, condecorado com as belas medalhas das guerras comensais, e o seu velho boné à marinheiro “engatatão”. Com o seu ar de rezingão, lá ia comandando as tropas com os seus gritos de guerra. “É-mi-si-mi-não-mi” soava ao ronronar do gatinho que se tenta acalmar e “Ão Ão Ão” cachorrinho a pedir festinhas… Encantador, de espírito livre, alma grande em envolcro pequeno… “Homem pequeno ou velhaco ou dançarino”… também gostava de dançar!... “Queirosito” Sr menino, Sr Queirós o fotografo, homem das “redes macaenses, para as portas e contra o mau olhado”. 
Ladino, lutador, de garra, projectos e sonhos, tantos que nem todos realizou, o corpo não deixou.
A vida fê-lo assim e assim o levou.

Sílvia Queirós Sanches – Ao meu avô – Março 2017





domingo, 30 de outubro de 2016

Olha a bola Manel...

Das minhas memórias de infância, vem-me à ideia a Vila Marecos.
Casas contiguas lembrando um western, uma época diferente, parado no tempo.
Um autentico cenário de um filme de cawboys  como os que se assistam todas as tardes de domingo, na casa de jantar da tia avó Maria. 
Os miúdos daquele gueto, reuniam-se em volta da velha mesa com braseiro e cadeiras de madeira que rangiam a cada movimento sobre elas. A televisão a preto e branco com um filtro de cor verde, um autentico altar, pendurado num canto da sala de paredes caiadas e portas grosseiras pintadas de verde água, onde não faltava um  quadro do menino da lágrima e outro de um  velho que por muito tempo julguei ser o retrato do tio Vitor, o marido da tia Maria, conhecido pelo "Vitor Malandro". 
Qual sala de cinema, qual "salon" do velho oeste, era o momento solene, a hora de culto, para aqueles rapazes com ar de quem tinha saído da série "Uma casa na Pradaria",  qual Tom Sawyer, saído das margens do Mississipi. Olhos vivos, sorrisos rasgados, rostos sujos do suor e poeira. Alguns diferentes, ruivos e com sardas, ao jeito da "Pipi das Meias Altas",todos com ar maroto, deliciavam-se com os copos cheios de gasosa e pão-de-ló feito na forma de fogão, receita da tia prima Fernanda, a solteirona, tão ruiva quanto eles. 
O jogo de futebol antes do filme já tinha queimado a galinha caseira com arroz de cabidela que tinham almoçado. 
Corriam atrás da bola, tropeções, rasteiras, pontapés, e quando algum pontapeava a bola que saltava para a estrada lá ia o mais velho  a correr busca-la. Manel, o mais velho dos netos da tia Maria,  rapaz feito, quase homem, já trabalhava, mas menino na hora da confraternização da rapaziada. 
"Olha a bola Manel" som de fundo que me soava ao ouvido. Eu a única menina no meio daquela "pandilha", a prima afastada que estava de visita, era vista coma a boneca de porcelana, impedida de jogar por ser menina. 
Entretinha-me no equilíbrio sobre o muro que separava "o estádio" da estrada cantando baixinho a musica de fundo daquela cena, aplaudia a cada grito de "GOLO!!!" que os rapazes entusiasticamente festejavam.
Se fosse hoje,  cantaria Carlos do Carmo,  pois pareciam mais um bando de pardais à solta. 
As visitas a Santarém, eram emocionantes autenticas viagens no tempo. 
Mas talvez seja  daí que vem a minha antipatia pelo futebol!...





Sílvia Q. Sanches - Outubro 2016

  



segunda-feira, 11 de julho de 2016

A Casa da cultura


A minha infância foi vivida numa época de grandes mudanças causadas pela revolução do 25 de Abril. Os meus pais como tantos outros da sua geração, viviam aquele espírito com muita intensidade e conseguiram transmitir-me o entusiasmo do momento.
                                                   
Participei, com umas quantas dezenas de outras crianças, em actividades lúdicas ao ar livre, organizadas pela então Casa da Cultura, no Parque D. Carlos I. Desenhos e pinturas num papel de cenário desenrolado pelo chão do parque, trabalhar o barro ou plasticina em grandes mesas, (que alegria), ouvir concertos acústicos aos pés do Zé Barata Moura e do Zeca Afonso, saber de cor a Joana Come a Papa, o Olha a Bola Manel e o Grândola Vila Morena, eram coisas que faziam parte da vida social de qualquer criança da época, eu não fui excepção. .



