sábado, 7 de maio de 2016

Recordações

Vivia perto da escola,  e nas férias ia brincar no pátio do recreio. Não havia vedações altas nem portões fechados à chave. Os meninos iam para a escola a pé, e tinham a chave de casa. Eu até já sabia estrelar um ovo e fritar umas salsichas, caso a minha mãe não chegasse a casa a tempo de me fazer almoço. Durante a tarde frequentava o ATL do Colégio Ramalho Ortigão. Fazia os deveres da escola mas o sentido estava sempre na brincadeira, no mundo de fantasia, de princesas e rainhas, filhas e mães, guerreiros do espaço, imitando uma série televisiva da época Star Trek.  Gostava de protagonizar a  Maya, uma das tripulantes da nave espacial Enterprise e vulcaniana como o Mr Spock. Transformava-se nas mais variadas criaturas e isso fascinava qualquer criança.
Os nossos Walkie-talkies, telefones portáteis, armas laser, etc. eram nada mais que pedaços de cadeiras velhas amontoadas num dos cantos do recreio. Neles desenhávamos com canetas de feltro, as teclas, ecrãs e botões especiais de laser imaginários. Não tínhamos “Magalhães”, “Play-Stations”, “Nintendo DS”, Tablets, nem sonhávamos que um dia iríamos andar com um pequeno aparelho, chamado telemóvel no bolso, muito menos Iphones, e que  tudo isso iria mudar as nossas vidas. O telefone era um objeto raro, nem todos o tinham em casa, já inventávamos aparelhos fantásticos, que nenhuma criança dos dias de hoje se atreveria sequer a sonhar porque com tanta escolha, tanta variedade, eles nem precisam sonhar. Antes de imaginarem já têm à disposição.
Sou de uma geração feliz, que brincava na rua, subia aos muros, percorria o bairro de bicicleta e jogava à macaca e ao pião no meio da estrada. Temo por uma geração em que os meninos não têm liberdade, não podem sair de casa ou da escola sem a companhia de um adulto, são impedidos de criar livremente e até a comida é geneticamente manipulada, não se sabendo ainda o que pode provocar no futuro. Já para não falar da sua vida social, tão diferente da que tínhamos. Hoje tão solitários agarrados a sistemas virtuais. Será que os meus netos serão gerados via Internet? 

Silvia.Q.Sanches 8-01-2014