sexta-feira, 10 de junho de 2016

Mexilhões da Foz



Um dos meus tios maternos, homem muito comunicativo e dado a línguas e culturas estrangeiras, fazia novas amizades muito facilmente com qualquer estrangeiro que lhe aparecesse no bar da praia, negócio da família nessa altura. Eu sempre venerei este tio, era como que o porta-chaves dele, acompanhava-o para todo o lado (possível claro) e seguia-lhe todas as passadas. Eu era a menina do tio e ele era o tio porreiraço que qualquer sobrinho gostaria de ter.
Ele era o maior desenrasca que conheci, nunca o vi atrapalhado com nada, sempre com soluções para tudo, mas nada programado. Fazia sempre tudo em cima do joelho, mas corria sempre bem! Quase tudo! Quase sempre!
Ora o bar situava-se junto ao velho cais da praia da Foz do Arelho e nessa época a agua da lagoa era tão límpida que se via todo o fundo bem como tudo que estivesse dentro dela.
Não se falava em poluição. Não se sabia o que era isso!
Os estrangeiros ficavam fascinados com a beleza bruta da Foz. Tudo era puro, até o povo de lá. (mas adiante)
Uma das especialidades confeccionadas no bar era o mexilhão aberto ao natural acabadinho de apanhar! Verdade, verdadinha!
Sempre que era pedida uma dose de mexilhão, soava a voz de alguém:
- Sai uma dose de mexilhão!!!
Lá ia o meu tio aos pilares do cais arrancar mais uns cachos do afamado mexilhão, fresquinho, fresquinho, que confeccionado pela minha avó, uma cozinheira de mão cheia, estimulava as papilas gustativas de qualquer um.
Os clientes adoravam e os estrangeiros então deliravam com toda esta naturalidade com que se faziam as coisas.



Sílvia Q. Sanches 2010