Sílvia Q. Sanches


sexta-feira, 10 de junho de 2016

As Laranjas da "Ti Estrudes"


Algumas das memórias mais vincadas da minha infância, estão ligadas a uma tia carismática que vivia em Santarém. Gertrudes de seu nome, mais conhecida por "Ti Estrudes".
Vivi a infância convencida de que "Tiestrudes" era um nome próprio, de tal forma que sempre me dirigia ou referia a ela, dizia: - A tia "Tiestrudes", a tia das laranjas!!!!
Casa de campo modesta, construída pelo marido, avarento, que de simpatia e bondade nada devia ao divino, paredes finas e chão de cimento colorido, uma casa de banho sem banheira, outrora exterior, ligada à casa por uma sala de estar acrescentada ao longo dos anos, onde a família  se juntava. Todos se atropelavam para se sentar no velho banco de camião, o único e "sofisticadissimo" sofá de couro que existia na casa, bem ao lado da chaminé de chão onde existia um fogão de lenha em esmalte branco.
No fogão que aquecia a casa, fervia uma panela de ferro onde a "Tiestrudes" ia acrescentando os ingredientes secretos de uma sopa mágica da qual ainda guardo o sabor mas não mais saboreei.
A pandega tia, baixa e redondinha com a sua longa trança preta em carrapito, artisticamente enfeitado com ganchos de tartaruga, recebia como ninguém entre anedotas, graçolas, credos, "traques" disfarçados com o arrojar de bancos e histórias de família. Qual a fada madrinha da Cinderela, cheia de truques e magia, qual bruxinha do bem, cuja casa de cantos e recantos escondia tantos mistérios.
O relógio de cuco tocava todas a horas, compassadas pelo tique-taque constante, marcando o tempo interminável que se vivia naquele autentico local de culto.
Obrigatória era a visita ao quarto dos santinhos onde existia uma grande cómoda cujo altar com a Nossa Sra era rodeado de um grande presépio de santos de todas as "qualidades" e fotografias de todos os sobrinhos, irmãos, amigos e conhecidos.
A "Tiestrudes" era conhecida pelos seu dotes curandeiros e rezava todos os dias os seus santinhos pelo bem de todos que lhe pediam ajuda. O cheiro azeite que emanava das lamparinas e das tijelas meias de água onde observava, através de gotas de azeite, se a vida de cada um corria bem ou não.
O momento alto passava pela ligação da santinha à tomada exterior da velha instalação eléctrica, acendendo as luzes coloridas e o som agudo da musica dos pastorinhos.
A hora de dormir era um acontecimento. Um abrir e fechar de gavetas e baús de onde surgiam lençois de linho e cobertores de "papa" que picavam. As camas, mais estreitas do que eu estava habituada a ver em minha casa, eram feitas com todo esmero num ritual do bem receber tão típico da amorosa tia.
Dormir num quarto de anexo era sempre uma aventura. Especialmente pela madrugada, quando se acordava aos primeiros raios de sol com o galo e os melros como despertador.
O cheiro das laranjeiras que cobriam o alpendre, entrava pela janela de vidros martelados encaixados numa quadricula de ferro pintada de verde.
 As laranjas da "Tiestrudes" eram especiais. Apanhava-se um cesto delas, grandes, sujas de um pó preto que nos mascarrava.
Eram escolhidas uma a uma de preferência com filhos porque a "menina" gostava!
À refeição a minha mãe num toque de magia cortava da casca da laranja uns óculos que eu ostentava divertidamente.
Há memórias que ficam, pelos os sentidos que estimulam.
O cheiro inesquecível das laranjas, o calor do fogão de lenha, no sofá feito de banco de camião,
olhando o mundo através dos óculos cortados da casca da laranja, ao som do crepitar do lume... são das memórias que não mais esqueço.
Onde quer que esteja, provavelmente ao lado dos seus santinhos,  sei que a saudosa "Tiesturdes" continua, com a sua mão no peito e a sua gargalhada tão envolvente.
"Avé laranjas da Tiestrudes"!



Sílvia. Q. Sanches 29 Maio 2016 



A Lenda Do Anel De Brilhantes



Vou contar uma das peripécias do meu tio porreiraço. Um autentico cool man de quem muitos gostavam, poucos não. Um filosofo capaz de fazer as delicias de quem o ouvia.
Como sabem, na Foz do Arelho, quando à maré vazia, é só ver gentinha de rabo pró ar a apanhar berbigão. É já uma tradição para muitas famílias, ir à Foz apanhar uma insolação na apanha de uns quilitos de marisco para poupar uns trocos. Já para não falar da apanha ilegal em épocas em que está fechada a apanha por razoes de saúde pública, devido a febres que estes bivalves desenvolvem. Mas o pessoal não liga.  Até é giro depois comer aquilo tudo,  parar no hospital com uma valente diarreia.
Mas naquele tempo que não havia nada dessas maleitas e era tudo fresquinho, fresquinho!
Era ver ainda mais gentinha ali de rabinho para o ar. Tinha dias que era mais gente que berbigão, ou até de grãos de areia.
Ora claro que só os nativos da região e outros tantos tugas,  é que sabiam o propósito daquelas romarias. Os estrangeiritos, coitaditos, não percebiam nada do que se passava ali e perguntavam, claro que ao meu tio, o único poliglota do pedaço, o que fazia toda aquela gente de rabo para o ar ali na água?
Ele, que não se contentava em dar uma explicação simplista da coisa, contava-lhes sempre uma história que lhe vinha a cabeça e um dia nasceu a lenda do anel de brilhantes que pegou e passou a história oficial para estrangeiros.

"A muitos, muitos séculos, ainda a península ibérica pertencia aos mouros, vivia em Óbidos uma bela princesa moura que costumava cavalgar com o seu belo cavalo árabe no areal onde hoje é água. Sim, a lagoa não existia, era um extenso areal que lembrava a princesa o seu deserto que havia deixado ao acompanhar seu pai, um sultão muito poderoso e rico, o rei dos sultões!
Um dia a bela princesa enamorou-se de um belo príncipe filho de outro rei, rival do grande sultão.
Era um amor lindo mas proibido pelos pais. Mas o casal arranjava sempre forma de se ver e um dia trocaram de anéis como que a selar o seu grande amor.
A princesa deu ao príncipe um anel de safiras e o príncipe um lindo anel de brilhantes à sua amada.
Certo dia, a princesa cavalgando no seu cavalo, deixou cair o anel e sentiu uma dor no peito muito forte. O seu príncipe tinha partido para a guerra e ela sentira como que um corte ao deixar cair o anel que ficou perdido no areal.
A princesa sentiu que o seu príncipe tinha partido para o além!
Desde aí passou a procurar o seu anel de brilhantes por aquele areal fora enquanto chorava e tanto chorou que se formou a lagoa de Óbidos. O anel nunca foi encontrado, e ao longo dos séculos cada vez mais são as pessoas que o procuram para o entregar a princesa que ainda chora a morte do seu bem-amado. "

Esta foi a história que me habituei a ouvir, com mais ou menos pormenores, contar aos estrangeiros que iam por ali passando.
Genial, não?!

Silvia Sanches 2008

Mexilhões da Foz



Um dos meus tios maternos, homem muito comunicativo e dado a línguas e culturas estrangeiras, fazia novas amizades muito facilmente com qualquer estrangeiro que lhe aparecesse no bar da praia, negócio da família nessa altura. Eu sempre venerei este tio, era como que o porta-chaves dele, acompanhava-o para todo o lado (possível claro) e seguia-lhe todas as passadas. Eu era a menina do tio e ele era o tio porreiraço que qualquer sobrinho gostaria de ter.
Ele era o maior desenrasca que conheci, nunca o vi atrapalhado com nada, sempre com soluções para tudo, mas nada programado. Fazia sempre tudo em cima do joelho, mas corria sempre bem! Quase tudo! Quase sempre!
Ora o bar situava-se junto ao velho cais da praia da Foz do Arelho e nessa época a agua da lagoa era tão límpida que se via todo o fundo bem como tudo que estivesse dentro dela.
Não se falava em poluição. Não se sabia o que era isso!
Os estrangeiros ficavam fascinados com a beleza bruta da Foz. Tudo era puro, até o povo de lá. (mas adiante)
Uma das especialidades confeccionadas no bar era o mexilhão aberto ao natural acabadinho de apanhar! Verdade, verdadinha!
Sempre que era pedida uma dose de mexilhão, soava a voz de alguém:
- Sai uma dose de mexilhão!!!
Lá ia o meu tio aos pilares do cais arrancar mais uns cachos do afamado mexilhão, fresquinho, fresquinho, que confeccionado pela minha avó, uma cozinheira de mão cheia, estimulava as papilas gustativas de qualquer um.
Os clientes adoravam e os estrangeiros então deliravam com toda esta naturalidade com que se faziam as coisas.



Sílvia Q. Sanches 2010










A marmelada

Sabores de infância


A chegada da primavera transporta-me à minha infância, à felicidade da simplicidade do dia-a-dia de uma criança, dos dias enormes em que, até os rebuçados tinham outro sabor, a marmelada … então nem se fala.

Vejo a minha avó a dar-me uma moeda de vinte e cinco tostões para eu ir buscar marmelada ao Sr. Madeira, mercearia e retrosaria gerida por pai e filhos solteirões muito aprumadinhos e atenciosos.

Todo aquele ambiente, o grande balcão, os armários de madeira com grandes portas de madeira até ao tecto, os frascos cheios de chupa-chupas, os chocolates Regina, na vitrina por detrás do balcão, a maquina registadora com tantos botões como rebuçados dentro dos frascos, o cheiro do colorau vendido a peso e colocado naqueles pacotinhos de papel parecidos com rissóis e aqueles homens, autênticos autómatos silenciosos no seu trabalho, formigas zelosas do seu dever, de bata castanha e postura aprumada.
Encosto-me ao topo do grande balcão de mármore aguardando a minha vez, observando a azáfama daqueles três.  Lá passa o Sr. Chico, embora mais alto o filho mais novo do merceeiro, piscando-me o olho como que a dizer que já me atende e a adivinhando ao que vou.

Chegada a minha vez, vendo-me olhar fixamente o tabuleiro castanho coberto de celofane, o Sr. Chico com a mesma delicadeza com que atende as Sras. mais velhas de sorriso ao canto da boca, nem precisa de perguntar o que desejo, limita-se a pegar naquele tabuleiro valiosíssimo e com uma espátula de madeira corta delicadamente um cubo daquela preciosidade embrulhando com todo o requinte em papel vegetal. Pesa-o na enorme balança colocando noutro embrulho de papel manteiga. Seus dedos mestres em embrulhos, executam-no tão rapidamente como um mágico faz desabrochar uma flor de trás da orelha de alguém.

Levo aquele cubinho celestial e chegando a casa da avó nem espero pela fatia do pão, trinco-o como se de um bolo se tratasse.

Huummm… ainda sinto aquele sabor…

O autentico gostinho dos sabores da infância que nunca mais se esquecem.


" Eu sou pequenina,
Não sei fazer nada
Sei ir à cozinha
Comer marmelada"

Sílvia. Q. Sanches 2010

Peixinhos da sorte!

O meu avô materno vem de uma família numerosa. Eram muitos irmãos. Nem sei bem quantos. Devidas as dificuldades da vida, cedo se separaram e cada um tentou a sua sorte em sítios diferentes. Uns em Alhandra, outros no Montijo, outros em V. F. Xira, aqui em Caldas, enfim de Alenquer para muitos sítios diferentes, até para Inglaterra! E um dos irmãos, o mais carismático que conheci, correu vários lugares com a sua,também grande, família desde a Marinha Grande até Lisboa, onde se instalou numa encosta na zona do Areeiro e por lá construiu a sua alegre casinha com tijolos encontrados por aí, tábuas, folhas de zinco e tal... Bem ao jeito de um filme do Fellini!


Bem, este tio, vivia do seu negócio, alias, de vários negócios. Toda a família tem espírito de negócio e todos alma de inventor. Muito imaginativos. Uns para a fotografia outros noutras artes de viver. O meu avô, por exemplo, construiu a sua primeira maquina fotográfica a la minute bem como muitas outras coisas como decores para a fotografia e mais recentemente para outro negócio com que se entretém agora, as redes. A maioria dedicou-se a fotografia. Esse irmão, o tio António, o mais velho de todos, que não era muito dado as artes, tinha mais jeito para os animais e instalou a sua banca em pleno Martim Moniz ao lado do Hotel Mundial a 20mt de uma grande loja de animais. Vendia passarinhos que criava no seu "palácio" do Arieiro e outros que apanhava nas zonas verdes que ainda existiam em Lisboa.

Um dia, e porque o negócio florescia, resolveu alargá-lo e dedicar-se também aos peixinhos. Começou por vender uns pequenos peixes que os filhos apanhavam nos charcos em terrenos baldios perto do "palácio", aos quais resolveu baptizar de peixinhos da sorte. Eh, eh, Sorte, para ele que ficava com o dinheiro e azar de quem comprava.

- Olha os peixinhos da sorte! – Apregoava ele.

Esses pequenos peixinhos eram pura e simplesmente girinos!

Quando recebia reclamações de que o peixe se tinha transformado em rã ele respondia com o ar mais  ingénuo que conseguia simular:

- Vejam bem como é que a rã foi comer o seu peixinho da sorte, isto há coisa que nem lembra ao diabo, heim!

Pois o diabo junto a este meu tio teria mesmo muito que aprender! Eh, eh, eh!

Que família!

Silvia Q. Sanches 2009

sábado, 7 de maio de 2016

Recordações

Vivia perto da escola,  e nas férias ia brincar no pátio do recreio. Não havia vedações altas nem portões fechados à chave. Os meninos iam para a escola a pé, e tinham a chave de casa. Eu até já sabia estrelar um ovo e fritar umas salsichas, caso a minha mãe não chegasse a casa a tempo de me fazer almoço. Durante a tarde frequentava o ATL do Colégio Ramalho Ortigão. Fazia os deveres da escola mas o sentido estava sempre na brincadeira, no mundo de fantasia, de princesas e rainhas, filhas e mães, guerreiros do espaço, imitando uma série televisiva da época Star Trek.  Gostava de protagonizar a  Maya, uma das tripulantes da nave espacial Enterprise e vulcaniana como o Mr Spock. Transformava-se nas mais variadas criaturas e isso fascinava qualquer criança.
Os nossos Walkie-talkies, telefones portáteis, armas laser, etc. eram nada mais que pedaços de cadeiras velhas amontoadas num dos cantos do recreio. Neles desenhávamos com canetas de feltro, as teclas, ecrãs e botões especiais de laser imaginários. Não tínhamos “Magalhães”, “Play-Stations”, “Nintendo DS”, Tablets, nem sonhávamos que um dia iríamos andar com um pequeno aparelho, chamado telemóvel no bolso, muito menos Iphones, e que  tudo isso iria mudar as nossas vidas. O telefone era um objeto raro, nem todos o tinham em casa, já inventávamos aparelhos fantásticos, que nenhuma criança dos dias de hoje se atreveria sequer a sonhar porque com tanta escolha, tanta variedade, eles nem precisam sonhar. Antes de imaginarem já têm à disposição.
Sou de uma geração feliz, que brincava na rua, subia aos muros, percorria o bairro de bicicleta e jogava à macaca e ao pião no meio da estrada. Temo por uma geração em que os meninos não têm liberdade, não podem sair de casa ou da escola sem a companhia de um adulto, são impedidos de criar livremente e até a comida é geneticamente manipulada, não se sabendo ainda o que pode provocar no futuro. Já para não falar da sua vida social, tão diferente da que tínhamos. Hoje tão solitários agarrados a sistemas virtuais. Será que os meus netos serão gerados via Internet? 

Silvia.Q.Sanches 8-01-2014

terça-feira, 3 de maio de 2016

Capitães da Areia

Passava os verões quase sem vigilância, na praia da Foz do Arelho, enquanto os meus avós maternos faziam o seu negócio, na altura, um bar de praia, e os meus pais tomavam conta da loja de fotografia, o negócio da família. Na Foz do Arelho, junto ao cais, formara-se ali um ponto de venda dos mais diversos negócios, uns com farturas, outros com frangos, outros frutas, brinquedos de praia, enfim, tudo o que o povo consumia ou era levado a consumir, foram anos em que o poder económico do povo português tinha aumentado substancialmente, ainda antes da revolução dos cravos. 
Mas as crianças não sabem o que é politica, e até aos 10 anos vivia os meus Invernos entre a escola, as Atividades de Tempos Livres do Colégio Ramalho Ortigão, as brincadeiras na minha rua e à porta da loja de fotografia, esperando as férias grandes. Os verões que pareciam eternidades, passados na Foz do Arelho, entre os mergulhos no cais e a apanha de caracóis que se coziam ainda com ranhoca, e que faziam as delícias dos lanches da petizada daquele “centro comercial”. O grupo era grande, com idades compreendidas entre os 4 e os 12 anos, formava um autêntico bando de “Capitães da Areia” daquela praia. Éramos os donos do pedaço, e os miúdos que ousassem pensar que nos podiam fazer frente, quer no parque dos baloiços quer na sessão de mergulhos do cais, saíam com certeza de cabeça baixa para, depois da demonstração de “força”, se tornarem grandes amigos do grupo. Posso dizer que tive uma infância livre, talvez demais, mas saudável. Apendemos a ser independentes, a fazer frente aos perigos, ou pelo menos, saber contorná-los, a respeitar as hierarquias, a saber conviver e fazer amigos. Apesar de parecermos um bando de “índios” éramos meninos bons e respeitadores das regras do bem viver, sabíamos respeitar os mais velhos, adorávamos ouvir contar histórias da lagoa ou outras experiências vividas por eles. Ajudar os pais, avós ou tios a arrumar as respetivas vendas era também uma das tarefas de todos os meninos e meninas, ao final de cada dia.

Sílvia Q. Sanches 08-01-2014

Eutanásia

Foi como profissional de saúde que testemunhei histórias de sofrimento. Assisti a momentos de profunda angústia perante a uma vida desgastada e uma morte que tardava em chegar. Situações em que, mesmo com todo o conforto e cuidados de saúde, os idosos pediam que os ajudassem a acabarem com aquele sofrimento. O medo de se tornarem um fardo para aqueles que o rodeavam estava presente a todo o momento e o direito à autodeterminação e liberdade de escolha era-lhes negado.
Quando se chega ao final da vida sem qualquer tipo de mobilidade, incapaz de comer pela própria mão ou de fazer uma qualquer das atividades da vida diária (AVD): levantar-se, lavar os dentes, vestir-se sozinho, etc… não há qualquer motivo para se permanecer a vegetar no leito de uma cama, literalmente a apodrecer. Todos temos direito a uma vida e morte digna.
Se a situação for irreversível para quê viver com o auxílio de máquinas?
 A maioria da classe médica rege-se, essencialmente, pela saúde do doente o respeito absoluto pela Vida Humana desde o seu início e em não fazer uso dos conhecimentos médicos contra as leis da Humanidade, esquecendo que também que deve zelar pela dignidade do doente e acabar com a má qualidade de vida.
Desligar as máquinas que mantêm aqueles que se encontram em morte cerebral poderá provocar sofrimento, ainda que por pouco tempo e do ponto de vista religioso é considerado usurpação do direito à vida humana, afinal, todos temos direito à vida. É necessário o consentimento do interessado e por vezes isso não acontece mas desde que não haja qualquer esperança de vida, na minha opinião, deve ouvir-se o apelo do bom senso e não deixar que o capricho da ciência se sobreponha ao verdadeiro sentido da vida. Não havendo esperança de vida, a ciência deve sim, proporcionar uma morte digna e não um prolongar do sofrimento tanto do doente como de quem o rodeia.
A legislação também não ajuda, aquele que de alguma forma ajudar um doente a acabar com o seu sofrimento, poderá ser condenado por homicídio.
A eutanásia passou da simples lei do mais forte à capacidade de compreender o sofrimento alheio em que facto de ninguém ser igual a ninguém e haver diferentes formas de encarar a morte tem tornado este tema tão polémico.
Sou a favor da eutanásia desde que a condição do doente (velho, adulto ou criança), seja bem avaliada e não haja qualquer esperança de vida digna.

Sílvia Q. Sanches - Dez 2013 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A vida depois dos 40


Chegam os 40, e se há a quem nada acontece e segue a sua vida, abastada, ou não, também há quem não se acomode à idade e continue a lutar como se tivesse 20 ou mesmo 30 anos. 
Já estou à 2 anos no clube dos 40 e na verdade já sinto diferença. Não na vontade de viver, nem na capacidade de sonhar. Na capacidade de trabalho, sinto-me mais capaz até do que noutros períodos da minha vida. Estou mais responsável, mais experiente e com muita vontade de lutar por aquilo que acredito. Mas o "crachá" deste clube, por muito mérito que me traga, tem-me vedado a entrada em muitas oportunidades de emprego.
Mesmo sem nos conhecerem, só o facto apresentar a idade, fecham de imediato as portas e a oportunidade de poder mostrar o que se vale.
Dou comigo a pensar que afinal, quem faz a selecção das propostas de emprego são jovens, talvez com menos de 35 ou mesmo 30 anos, saídos das universidades à meia dúzia de anos, com uma carreira promissora, proporcionada pelo esforço dos seus pais que lhes pagaram os cursos e pós graduações. Inchados da vaidade e cegos pela tecnologia, esquecem que existem pessoas que não frequentaram as faculdades, mas a vida e a vontade de aprender, mesmo já "fora  de tempo", que nunca é tarde para aprender, podem ser tão ou mais valiosas para trabalhar. 
Entendo que o choque de gerações tenha algum peso. Mas as gerações completam-se, e não é só nos livros que se aprende a valorizar os outros e o seu trabalho. Conhecer os mais velhos, ouvi-los, valoriza-los e ter em conta os seus exemplos de vida. Sinto que é isso que falta em Portugal, neste momento.
Se somos um país  com tendência ao envelhecimento da população, dever-se-ia cultivar mais o respeito pelos mais velhos, dar oportunidade a quem tem capacidade e quer trabalhar. 
Não é isso que eu vejo nem sinto. 
Vejo valorizar os jovens recém licenciados, e muito bem. 
Vejo o cuidado para com os reformados que afinal, são os nossos alicerces, é justo.
Mas sinto-me num grupo à margem, que se não tem trabalho, é velho para trabalhar naquilo que quer, e é novo demais para se sentar num cadeirão à espera do que por aí vem. 
Se tenta melhorar a formação académica, é quase um motivo de chacota, tanto por parte dos mais novos a quem ajudou a formar como contribuinte, quanto por parte os da sua idade com o seu emprego "seguro" e os seus "canudos" bafientos. Resta-lhe concorrer com aqueles que por um motivo ou outro nunca tiveram interesse em saber mais do que ir trabalhar todos os dias nas mais elementares tarefas, e que com todo o mérito, porque são tão sábios quanto todos os outros, foram quem manteve o contributo mal gerido pelos que saíram de institutos e universidades. 
Não se é nem indiferenciado, nem se é aceite como um profissional de uma qualquer profissão.
Não consigo vislumbrar a tão apregoada ternura dos 40.